22 Novembro, 2009

Discutir o quê?

Postado por Fabiano Ristow

(Há spoilers nesse texto. Nada que você não descubra vendo o trailer, no entanto.)

Parece que “Do começo ao fim” não criou expectativas tanto por mostrar uma relação incestuosa gay quanto por mostrar uma relação incestuosa gay num filme brasileiro. E sem favela, nem sertão.

CONTINUE LENDO

6 Novembro, 2009

Jogos, Trapaças e Amor Fraterno

Postado por Rodrigo Pinder

brothers-bloom-rs2

As pessoas deviam dar mais atenção a Rian Johnson. Ele está fazendo coisas raras no Cinema. São raras, por exemplo, as ocasiões em que você pode usar o termo “pastiche” com uma conotação positiva. Mesmo o imitador mais bem-sucedido do mundo (Tarantino) é ocasionalmente acusado de superficialidade. Nesse espectro, Johnson parece disposto a fazer carreira de exceções que provam a regra. Brick, o longa de estréia do diretor (lançado direto em DVD no Brasil com o título A Ponta de um Crime[1]) atiçou o circuito indie assim que apareceu em Sundance.

Trata-se de uma obra singular, que utiliza uma das premissas mais básicas da ficção (a investigação de um crime) para criar um drama complexo, injetando uma atmosfera noir e riffs de histórias de gangsters e detetives em um ambiente de filme colegial. A combinação a priori pode soar ridícula, mas a genialidade está justamente em mostrar o quanto os clichês de ambos os gêneros são parecidos: manipulação, um herói proscrito, violência, valentões, femme fatales, etc. Podia ter dado errado, mas funcionou porque a direção confiante acertou o tom exato entre sátira e seriedade.

Foi o suficiente para que seu segundo projeto contasse com um orçamento aproximadamente 40 vezes maior e dois Academy Award Winners® no elenco. The Brothers Bloom (lançado no Brasil com o título Vigaristas [2]) pode não ser tão original quanto Brick; a montagem e a trilha criam um clima vívido e amigável para o público (ocasionalmente evocando bastante o estilo de Wes Anderson), mas acessibilidade não é necessariamente uma característica ruim. Brick é talvez uma expressão mais pura da arte do autor, mas Bloom é simplesmente mais rico e divertido, além de discutivelmente mais maduro.

CONTINUE LENDO

5 Outubro, 2009

A Arte De Arruinar A Diversão Alheia

Postado por Rodrigo Pinder

partypooper

Como este será um post informal (i.e. inútil), valerei-me da velha técnica de começar com uma anedota para ganhar simpatia.

Eu devia ter uns 13 ou 14 anos quando fui ao cinema ver Anjo Malvado (aquele onde o primo do Frodo, Macaulay Culkin, é um anjo malvado). O filme abre com um jogo de futebol colegial (meados de 90 foi a época em que o soccer começou a ficar semi-popular nos EUA) e, como esperado, alguém faz um gol. Nesse momento, um homem sentado no fundão da sala se levantou e gritou GOOOOOOOOL! com toda força de seus pulmões. Todo mundo riu. Foi a melhor parte do filme. E o cara não abriu mais a boca até o final.

Esse momento ficou gravado na minha memória mais do que o próprio filme [1], evidência de que esse tipo de manifestação inspirada é raríssimo.

As verbalizações mais freqüentes são invariavelmente inúteis e quase certamente incômodas, a sala de cinema tratada como a sala da casa da mãe no almoço de Domingo. Isso faz meu sangue ferver. Eu entenderia se alguém gritasse “fogo” ou “estupro”, ou algo do tipo. Nesses casos hipotéticos eu até apoiaria interromper a projeção e acender as luzes. Mas esses casos hipotéticos nunca aconteceram em nenhuma das sessões em que estive. Papo furado, no entanto, sempre foi quase certeza.

Decidido a fazer alguma coisa, embarquei em uma pesquisa antropológica onde defini os conceitos básicos da Arte De Arruinar A Diversão Alheia (ou ADAADA, porque eu gosto de palíndromos). A mais importante descoberta foi que, apesar da espontaneidade e do improviso serem inerentes à pratica desse hábito, é possível definir sete grupos que compartilham certos padrões de comportamento. Conheça-os após o jump.

