Amor, Tumor: P.S. Eu Te Amo

Postado por Luis Calil


P.S. Eu Te Amo gerou algum tipo de febre quando foi lançado em DVD algumas semanas atrás, e por mais que febres aconteçam de vez em quando (como pude perceber na malfadada posição de atendente de locadora), a desse filme foi particularmente violenta. A procura por ele começou um bom tempo antes do lançamento, e a lista de reserva foi gigantesca. E não era marketing – as pessoas estavam realmente gostando dele, e o indicando excitadamente para outras pessoas. Falavam sobre o filme como se estivessem lembrando de uma grande paixão de colegial com intenso carinho. Até o meu chefe se emocionou.

“Mas que porra é essa?”, eu pensei. O que havia acontecido? Quais eram os elementos mágicos que os criadores dessa nova e aparentemente banal comédia-romântica-dramática haviam usado para conquistar meus clientes? Olhando no IMDB, nota-se que o filme arrecadou nos cinemas dos EUA pouco mais que o seu orçamento. Será que ele é um filme feito para locadoras? (E que características esses filmes teriam?) Ou será que há algum ingradiente na receita que afeta particularmente o brasileiro (e.g. retardação)? Ao ver o trailer, o nevoeiro começou a se dissipar, e eu tive alguns palpites sobre o misterioso sucesso de P.S. Eu Te Amo.

Mas pra ter certeza, eu decidi colocar o filme pra passar na TV da locadora. Não é uma experiência ideal, eu confesso: clientes interrompem o tempo todo (geralmente dizendo: “Ai, eu amo esse filme” ou “Tá disponível?!” ou “Odiei aquele filme que você me recomendou”), nunca dá pra prestar atenção por mais de alguns minutos seguidos, o ambiente não tem atmosfera, o som é baixo, etc. Mas deu pra ver uns 50%, entender o tom e fortalecer meus palpites. Aqui vão dois deles:

“Vem que aqui tá quentinho.”

1) A premissa high-concept romantiza e suaviza a dor morte. O filme fala sobre uma mulher (Hillary Swank) cujo marido e (ainda) grande amor de sua vida (Gerard Butler) morre de um tumor cerebral. Só que ele havia planejado pra ela uma série de cartas, que seriam enviadas depois que ele morresse, e que a ajudariam a se recompor após a tragédia (espertinho, hein?). E o diretor Richard LaGravenese nem tenta abafar o sentimentalismo que acompanha uma idéia dessas; pelo contrário, ele o intensifica, utilizando um filtro inspirador.

Isso é porque LaGravenese entende algo que só meu tempo na locadora começou a me mostrar: pessoas adoram morte, câncer, luto, etc, principalmente se apresentados de forma inspiradora e “edificante”. É um fetiche nojento, mas compreensível. Quem ia querer ver com um filme que apresenta uma visão perturbadora de uma doença, como Safe, ou um retrato incisivo de mágoa e luto, como Reencarnação? É melhor pôr o DVD de P.S. Eu Te Amo, relaxar no sofá, caixa de lenços ao lado, e lembrar que as pessoas não morrem de verdade, elas mandam cartas de dentro do túmulo que vão te ensinar a viver. Lágrimas agridoces garantidas.

Designer do figurino: Cindy Evans. Cindy Evans falhou.

2) O elenco foi precisamente montado para agradar uma boa porção o sexo feminino. Hillary Swank é moderadamente atraente, mas de um jeito “ela trabalha no meu escritório” ou “prima do meu terceiro melhor amigo da faculdade”. Ela tem certas características físicas peculiares, mas o que ela não tem é aquela beleza radiante de estrela de cinema de uma Liv Tyler ou Cameron Diaz. Ele é mais identificável. Já o grande amor dela é Gerard Butler. E, como vocês sabem, Gerard Butler é Esparta.

Grande e forte, ele consegue matar um exército inteiro de persas malvados por si só, e por pouco ele não derrotou seu tumor cerebral. Além disso, todas as cenas e flashbacks em que ele aparece mostram seu senso de humor, sua intensidade, sua “impetuosidade”, como diz a descrição na capa do DVD. Ele é um sonho, não é mesmo? Do mesmo jeito que Ligeiramente Grávidos foi criticado por apresentar uma junção improvável beirando a fantasia (mesmo com a bebida e tudo), P.S. Eu Te Amo também devia levar umas palmadas.

P.S.: Feliz dia dos namorados, que segundo Joel Barish em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, é “um dia inventado por companhias de cartões comemorativos para fazer as pessoas se sentirem como merda.”

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15 Comentários

Arquivado em Cinema

15 Respostas para “Amor, Tumor: P.S. Eu Te Amo

  1. Wanderson

    Eu só posso me casar depois dos 40, quando eu não tiver mais perspectivas.

  2. Wanderson

    Diabos, o post acima era para o post dos links de hoje.

  3. Sério que esse filme presta (mesmo que um pouco)? O pouco que eu soube dele me fez imaginar um romancezinho mergulhado em açúcar para que esse açúcar disfarce a falta de sabor (aka substância).

    Quando sair no Telecine ou HBO eu dou uma conferida.

