Criticando Críticas: Guia da Folha e a Tabelinha do Cinema (13/06/08)

Postado por Rodrigo Pinder

O Guia da Folha é um suplemento semanal da Folha de SP, que traz, segundo eles mesmos, “o roteiro mais completo de São Paulo”. Bem útil, se você tem dinheiro pra gastar – toda Sexta-Feira o leitor é informado sobre o que são supostamente as alternativas mais interessantes em termos de cinema, teatro, passeios, shows, concertos, exposições, restaurantes, bares, baladas, etc.

A edição da semana passada (com 128 páginas!) comemora o centenário da imigração japonesa. Ilustrada por uma bela capa com ideogramas pintados por Tomie Ohtake, o guia traz diversas dicas para os amantes da cultura nipônica: restaurantes (100 restaurantes, mais precisamente), rodízios, uma “cerimônia do chá”, karaokês, exposições e, talvez o mais interessante para os cinco leitores do Discreto Blog da Burguesia, duas mostras de Cinema Japonês: uma na Sala Cinemateca (cujo site está aparentemente fora do ar, então Cineclick para o resgate!) e outra na sala 9 do Cinemark do shopping Metrô Santa Cruz. No site do Guia pode-se ainda encontrar informações sobre uma terceira, que já está acontecendo desde o dia 10 no Centro Cultural do Sesi.

Agora que o post já foi devidamente recheado com coisas úteis, posso seguir para as ofensas gratuitas sem me sentir culpado. A verdadeira razão da existência deste texto é que a sessão de cinema do Guia conta com uma página intitulada “Avaliação dos Críticos”, onde, em uma espécie de “tabelinha”, críticos, cineastas e demais entusiastas da sétima arte fornecem uma cotação de até quatro estrelas para os filmes mais populares em cartaz, além de uma mini-avaliação cuja extensão média parece ser algo em torno de 30 caracteres.

Meu primeiro contato com a tabelinha gerou uma série de dúvidas pragmáticas que até hoje atormentam minha implexa cachola: quanto ganha um crítico para escrever uma linha? Qual é a validade de uma síntese tão extrema? Em outras palavras, isso é útil para alguém? Eu não sei. O que eu sei é que, apesar da maioria dos comentários inevitavelmente gravitar para o didaticamente óbvio, os autores ocasionalmente arriscam-se em referências aleatórias e frases pretensiosamente poéticas, o que costuma produzir resultados tão hilários quanto irritantes.

Antes de continuar, tenham em mente que os comentários desta semana não são especialmente absurdos, em geral mantendo-se em um espectro confortável de adjetivos inócuos e chavões de eficiência garantida. Eu pretendo fazer isso sempre que possível, no entanto, então só nos resta esperar que a criatividade dos responsáveis engate uma segunda nas próximas semanas. Os filmes avaliados nesta edição foram Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto, Um Beijo Roubado, Cleópatra, Corpo, As Crônicas de Nárnia – O Príncipe Caspian, Homem de Ferro, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, Longe Dela, Sex and the City – O Filme e O Sonho de Cassandra.

Como a paciência de ninguém é infinita, vou escolher apenas alguns:

Corpo, estréia nacional aparentemente não vista por metade dos críticos até o fechamento da edição, gerou os comentários mais poéticos da semana: Bruno Saito (editor-assistente da Ilustrada – o caderno cultural da Folha) dá três estrelas, que complementa com “alucinações entre os vivos e os mortos”. Devo confessar que isso até despertou um certo interesse. (Por outro lado, trata-se de um filme brasileiro.) Cássio Starling Carlos (crítico da Folha) também dá três estrelas, aventurando-se em terreno mais lírico: “cinzas que queimam”, o que soa mais como um trecho de algum haiku do que como a avaliação de um filme. (Talvez a idéia tenha sido homenagear a temática da edição.) Já Christian Petermann (colaborador da Folha) não compartilha do mesmo nível de apreciação: duas estrelas, justificadas com um “girando em falso na cova”. Começo a me perguntar se o objetivo aqui é recomendação ou demonstração de esperteza, e Pedro Butcher (outro crítico da Folha) não colabora: duas estrelas, acompanhadas de um singelo (e tapado) trocadilho: “corpo cerebral”. Em outras notícias, eu não havia ouvido falar muito sobre esta fita, mas aparentemente ela é sobre um legista muito louco que vai embarcar em altas confusões ao receber uma ossada que pode ter pertencido a guerrilheiros da pesada.