CONTINUE LENDO

1 Outubro, 2009

Por que eu me desiludi com os festivais de cinema

Postado por Fabiano Ristow

desilusão

Eu disse no Twitter que me desiludi com festivais de cinema porque a maior parte dos filmes realmente bons (os ruins ou medíocres não contam) acaba estreando depois, e foi como peidar na missa.

Antes de qualquer coisa, eu queria deixar claro que é uma postura pessoal e continuo achando totalmente válido e bonito todo mundo indo nos festivais. Na verdade, eu adoraria estar no Festival do Rio vendo filmes também, mas não estou. E a grande surpresa é que isso não me faz mais sentir culpado.

Minha desilusão, em termos gerais, é fruto de problema financeiro. Eu cheguei à conclusão de que, se você tá com grana e tempo sobrando, o festival é aproveitável. Caso contrário, desilusão. Pouco vale o esforço.

Enfim, o que me responderam no Twitter foi mais ou menos isso:

1) Claro que filmes bons não estream. Por exemplo: “Exemplo#1″, “Exemplo#2″, “Exemplo#3″ etc.
Sim, eu estou ciente disso. Alguns dos meus filmes favoritos eu vi em festivais e nunca estrearam. (sério) Mas são minoria. É uma proporção de ¼, sendo otimista. (Lembrando que filmes ruins ou medíocres não entram no cálculo, porque senão fica fácil, ok?)

CONTINUE LENDO>

29 Setembro, 2009

Esperei o DVD: Pr&$$@910

Postado por Rodrigo Pinder

knowing_movie_image_nicolas_cage__4_

Todo mudo já viu esse, certo? Não preciso colocar um aviso de SPOILER aqui, preciso?

Bom, talvez eu precise. Talvez o que é óbvio para mim não seja tão óbvio para outras pessoas. Talvez exista um propósito no universo, um Objetivo Maior, um Plano Inefável. Ou talvez a vida seja apenas uma série de acontecimentos randômicos, porém inevitáveis. De onde viemos? Para onde vamos? Por que eu sou obrigado a compartilhar das músicas ruins que meus vizinhos ouvem?

Estas são as questões fundamentais da existência humana, e uma dramatização envolvendo um cético deparando-se com uma prova inegável de presciência sobrenatural poderia ser um jeito intrigante de explorá-las, mas os três roteiristas deste filme aparentemente estão mais preocupados com (a) catástrofes, (b) terror fantasmagórico e (c) Nicholas Cage correndo e/ou gritando com pessoas.

Os apologistas de Dark City vão ter que me desculpar, mas Alex Proyas nunca teve muita sensibilidade para lidar com roteiros. Não dava pra esperar que ele tivesse, por exemplo, os cojones de cortar o que é provavelmente o prólogo mais dramaticamente inútil de todos os tempos, ou exigir uma revisão no segundo ato, prolongando a descoberta e criando suspense através da ambiguidade. Como não há espaço para dúvidas e logo fica claro que as previsões são à prova de balas, a tensão é natimorta, a duração um mero capricho e cada obstáculo um exercício de futilidade.

CONTINUE LENDO>

24 Setembro, 2009

Advogado do Diabo: A Ingrata Tarefa de Defender Anticristo

Postado por Rodrigo Pinder

boo

Nenhum filme fez mais barulho em Cannes do que Anticristo, inclusive no senso literal: risos e gemidos incrédulos durante os momentos mais chocantes da projeção foram um mero prelúdio para a trilha cacofônica de aplausos e vaias (as vaias venceram) que acompanhou os créditos finais. Críticos estupefatos imediatamente condenaram-no como ofensivo, questionando sua presença entre a seleção oficial do festival; alguns ficaram especialmente indignados ao descobrir que Lars Von Trier dedicara um filme contendo mutilação genital explícita a Andrei Tarkovsky.

