Postado por Fabiano Ristow
Eu olhava para a Fátima Bernardes e pensava: “E se ela sentir vontade de arrotar no meio da notícia?”
Um dia ela arrotou. Interrompeu a frase, levou a mão fechada à boca, soltou uma discreta e silenciosa golfada, voltou a olhar para a câmera, pediu perdão e continuou como se nada tivesse acontecido.
Curiosidade matada, mas então passei a refletir: E se sentir vontade de espirrar? Como manter a elegância nesse caso?
Nunca vi um âncora espirrar, embora já tenha visto vomitar. Desconsiderando a óbvia diferença de gravidade, ambas as situações são constrangedoras. Apresentar um telejornal é tenso, é o que penso. Não é só uma questão de evitar erros inerentes à profissão, como confundir uma palavra escrita no teleprompter e prejudicar a locução. É uma questão de impedir eventuais manifestações fisiológicas.
É mais ou menos esse o espírito quando você vai assistir a um concerto. A magnitude e erudição musical requerem por parte do ouvinte atenção hipnótica. Instrumentos de corda, sopro e metal unem-se em harmonia, mas com concentração você descobre camadas sonoras e faz combinação entre elas.
(Eu consigo fazer isso ouvindo Arcade Fire também)
Ou seja, você, como público, não pode produzir um ruído sequer para não atrapalhar a concentração dos outros espectadores. A dica é trancar os lábios quando vem o espirro inevitável, mesmo que isso signifique o estouro de artérias ou deslocamento ocular.
Fui a um quinteto de cordas na Sala São Paulo e comi Tic-Tac. Um ato de movimentos suficientemente calculados e discretos para ninguém se dar conta da minha existência, mas que resultou num crime quando a embalagem caiu no chão e quicou daquela forma mais escrota possível, como uma bolinha de gude: primeiro bate uma vez, depois outra, e assim sucessivamente, numa progressão rítmica crescente, o som ecoando na sala acusticamente projetada para este preciso fim.
Interessante que a reação das pessoas ao redor– ah, sim, cabe uma observação precedente aqui: por que não havia na platéia nenhum HÉTERO com menos de 25 anos? Por que os poucos jovens presentes eram GAYS? Enfim, interessante que a reação das pessoas ao redor não foi de indignação, mas de espanto. Ninguém fez “Shhh”, mas “Oh!”. Ou seja, o pensamento coletivo naquele momento não foi: “Que pessoa inconveniente”, e sim: “Como alguém OUSA fazer isso?”
Domingo passado fui ao Theatro Municipal, e foi o oposto.
Cheguei em cima na hora e, obviamente, comprei meu ingresso com cambista. Me custou R$ 10, mas o valor real era de R$ 1, já que se tratava de um festival de música clássica popular (Rio Folle Journée).
Assento: G41, também conhecido como Cu do Judas. Localização: um galpão no terceiro andar, sem ar condicionado, com cadeiras achamboadas e vista para a metade direita do palco apenas. Atmosfera: paraibana. (Nada contra os paraibanos, sou descendente de um, apenas atentemos à idéia da expressão) Sensação: medo.
Já vi circos mais comportados. As crianças choravam, as Ruffles farfalhavam, os telefones sem-fio corriam desenfreados, as pessoas levantavam para ir ao banheiro a cada 15 segundos (forçando o resto da fileira a se levantar ou contorcer para abrir caminho). No intervalo, uma voz pediu pela terceira vez: “Por favor, NÃO tirem fotos.”
Tinha esse rapaz na minha frente que nos primeiros 20 minutos decidiu brincar de discreto burguês com os amigos, reprovando com a cabeça cada ruído proveniente de um mau comportamento qualquer. Nos últimos 20 minutos, incorporou a aposentada fofoqueira e se entregou a um bate-papo super descontraído com os amigos, que se estendiam da cadeira ao seu lado até um quinto assento – o que, naturalmente, implicava em gesticulações afetadas e volume de voz mais alto.
Enfim, não é como se eu guardasse alguma mágoa por isso. Acho super válido democratizar a música clássica de vez em quando. É até interessante ter a oportunidade de, uma vez, apreciar um concerto com os músculos relaxados, sem precisar torcer mentalmente para a perna não adormecer e ter que mudar de posição, ou para não vir uma vontade de tossir ou espirrar.


4 Comentários
13 Junho, 2008 às 2:55 pm
Mudar economicamente o país não é tão complicado do que mudá-lo culturalmente. O brasileiro é sem educação sim, e em todas as faixas de classe, infelizmente.
13 Junho, 2008 às 5:04 pm
Sobre os ancoras… pode ser muito bem o contrario… veja o caso da Maria Beltrão… Ficou famosa por suas gafes, e faz sucesso por causa disso…
Mas o que eu acho que é mais dificil não é reprimir reflexos “incontrolaveis” como arroto ou espirro, mas sim conseguir evitar reflexos como cossar o nariz quando tem vontade, ou piscar o olho exageradamente quando algo cai nele ou até mesmo retrair as sobramcelhas quando não entende algo que esteja lendo.
Sobre seu incidente com o tic-tac… lembrei de nós vendo Os Sonhadores no espaço unibanco… meu susto com o cabelo queimado… só eu mesmo…
15 Junho, 2008 às 3:56 pm
[...] *Cariocas não devem ser permitidos em concertos, sob hipótese alguma. [...]
25 Junho, 2008 às 2:56 pm
No Brasil o povo em geral não sabe se comportar coletivamente.
Mas a história dos apresentadores me lembrou de um dia em que o Jornal Nacional entrou segundos antes do apresentador se preparar e ele tomou o maior copão d’água ao vivo para todo o país. Foi engraçado ;-)