Postado por Fabiano Ristow
Meu pai é aficcionado por futebol e Química, talvez dois dos assuntos mais desinteressantes para mim (já chorei de raiva [literalmente] tendo que estudar o segundo para passar nas freqüentes recuperações). Além disso, ele é paraibano, conservador e averso à tecnologia (ele tem o costume de mandar à merda as máquinas eletrônicas de cartão de estacionamento dos shoppings). Eu sou a favor do aborto e da eutanásia, e quero trabalhar com internet. Tudo isso nunca impediu que tivéssemos uma relação amistosa. Um pai pode conviver com um filho diferente dele. Mas até que ponto? E quando a personalidade do filho não é apenas diferente, mas completamente incontrolável?
Joshua é um personagem cliché que segue a linha do Menino Agourento De Terno, como o Sean, de Reencarnação (esse filme é foda), ou Damian, de A Profecia (esse, não). Ele é quieto, inexpressivo e reúne características de um psicopata em formação: extremamente inteligente, carece de empatia e é hábil em mentir/manipular. Quando fala, na maioria das vezes é para fazer uma pergunta ou observação constrangedora (“Você não precisa me amar se não quiser, isso não é uma regra”, ele diz para o pai). O protótipo se desgastou no cinema, mas, no caso em questão, perturba porque é inquietantemente inexplicável; o menino não é o filho da Besta nem a personificação de um espírito ruim. Ele apenas é assim.
Apesar de apelar para alguns truques clássicos e trapaceiros de filmes de terror (a geladeira que revela alguém atrás da porta; os brinquedos destruídos; etc), Joshua rende momentos de desconforto sutil, que em breve tomam proporções hilariamente atrozes. Numa das primeiras cenas, o garoto, com uma habilidade irretocável, toca “Marcia Funebre”, de Beethoven, no piano. Em vez de se situar em segundo plano, o volume das notas encobre o diálogo das pessoas ao redor, o que evoca uma sombriedade irracional. E quando, momentos depois, ele começa a tocar “Brilha, Brilha Estrelinha” numa apresentação escolar, você sabe que há alguma coisa muito errada.
Enquanto isso, o pai de Joshua (Sam Rockwell) vai mal no trabalho, o andar de cima do apartamento produz barulhos irritantes, e a mãe (Vera Farmiga) sofre de depressão pós-parto e se desespera com o choro incessante do bebê que acabou de ter (o filme é pontuado por letreiros que informam os dias de vida da recém-nascida; não importa quanto tempo passe, o caos dentro da casa simplesmente não termina). “Esse filme é um controle de natalidade fundamental”, aponta o crítico Brandon Fibbs. “Se você planeja ter filhos um dia, não o veja. Se já tem, você nunca vai olhar para eles da mesma forma de novo.”
Já críticos como Ed Gonzalez e Michael Koresky preferem classificar o filme de homofóbico. Não há indicações descaradas a respeito da orientação sexual do protagonista, mas Joshua prefere música clássica ao esporte (a citação do primeiro parágrafo é feita na cena em que o menino explicita essa preferência) – o que não tem nada de errado; o fato de alguns espectadores presumirem aí um traço gay não seria, na verdade, um preconceito? Certo, há uma cena mais tarde que… bom, quem ver saberá.
De qualquer forma, é limitado considerar que o ponto do filme é simplesmente igualar o homossexualismo ao mal. O que me chamou mais atenção foi a capacidade do personagem do Rockwell de transmitir serenidade e compreensão naquele ambiente familiar bagunçado. Ele está diante de um filho cuja personalidade parece tomar um rumo totalmente imprevisível (e alarmantemente perigoso), um filho que é uma espécie de espelho invertido (e frustrante) seu; mas a todo custo sustenta o virtuosismo da paciência e empatia. É heróico.
O filme é sobre ele e sobre a angústia que é se voltar contra aquele que teoricamente deveria estar protegido na redoma do amor incondicional. Joshua, acabei de descobrir, foi lançado no Brasil em DVD com o subtítulo O Filho do Mal e o tagline “SUSPENSE DE GELAR A ALMA”. Mas é mais do que um SUSPENSE DE GELAR A ALMA. É sobre o esforço colossal de ser um bom pai. Bom, ainda bem que eu não serei um, heh.



12 Comentários
1 Julho, 2008 às 3:15 pm
Fabiano, o homossexualismo é o Mal. Você mais do que ninguém devia saber disso.
PS: Vejam esse filme. Sam Rockwell alcançou o sétimo sentido e soltou um Meteoro de Pegasus.
1 Julho, 2008 às 5:49 pm
A primeira vez que eu assisti esse filme eu tentei me manter um pouco afastado, pois – sim – sou covarde. Sou do tipo que gargalharia na cena da orgia em Perfume só para não perder o controle de mim mesmo; do tipo que o Luis daria um tapa na nuca e diria “cínico filho-da-puta!”.
Mas aí eu assisti de novo de me envolvi. Senti calafrios até enquanto Joshua explicava para a avó sobre Seth e a serpente que se alimentava dos próprios gritos etc. Aliás, toda aquela parte da exposição Egípcia é espetacular.
Este filme é ótimo. Até eu recomendo (Y)
4 Julho, 2008 às 1:43 pm
[...] Na verdade, eu consigo ver o Joshua bolando um plano [...]
6 Julho, 2008 às 4:25 pm
[...] e espancar o seu filho pentelho é um ato “heróico”, segundo Fabiano [...]
9 Julho, 2008 às 2:18 pm
[...] em que ele é genuinamente competente. Sobre o ano: Uma boa porção de filmes ótimos (como Joshua) – vários deles repletos de fãs apaixonados – mas nenhum que socou minha testa e me fez ver [...]
16 Julho, 2008 às 5:12 pm
eu assisti este filme… acho que a moral da historia esta em quem abusa do garoto… pode ser o tio a vo a mae sei la alguem de uma resposta se eu estiver errada
16 Julho, 2008 às 5:19 pm
eu de novo.. no filme o pai pergunta se ele é sociopata para piscicologa ela diz que nao… entao eu realmente nao entendi…
16 Julho, 2008 às 9:31 pm
A cena da psicóloga foi um problema.
SPOILERS
Eu não acho que ela teria tomado o lado do Joshua tão facilmente, foi simplesmente um jeito barato que os criadores inventaram pra complicar a situação do Sam Rockwell.
E Keli, quem abusa do garoto? O garoto abusa de todo mundo. Os pais dele são desligados e meio incompetentes, mas em momento algum eles machucam diretamente o Joshua.
5 Novembro, 2008 às 11:40 pm
o tio abusa do garoto
16 Julho, 2009 às 6:45 pm
Um dos melhores filmes que já vi.
Tu sabes onde posso baixar a trilha sonora, ou sabe o nome da música que o Josh canta no final? Já faz uns 6 meses que vi o filme, canto a música de cor mas não a acho para baixar. Agradeço.
18 Agosto, 2009 às 8:35 pm
Nyele, o nome da música é “The Fly”.
É consenso que o tio abusa do garoto?
20 Agosto, 2009 às 4:02 pm
O lance da psicóloga eu acho q foi o seguinte…
Ela viu que o Joshua tinha problemas por causa dos maus tratos desde a sua nascencia.
O Joshua percebeu o carinho que tds tinham com a Lily (sua irmãzinha), e o Joshua até chegou a perguntar para os pais como ele era qdo bebe, e os pais deles se esquivaram. Até que ele achou o video dele qdo bebe e viu o caos que era.
Ou seja, na minha interpretação, o Joshua é assim por causa do modo que foi criado. Ngm deu a merecida atenção pro garoto.