A fogueira estava acesa, e o júri ecumênico (cuja função habitual é premiar um filme que promova “valores espirituais e humanistas”) se sentiu na obrigação de despejar mais lenha, desdobrando uma manobra agressiva: Anticristo recebeu um Antiprêmio (lol), por sua “visão misógina.” O júri de verdade, por sua vez, indicou-o à Palma de Ouro e premiou Charlotte Gainsbourg por sua (corajosa, assustadora) atuação. A verdade é que o filme estava fadado a provocar controvérsias e reações radicais do tipo ame-ou-odeie desde sua concepção.

Quando lidando com uma obra extremamente pessoal e totalmente destituída de convenções de gênero (apesar de vendida como “terror”), é difícil tentar impor uma síntese dialética à sua recepção e chegar a um consenso do tipo “fãs de isso e aquilo vão gostar.” Sua apreciação vai depender muito do quanto você se sintonizar com a sensibilidade bizarra do filme. Mas isso não funciona para a mídia, que trabalha com rótulos de caracteres limitados. Afinal, seria Anticristo uma bomba, uma piada, uma obra-prima ou o quê?

CONTINUE LENDO>

17 Setembro, 2009

Tudo no mesmo saco

Postado por Fabiano Ristow

sarney

Sarney disse ontem que a mídia tinha passado a “ser inimiga das instituições representativas”, porque ela mesma estaria se colocando como representante do povo, um papel que deveria ser do Congresso, assim criando-se um embate entre os dois.

Naturalmente, a mídia caiu em cima e criticou a suposta crítica à mídia, e quando hoje a assessoria de Sarney disse que ele na verdade não criticou a mídia e sim fez uma “exposição teórica sobre o antagonismo do imediatismo da mídia eletrônica ao prazo dos mandatos parlamentares”, a mídia criticou o fato de ele ter dito que não era uma crítica à mídia.

Talvez, se amanhã o Sarney criticar a crítica à não-crítica dele, haverá uma crítica à crítica e assim sucessivamente. Bem, como nem eu entendi o que eu acabei de falar, deixa eu ir direto ao ponto.

CONTINUE LENDO>

15 Setembro, 2009

Enquanto eu via True Blood, eu pensava o seguinte…

Postado por Fabiano Ristow

sarah

Ninguém aguenta mais ouvir falar em True Blood, de modo que vou fazer apenas alguns blocos de comentários aleatórios, primeiro sobre a série em geral e depois sobre o season finale.

*Eu sabia que haveria vampiros e estava pronto pra aceitar o universo fantasioso. Mas aí entrou uma garota que lê mentes. Depois um homem que se transforma em cachorro. Quando eu ouvi alguém mencionando a existência de dragões, eu percebi que a série e eu, nós teríamos problemas. Com um bom roteiro, a gente acredita até em fauno. Sem, não dá pra esperar que aceitemos qualquer delírio de criança.

*Falando em criança, a série só não é infantil porque é adolescente. Ela reúne todos os ingredientes selecionados especialmente para fazer borbulhar os hormônios de fanboys em puberdade. A receita é clássica: violência gratuita, pessoas bonitas e sexo. De preferência, pessoas bonitas fazendo sexo com violência gratuita. Pensei pra mim: “Falta a lésbica sexy”. Aí contrataram a Rachel Evan Woods Evan Rachel Wood pra interpretar a Rainha dos vampiros, uma lésbica sexy. Royal flush.

(Falando em Rachel Evan Woods… No passado ela era indicada ao Oscar, hoje ela interpreta uma lésbica sexy cuja única função na trama é explicar pro público através de diálogos expositivos como matar o Vilão. Ps.: Ela joga dados enquanto faz isso.)

CONTINUE LENDO>

7 Setembro, 2009

Pena de Morte: Sem Graça

Postado por Luis Calil

barbie_electric_chair

Aqui vão algumas considerações sobre a pena de morte que eu precisava tirar da cabeça, inspiradas por este excelente artigo de Michael Shermer:

Se a preferência por pena de morte se dá pelo desejo de uma satisfação emocional de punição e vingança, de uma atitude “olho por olho”, então ela é uma preferência predominantemente religiosa, justificada pela idéia dum Inferno onde o criminoso sofrerá de forma bem mais perversa do que passar o resto da vida numa cela com cama, vaso, revistas, cigarros, TV, etc. (Apesar de Cristo ter dito alguma coisa sobre mostrar a outra bochecha…)

Para um ateu, como eu, isso não cola. Quando um criminoso é executado, ele deixa de estar consciente e, portanto, deixa de ter oportunidades de sofrer. Pode-se dizer que tirar o seu direito de viver é a punição, mas quando esse direito for removido, o criminoso não vai estar acordado para reclamar. É por isso que eu costumo falar que é muito mais satisfatório, para um ateu sádico, ver o criminoso sofrendo por décadas na gaiola do que sofrendo alguns anos e morrendo.

