Esperei o DVD: Piaf – Um Hino ao Amor

Postado por Rodrigo Pinder

Piaf – Um Hino ao Amor foi um dos filmes mais comentados na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2007. Era difícil ficar 15 minutos em uma fila qualquer sem ouvir alguém matraqueando sobre ele, o que teve um resultado óbvio: mais e mais pessoas fizeram o possível para encaixa-lo em suas programações, até o ponto em que você não podia girar um gato morto sobre a própria cabeça na Avenida Paulista sem atingir algum cinéfilo falando sobre Edith Piaf.

O mais engraçado é que o filme nem fazia parte da programação do Festival, tendo estreado em circuito aberto no dia 12 de Outubro. Ou seja, pessoas estavam gastando seu tempo precioso com algo que certamente estaria nas prateleiras de qualquer Blockbuster dali a poucos meses, enquanto coisas como En la ciudad de Sylvia passavam completamente despercebidas.

Num certo dia, após uma sessão que acabou relativamente tarde, eu estava fazendo hora no Clube da Mostra (uma espécie de lounge onde ocorrem palestras e entrevistas, mas cuja verdadeira atração é o open bar), bebendo caipirinhas de sabores variados enquanto esperava um amigo me ligar, quando uma mulher sentou-se à mesa onde eu estava e começou a falar sobre… adivinhem. Pois é.

[O diálogo abaixo é real, na medida que a minha memória permite:]

Mulher: Mas, poxa, você tem que ver. É maravilhoso.
Eu: Eu pretendo… é que eu procuro utilizar esse tempo da Mostra pra ver coisas mais obscuras, que eu dificilmente vou ter chance de ver no cinema.
Mulher: Você conhece a Edith Piaf? É que eu sou fã dela, sabe.
Eu: Eu conheço aquela…
“Je Ne Regrette Rien”.
Mulher: Ah, essa… justamente! Eu achei que não ia tocar… mas aí, na última cena, tocou.
[Cinéfilos + Álcool = Spoilers. Uma equação fatal.]
Eu: Pois é… eu pretendo ver e…
Mulher: E eu nem sabia que o Gerard Depardieu tava nesse filme. Eu sou fã dele, sabe. Então, quando ele apareceu, foi uma surpresa.
Eu: Pra mim também seria.
Mulher: Mas assiste mesmo. É fantástico.
Eu: É… não parece ser o meu tipo de coisa, mas eu pretendo ver sim.
Mulher: Você não gosta das músicas?
Eu: Não é isso… é que esses filmes biográficos… eles sempre parecem meio burocráticos pra mim. Mas tão falando bem desse, talvez o diretor tenha conseguido colocar uma visão interessante.
Mulher: Ah, com certeza! Tem uma cena onde ela vai se apresentar, e fica tudo em silêncio. A gente não ouve nem o que ela tá cantando nem as reações da platéia, só um piano suave de fundo.
Eu: Ou talvez não.

Semana passada eu finalmente tive acesso ao DVD e pude confirmar que, sim, o filme presta. Eu não o descreveria como “maravilhoso” ou “fantástico”, mas não é ruim. “Decente” ou “legal” seriam adjetivos mais apropriados, o que já é mais do que eu esperava: minha apreciação por biofilmes costuma ser inversamente proporcional à fascinação que as pessoas parecem ter por esse tipo de coisa. As objeções são simples: é impossível resumir uma vida inteira em um drama de três atos, então geralmente ritmo e coerência temática são defenestrados para abrir caminho para a burocrática lista-obrigatória-dos-eventos-importantes; e o pior: aparentemente é consenso entre os responsáveis vestir suas abominações com um véu de auto-importância, criando aquela nojenta sensibilidade isca-de-Oscar habitualmente encontrada nos filmes de Edward Zwick. Exemplo: Uma Mente Brilhante.

Olivier Dahan, por sua vez, até consegue fazer de Piaf uma obra artística o suficiente, preocupando-se cada vez menos com cronologia conforme se aproxima do final e inserindo alguns momentos mágicos e surreais de quando em quando. Os dois oscars foram bem merecidos: a excelente atuação de Marion Cotillard nunca é ofuscada pelo quase imperceptível trabalho de maquiagem. Todavia, simplesmente não dá pra escapar da sensação de que você já viu este filme: é claro que não há muito sentido em reclamar de clichês em uma biografia, mas ao dizer “um protagonista de origens humildes luta contra um problema de visão e depois faz um sucesso estrondoso no mundo da música, sucesso este que é subseqüentemente abalado por abuso de drogas” eu poderia estar descrevendo tanto Piaf quanto Ray, e tem que haver algo de errado com isso.