Sobre Homem de Ferro, o consenso parece ser geral: Downey faz o filme. Amir Labaki (articulista da Folha), profetiza: “o retorno de Downey” (duas estrelas). O significado exato dessa declaração me escapa. Ele quis dizer que se trata do filme mais recente de Downey? Se sim, é um comentário bem óbvio e banal. Ou o objetivo foi enfatizar o retorno do ator a um status rentável em Hollywood? Também não é exatamente a epifania do ano, além de não dizer nada sobre o filme em si. Bruno Saito consegue ser um pouco mais específico: “não seria nada sem Downey Jr.” (três estrelas). Quer dizer que a atuação de Downey por si só garante três estrelas, de um máximo de quatro? Vamos com calma, Bruno. Cássio Starling Carlos também dá três estrelas. O Comentário? “Não é uma lata velha”. Hahaha, uau. Pedro Butcher dá duas estrelas e faz o possível para encontrar outro filme sobre um super-herói mecânico: “Robocop é melhor”. Concordo, Sr. Butcher. Mas aquele era uma sátira ultraviolenta sobre um policial ciborgue, enquanto esse é um blockbuster juvenil sobre um playboy com uma armadura. Não há muito sentido em compara-los, mas Suzana Amaral (cineasta) vai mais longe ainda: duas estrelas e um “desbancando o Superman”. Estaria ela falando sobre Superman Returns? Não faço a menor idéia, mas se duas estrelas são suficientes para desbancar o Superman, o Homem de Aço já viu dias melhores.

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal também gerou opiniões relativamente consensuais: Amir Labaki explica suas duas estrelas com um “auto-nostalgia”. Bruno Saito dá a mesma cotação, mas é um pouco mais incisivo: “grande e desnecessária piada interna”. Cássio Starling Carlos aparentemente conseguiu apreciar: “sessentão com fôlego de 20” (três estrelas). Já Inácio Araújo e Sérgio Rizzo (ambos críticos da Folha) parecem ter combinado os comentários de antemão: Inácio dá duas estrelas e arrebata com um “mais do mesmo”. Sérgio, por sua vez, dá três estrelas e elabora: “mais do mesmo (e Cate Blanchett)”. Marina Person, a crítica mais “gente fina” da tabelinha (ela raramente dá menos que três estrelas para um filme) e geralmente autora dos comentários mais não-intencionalmente engraçados, acompanha suas três estrelas de um spoiler: “Indiana Jones faz contatos imediatos”. Obrigado, Marina. Eu havia conseguido até então me manter na ignorância sobre a existência de aliens no filme. Culpa minha por não ter visto até agora, eu suponho.

Longe Dela, o drama que eu quase vi de graça por causa de uma promoção (sim, “quase”: depois de um atraso gigantesco – graças a uma sessão de Speed Racer, ou algo do gênero – nós decidimos que talvez valesse mais à pena sair para beber e deixamos nossos ingressos promocionais com a primeira pessoa que estava carregando uma prancheta – aguardem uma possível participação futura de Longe Dela em “Esperar Pelo DVD Funciona”) foi apreciado por todos menos Pedro Butcher, que deu apenas uma estrela, indo direto ao ponto no comentário: “frio demais”. Todos os demais mencionados aqui deram três estrelas: Bruno Saito consegue satirizar ao mesmo tempo uma expressão famosa e uma doença incurável: “o primeiro amor a gente sempre esquece”. (Seria hipócrita da minha parte comentar o mau-gosto da frase acima, sendo que o próprio Discreto Blog da Burguesia fez piada com Alzheimer alguns dias atrás.) Cássio Starling Carlos é mais formal: “didático e emocionante na dose certa”. Existe uma “dose certa” para didaticismo? Sérgio Rizzo é outro que entra na onda dos trechos de haiku: “a luz difusa do crepúsculo”. Eu imagino um Sérgio frustrado com a carreira de crítico, um Sérgio cuja verdadeira ambição seria escrever livros de poesia. (Não desiste, cara. Nunca se sabe.)

Por fim, Sex and the City – O Filme dividiu os sexos: Amir Labaki quer inventar um gênero: “cine ‘Vogue'” (duas estrelas). Marina Person oferece suas Três Marias de praxe, ilustrando-as com um “bom como reencontrar velhas amigas”. Bruno Saito dá duas estrelas e também embarca em analogias, só que de uma forma um pouco menos positiva: “é igual a ter recaída com ex”. Cássio Starling Carlos compartilha da cotação, com uma opinião mais direta: “tagarelice fashion”. Christian Petermann achou demais: “longo demais, moderado demais” (duas estrelas). Inácio Araújo chuta o balde: uma estrela, acompanhada de um “algumas piadas e muito merchandising”. Mas é Sérgio Rizzo, novamente demonstrando inequívoca criatividade, que leva o troféu de Comentário da Semana, complementando sua estrela solitária com um non-sequitur bizarro: “Manolo paraguaio, de sola furada”. Peraí, o que?

[Adendo: não se tratava de um non sequitur, afinal. Rizzo estava se referindo a uma marca de sapatos femininos mundialmente famosa, aparentemente mencionada diversas vezes por Sarah Jessica Parker no seriado (do qual admito não ter visto mais do que três episódios inteiros, chutando alto). Como eu não sou rico nem homossexual, a referêrencia passou batida. Agradecimentos ao Tisf por ter esclarecido isso nos comentários, embora eu preferisse a frase quando ela não fazia sentido.]

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17 Comentários

Arquivado em Cinema, Criticando Críticas

17 Respostas para “Criticando Críticas: Guia da Folha e a Tabelinha do Cinema (13/06/08)

  1. Pips

    Essa frases da tabelinha é que nem as frases de horóscopo.