CONTINUE LENDO>

3 Setembro, 2009

Onde o livro não tem vez

Postado por Fabiano Ristow

theroad

O Festival de Veneza começou ontem e um dos filmes queridinhos é “A estrada”, de John Hillcoat, e você precisa vê-lo. Primeiro porque ele é baseado no livro do Cormac McCarthy, o mesmo cara que escreveu “Onde os fracos não têm vez”, que você gosta. Essa associação entre as duas obras vai ser o chamariz que todas as campanhas de divulgação vão explorar para atrair público. Vão explorar como um urso polar em dieta proteica há três semanas explora as estranhas de uma foca robusta. O filme vai estampar “Do autor de Onde os Fracos Não Têm Vez” em todos os trailers, pôsteres e spots de TV. Ele vai se apoiar nisso como um amputado se apoia em outras pessoas pra subir num ônibus.

Segundo porque, assistindo ao filme, você não precisa ler o livro. Eu sei que existe uma espécie de regra tácita nos orientando a nunca dizer uma frase como “Pra que ler se vai ter um filme”, mas é isso, não leia o livro, veja o filme. Basicamente é o tipo de livro que te faz pensar a cada dois minutos: “Isso ficaria bacana num filme”.

CONTINUE LENDO>

3 Setembro, 2009

Grizzly Bear “AmericanIdolizam” Seu Novo Single

Postado por Luis Calil


michael_mcdonald

Ele meio que lembra um urso. Polar.

Pense na sua música favorita desses últimos tempos. Qualquer uma. Agora imagine que a banda decidiu remover a gravação vocal original, que você já conhece tão bem quanto a palma da sua mão [1]. Apreensivo? Imagine então que o cantor que eles decidiram chamar pra gravar um vocal substituto é o Ed Motta. A não ser que a música que você escolheu seja do Ed Motta, a idéia deve soar no mínimo maliciosa.

Foi justamente isso que a devidamente venerada banda indie-folk-rock-psicodélico-etc Grizzly Bear decidiu fazer pro lado-b do novo single deles, “While You Wait for the Others”. O convidado foi Michael McDonald, o equivalente americano a essa modalidade de cantores soul/brega tipo Ed Motta, Fábio Junior, etc. De acordo com essa entrevista, McDonald é fã da banda, e foi inicialmente convidado só pra adicionar alguns backing vocals aqui e ali (como se essa banda, onde todos os membros cantam em praticamente todas as músicas, precisasse de mais backing vocals). Acabou que eles gostaram tanto das adições do barbudo grisalho que decidiram empurrar de lado o vocal maravilhosamente tremido e aveludado de Dan Rossen e colocar a monstruosidade que é a voz de McDonald no cockpit.

O resultado é monstruosamente divertido. Escutem:

CONTINUE LENDO>

29 Outubro, 2008

Observações Sobre o Show do The National e os Eventos Subseqüentes…

…em Ordem Semi-Cronológica.

Postado por Luis Calil


*Não havia ninguém quando chegamos – nós sendo eu, Didier, Ana Paula e Kain, todos aparentemente fanáticos por The National (eu, é claro, sendo o mais pateticamente fanático – provavelmente de toda a platéia) – o que me fez pensar por alguns instantes que o The National tocaria pra uma platéia de 100 pessoas. Obviamente o número acabou aumentando pra pelo menos umas 600 quando a banda entrou no palco, e não é como se eles nunca tivessem tocado pra menos gente, especialmente considerando que o Brasil é um país tropical subdesenvolvido no qual rock independente não é exatamente um enorme chamativo. Mas mesmo assim, o fã em mim queria que eles recebessem a resposta apropriada ao talento.