Se as trajetórias são tão similares, por que a fascinação? Por que esses filmes continuam fazendo sucesso (o que, por sua vez, incentiva a produção de outros filmes basicamente iguais)? É o conforto de receber os Fatos Da Vida de forma mastigada, preto-no-branco? Eu tenho um amigo que já declarou abertamente preferir investir em filmes quando sabe que a história é “real”. Meu palpite é que, para cinéfilos casuais, é muito mais fácil se envolver com uma história quando há o respaldo da realidade sustentando a conexão emocional com os personagens. O que é bobagem, claro. Aqueles atores não são as pessoas que estão representando. Tudo que você está vendo são eventos romantizados até o ponto da semi-ficção. Mas o mero fato de saber que aquelas pessoas “existiram” parece ser o suficiente para que o público se sinta autorizado a se importar de verdade; talvez seja menos embaraçoso chorar por tragédias que realmente aconteceram.

A fama também é importante (ninguém quer ver histórias sobre desconhecidos). Na própria Mostra de 2007, eu assisti a um biodrama brilhante, sobre um ginasta húngaro do qual eu nunca havia ouvido falar: Palmas Brancas, do obscuro Szabolcs Hadju. Virtualmente ignorado pelo público do festival (e pelas distribuidoras), o filme é uma aula de montagem: várias seqüências têm um virtuosismo formal de tirar o fôlego, onde cada plano não apenas se encaixa, mas escala a partir do anterior, criando uma (desculpem o clichê sinestésico) melodia visual hipnotizante. É o tipo de filme-biografia que eu consigo apreciar: direto e econômico (a fita tem 97 minutos), com uma narrativa focada apenas nos eventos mais relevantes, deixando as cenas fluirem sem a constrição imposta por um ritmo subordinado à necessidade de incluir o maior número possível de acontecimentos.

Palmas Brancas

Se eu fosse fã de ginástica olímpica, Palmas Brancas teria se tornado um dos meus filmes preferidos de todos os tempos. Eu segurei a respiração durante basicamente o clímax inteiro, o que é mais do que posso dizer sobre qualquer momento de Piaf. Definitivamente foi o biofilme certo para assistir no cinema no ano passado: além de funcionar muito melhor como um filme, aquela foi provavelmente a minha única chance de conferi-lo. Talvez, tivesse eu decidido não esperar pelo DVD, eu pudesse ter gostado um pouco mais de Piaf. No cinema tudo é mais grandioso, afinal. A questão é que, graças ao inexplicável prazer que as pessoas parecem sentir em ser informadas sobre o que já estão carecas de saber, nesse caso eu tive a opção de esperar.

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3 Comentários

Arquivado em Cinema, Esperei o DVD

3 Respostas para “Esperei o DVD: Piaf – Um Hino ao Amor

  1. Alguns pontos:

    1. A febre Piaf também aconteceu nas locadoras. Ele foi o DVD mais locado do mês que chegou, e o meu chefe viu ele 4 vezes. O que foi isso? Oscar buzz? Brasil um inesperado ninho de tietes da Edith? Falta do que locar?

    2. Ed Zwick é responsável pela ótima série Once & Again, e Uma Mente Brilhante de um Homem Que Talvez Seja Gay (Mas de Que Isso Importa?) é legal.

    3. Tem um cliente que sempre pergunta se o filme é baseado em fatos reais. Quando eu digo que sim, os olhos dele brilham de alegria. E aí eu dou um soco na testa dele. (Essa última frase foi ficção, o que prova que ficção > realidade).

  2. Rodrigo Pinder

    @Luis:

    Ed Zwick pode ter feito coisas boas, mas ele quer TANTO um Oscar que dá até pena. Dêem logo um Oscar pra esse cara na minha opinião.

    Em outras notícias, Uma Mente Brilhante é legal, mas meio nojento; é tão isca de Oscar que até ganhou o Oscar.

  3. Pingback: Piscadelas « O Discreto Blog da Burguesia

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