  4. Nos 50% do filme que eu consegui assistir, não encontrei nenhum sinal de que ele presta.

  5. Fausto Koerich

    Pena eu não saber como confirmar essa informação, mas nunca vi no Orkut comunidade de filme maior que a de Um Amor para Recordar. É de fato o filme que eu mais facilmente encontro em profiles na parte de cinema. Malhação nunca repetiu o sucesso do ano da Vagabanda e cia., claramente inspirado em Um Amor para Recordar. Bilheteria modesta, crítica negativa, amor e tumor estão todos em Um Amor para Recordar, fenônemo no Brasil.

  6. Thiago Tavares

    Não. Já basta Um Amor para Recordar. Nunca mais. Tenho um bloqueio mental a esse tipo de filme. Sempre que entro em alguma locadora nunca reparo a sessão “dvds-do-fundo-claro-coqueluche-de-amor”, o problema é que tem sempre uma pessoa me acompanhando bisbilhotando e me indicando. Perco a noite.

    Luis, mate sua curiosidade, pergunte ao Renner. O desgramado só fala desse tipo de filme.

  7. Tábada Carolina

    ahhh..fala sério!!! Como garota não pude perder a oportunidade de expor minha visão nada técnica deste filme.
    Fazer o q? “PS: eu te amo” é lindo,mas eu discordo de toda a visão solidária e melodramática q as pessoas tem sobre ele.
    Algumas pessoas estão ainda indignadas pq ele morre já no início e as q gostam acham lindo o q ele fez,mas no todo o filme é triste,dizem. Como?
    Eu adoro esse filme, mas pq ele é engraçado, tudo é lindo pq parece impossível, inimaginável…um homem fazer algo assim? pensar em algo assim? se importar tanto assim? amar tanto assim? Demorei um pouco pra ter certeza,mas caras como Jerry existem, e melhor, conheço alguns. Sabe, o lance é ver que o mundo ainda tem jeito,ainda existe esperança,existe amor..por aí…sem ser notado. E o mais belo é como o ser humano é único, sendo tão igual ( biologicamente falando, claro). Um complexo idealismo de q é difícil perder, difícil viver, difícil sofrer, mas tudo se aprende…algum dia. Para mim este não é um filme tão comentado pq a morte é docemente superada ou algo assim..é pq esse filme diz q há pessoas q se importam e isso basta pra se viver,mas não simplifica nada. A trilha sonora faz a fusão de tudo e deixa tudo perto da perfeição.
    As pessoas são modelos incríveis de se observar..é essa a verdade. As mulheres e seu jeito dominador, controlador ( isto está no início..aquela frase q eu mesma diria sem perceber: “eu tenho sempre que ser o adulto responsável?”) que…por acaso mata os homens de ódio e ao mesmo tempo o jeito de se desculpar dos erros…cansa, mas implica em certa surpresa e interesse.É assim que é…destinados ao erro, ao incerto,a culpa…

  8. Vocês realmente não pegaram o espírito da coisa. PS Eu te amo seria apenas mais um filme romantico descartavel, se não fosse o Gerard Butler. Dá vontade de pegar as cenas dele e gravar, e deixar no computador pra ficar vendo, que nem vocês colecionam fotos de mulé pelada pra inspiração.
    Pois é. A inspiração que ele fornece, especialmente nesse filme, é em tal grau que não lembro de nenhum outro ator bonitão ter provocado.
    Em Esparta ele já era o máximo, e aquela cena de sexo dele é realmente “inspiradora”. Mas nesse…
    A cena inicial já mostra ele como um cara maravilhoso, e quando ele grita, então, e mostra quem manda? É tudo o que a gente precisa.
    Pode acreditar, ninguém tá interessado em morte, em cancer ou qualquer coisa dessas. Queremos ver é ver coisas gostosas. Por isso não tem nenhuma cena pós-morte, choro, velas, tirando aquele funeral estúpido onde todo mundo tá rindo depois que um cara daqueles bate as botas.
    O trunfo do filme é que ele morre no começo, mas continua aparecendo, e depois ainda aparece o outro irlandês, pra fazer sonhar mais um tiquinho.
    O Butler é quente e ponto final. Mas como a mulherada de família não vai admitir que tá pegando o filme por causa do sujeito, fica parecendo que a história é que conta. Mas, veja bem, o filme tem lá a sua moral, que é: se você perder seu irlandês de estimação, você sempre poderá ir buscar outro igualzinho.

  9. Camomila, eu mencionei a suposta “gostosura” do Gerard Butler no texto, mas eu aprecio sua perspectiva libidinosa.

  10. Marcia

    Nossa o filme foi muito bom mesmo, chorei o tempo todo, mais com o grande sendo de humor dele era o mais gostoso do trama e com jeitinho conquistou todoas que assitiram amei !

  11. Faby

    você falou … falou e naum disse nada que presta…
    Ser rale vc esta tentando ser um critico q prova q naum sabe nada… e seu blog é uma droga …
    vai estudar dramuturgia caro!

  12. este filme é perfeito, nao entendo pq nao gostam…ele fala da realidade de vida de uma mulher que perde o seu marido pq ele tinha tumor, e no filme fala isto!

  13. Wanderson

    Pela ausência de atualização eu espero que todos tenham ido estudar dramaturgia. Ou que tenham tido um tumor. Sim, um tumor pros três. E se vocês tivessem estudado dramaturgia, teriam deixado posts prontos para quando fossem pro além. Viados.

  14. Felipe

    Essse filme é simplesmente o melhor filme que assisti! Alem de ser uma historia real, é maravilhoso!

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