*Falando em fãs, percebi que durante a noite, eu tomei várias atitudes cuja natureza tiética (derivado de tiete) não podia estar mais óbvia e clara. A primeira delas foi comprar um botão que estavam vendendo lá, com uma foto do Barack Obama, escrito “Mr. November” embaixo. Eu gosto do Obama, eu gosto da “Mr. November”, a idéia é cômica e pertinente (se há um refrão que eu espero que Barack cante num hipotético show de rock democrata, seria “I won’t fuck us over, I’m Mr. November”), e estava barato. Ainda sim, eu não vou ter muito uso pra esse botão agora.

CONTINUE LENDO>

26 Outubro, 2008

SPIFF – Sábado 25

Postado por Luis Calil

Leonera (Pablo Trapero) – 7
Um daqueles casos onde o filme vai discretamente te fisgando: a primeira meia hora, introduzindo a situação da protagonista – uma mulher presa por assassinato e colocada na ala de maternidade de uma cadeia por estar grávida – se mantém num modo de observação naturalista respeitosa, sem nenhum aparente rumo, e embora o ambiente seja interessante (e inovador - não lembro de outros filmes sobre maternidade na cadeia), não parece que o filme vai chegar em lugar algum. De repente, o tédio sumiu, e eu notei que estava tentando segurar lágrimas - isso porque Trapero foge da brutalidade de filmes de cadeia e mostra a rotina da protagonista com extrema sensibilidade. E na segunda metade, o drama propriamente dito surge e dá um motor pra narrativa, que vira uma luta de uma mãe pelo seu filho, com direito a tensão Dardennesca. Tematicamente e psicologicamente simples, mas feito com bom gosto e inteligência.

Revanche (Gotz Spielmann) – 6
Gostaria de rever Revanche quando eu estivesse menos sonolento (o motivo desse sono eu não consigo compreender; a noite anterior foi a que eu mais dormi nessa semana). Não que eu tenha dormido durante a sessão, mas em alguns trechos eu tive que travar uma batalha com minhas palpebras, o que desviou a minha atenção de um filme que requer extrema concentração. O estilo de Spielmann é simples, sutil e quase clássico, sempre cortando no lugar certo, mexendo a camera na hora certa e mantendo um ritmo constante. E embora a premissa seja meio batida – é sobre vingança – ela é desenvolvida com bom gosto e inteligência (hoje foi o dia de bom gosto e inteligência). Mas eu acredito que mesmo uma experiência totalmente lúcida não ia acabar com a minha suspeita de que o filme poderia ter perdido uns 30 minutos (ou mantido um ritmo levemente mais veloz) sem nenhum problema.

The National @ Tim Festival
Eu não tenho tempo o suficiente agora para descrever a experiência; vou deixar isso para um post na terça ou quarta-feira, quando eu tiver voltado pra casa. Mas eles tocaram pra caralho, a voz do Matt tava macia como a bunda de um bebê francês, o set list foi bastante satisfatório, ”Baby We’ll Be Fine” destruiu meu coração, eu fiquei rouco de gritar e nós (eu e amigos) passamos uns 25 minutos em total falando com membros da banda (e sim, tirando fotos). Nada mal.

25 Outubro, 2008

Tim Festival

Postado por Fabiano Ristow

Neste dia pós-show do The National, eu me sinto como se tivesse terminado um namoro, ou como se tivesse apaixonado. Existe algo de extraordinário existindo, mas não posso (mais) tê-lo. Foi perfeito.

Já tem reviews do show espalhados pela internet, portanto só vou mencionar algumas curiosidades.

Em Slow Show, houve um problema com as caixas de som que forçou a banda a parar de tocar. Quando tudo se normalizou, foi o microfone do Matt que não funcionava. A platéia surpreendeu e o socorreu, cantando YOU KNOW I DREAMED ABOUT YOU FOR 29 YEARS BEFORE A SAW YOU a plenos pulmões. Matt não teve escolha a não ser apontar o microfone para a platéia. A banda entrou em êxtase.

Antes do show começar, eu estava no lounge de entrada quando reparo que ele, sim, ele, Matt Berninger, está vindo em minha direção. Tremendo que nem pau de vira tripa, fui em frente:

Eu: Hi. Excuse me. Sorry. We’re huge fans of The National.
Matt: Oh, hi. Nice to meet you.

Tirei foto. E agora estou feliz e apaixonado para sempre.

Perdi quatro quilos quando tocaram Squalor Victoria, na qual guitarras e metais se juntam a um único violino, insuficiente para reproduzir o conjunto de cordas que ouvimos na versão de estúdio. O resultado ficou perfeito, um arranjo crescente que explode num clímax orgasmático.

Setlist:

Start a War
Brainy
Secret Meeting
Baby we’ll be fine
Slow Show
Squalor Victoria
Abel
Racing Like a Pro
Mistaken for Strangers
Ada
Apartment Story
Fake Empire
Mr. November

Eu acho que eles iam terminar em Ada, mas o Matt insistiu umas três vezes para a equipe do Tim Festival os deixarem tocar uma saideira, depois mais outra e depois mais uma. Ele implorava com um dedo indicador balançando na direção dos homens ao fundo do palco que pareciam querer interromper o show. O pedido foi atendido – graças a Deus, porque o desfecho Fake Empire-Mr-November foi indescritível. Talvez o nosso amigo Luis, que vai assistir a eles hoje em São Paulo, possa nos oferecer uma descrição mais precisa para explicar o quão emocionante é vê-los ao vivo.

MGMT foi chato.

25 Outubro, 2008

SPIFF – Sexta 24

Postado por Luis Calil

O Silêncio de Lorna
(Irmãos Dardenne) – 8
Típica excelência Dardennesca. Tá tudo aí: narrativa espetacularmente econômica (a revelação da morte de um personagem é quase subliminar), os detalhes sugestivos, os momentos perturbadores que surgem da lógica inescapável da história (a cabeçada na parede é “dolorosa”), e aproximadamente no meio do filme, eu percebi que estava mais emocionalmente envolvido com a protagonista do que eu jamais tive na filmografia dos Dardenne. Nunca antes eu tinha visto um personagem deles num momento de felicidade, e a idéia de que ela ia eventualmente acabar fez meu estômago revirar. A “mudança” psicológica por qual a protagonista passa no terceiro ato é tematicamente simples e perturbadora, mas ela acabou distanciando o meu envolvimento na história. Mas é impossível não admirar.

Meu Winnipeg (Guy Maddin) – 6
Ocasionalmente hilário, mas a narração pirada e melodramática do Maddin fica monótona após um certo tempo, e as imagens – expressivas mas cansativamente frenéticas - servem mais para colorir o texto dele do que pra funcionar por si só ou adicionar novas dimensões. Eu consigo citar vários detalhes da prosa de Maddin (“toboganing children”) que eu adorei, mas as melhores cenas foram as recriações de momentos da sua infância com sua família (a maior parte interpretada por atores comicamente incompetentes). Se o filme inteiro fosse daquele jeito eu teria provavelmente o amado.

Queime Depois de Ler (Joel & Ethan Coen) – 8
Ocasionalmente hilário - Parte II, mas não tem a riqueza inventiva e emocional de O Grande Lebowski. Em outras palavras, eu não me importei muito com nada do que estava acontecendo, e as risadas eram secas e meio vazias. O que é a intenção, sim. É um filme sobre completos idiotas, ao contrário do Lebowski, que era um idiota admirável. Mas pra um filme funcionar sem nenhum ponto de identificação, ele teria que compensar formalmente ou tematicamente (ou pelo menos me fazer rir o suficiente pra esquecer). Não é o caso. Os Coen adicionam duas camadas paralelas de subtexto envolvendo o 11 de Setembro – uma realçando a paranóia desastrada dos personagens, e outra mostrando como a falha de comunicação entre a CIA e o FBI (e nesse caso, o Hardbodies) causou terríveis consequências – mas nenhuma das duas é particularmente incisiva ou desenvolvida. Eu ia ficar com um 7 respeitável pra esse, mas a profundamente engraçada cena final empurrou um pouco a nota.