  2. @Pips:

    Horóscopo costuma ter muito mais linhas, além de se comunicar direto com o leitor e ser composto de invenção total; ou seja, deve ser muito mais trabalhoso de escrever.

    Meu horóscopo de Sábado:

    “As mudanças dão medo em você. Mas, no fundo, você gosta de descobrir um mistério e de se entregar a pesquisas sobre o amor ou qualquer outro tema de sua curiosidade. Descobertas que dão sentido à sua vida. E neste Sábado, além disso, você está expressivo e pode compor algo tocante a respeito.”

    Pessoas ganham dinheiro para escrever isso ou eles têm várias fichas prontas pra cada signo e vão alternando elas durante o ano?

  3. Pips

    Assim como as linhas da folha: Elas vão alterando durante o ano.

    Aliás, uma amiga jornalista que era obrigada a fazer horóscopo sorteava as frases de efeito que iriam no final da previsão. Quando era ‘previsões para o novo ano’ ela pegava do ano anterior e apenas trocava os signos. Assim ficam mais fácil do que adivinhar as notas da Marina Person.

  4. Tisf

    Auhahuahua adorei! E V, Manolo é um marca de sapatos famosona, mas não se preocupe, só os não-héteros entendem o que ele quis dizer.

  5. Vou mandar meu currículo pra Folha, com isso aqui anexado:

    Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal – ***
    Como vinho tinto, sem perucas.

    Fim dos Tempos – *
    Escanteio vira gol-contra. Notou?

    P.S. Eu Te Amo – *
    Um bon vivant nunca pede bis.

    Eu dou 5 reais pra quem encontrar um jeito de interpretar essas frases coerentemente.

  6. Fabiano Ristow

    Luis, quanto a Indiana, eu sei que você quis dizer que o Harrison Ford ficou mais bonito com a idade avançada, da mesma forma que os vinhos melhoram com o tempo. Se ele é mais bonita ainda sem peruca, aí é questão de gosto pessoal.

  7. @Tisf:

    Agora tudo se encaixa. Aparentemente Sarah Jessica Parker já havia declarado seu amor pelos sapatos de Manolo Blahnik no seriado. Devo ficar preocupado ou aliviado por ter deixado escapar uma referência a uma marca de sapatos femininos?

    @Luis:

    “Como vinho tinto, sem perucas”: Indiana Jones envelheceu bem, sem precisar de artifícios para esconder a idade avançada.

    “Escanteio vira gol contra. Notou?”: Shyamalan tenta uma jogada com grande chance de sucesso, mas acaba mandando a bola pro outro lado do campo. O problema é que a maioria das pessoas nem deve notar tanta diferença de qualidade entre esse e A Dama na Água.

    “Um bon vivant nunca pede bis”: Essa tá fácil. Gerard Butler é ESPARTA. Espartanos vivem bem e aceitam a morte sem reclamar nem pedir segundas chances aos deuses.

    Pode ir passando cincão.

  8. Porra, “O primeiro amor a gente sempre esquece.” é GENIAL.

    Legal é o Tisf explicando a referência gay/feminina.

  9. @Ristow:

    Quase, mas o V foi um pouco mais preciso.

    @V:

    Pior que eu tentei imaginar interpretações coerentes e cheguei exatamente ao que você falou. Muito bem.

    Eu vou mandar os 5 por Sedex, mas não fique muito esperançoso. Você sabe o que falam de Sedex, né?

    Sedex não vale nada.

  10. Caio

    Parabéns pelo blog, muito bem escrito e com boas observações.

  11. Gostei da sessão. O que não falta é críticas que merecem críticas por aí.

    Eu já acho complicado isso de resumir um filme inteiro a estrelinhas que vão de 1 a 4, isso de resumir em uma frase de 4 palavras no máximo é pior ainda. E vai piorando ainda mais, com as tentativas de fazer algo poético nessas 4 palavras.

    Bom, é no mínimo algo divertido de se ler.

  12. Egidio

    @RP
    Você leu seu horóscopo no sábado?
    No lo creo, pal.
    kkkkk

  13. @Sr. Rafa, o Magnífico:

    E aí, cara. Seja bem-vindo, puxa uma cadeira e senta no chão, etc. Espero que a Mari esteja lendo também.

    @Sr. Santoro, o Guitarrista:

    Não, eu busquei um exemplo no primeiro jornal que encontrei aqui em casa depois que o Sr. Pips mencionou a palavra “horóscopo”. Por acaso, era o de Sábado.

    Você realmente acredita que eu de repente sofri a mudança de perspectiva necessária pra dar um iota de atenção à Astrologia? Come on.

  14. Egidio

    @trap door trigger prayer:
    ufa!

  15. Pingback: Criticando Críticas: “Ser ou não ser… nunca serão!” (e a tabelinha de 20/06) « O Discreto Blog da Burguesia

  16. janaína

    eu gosto da tabelinha para ler no banheiro.

  17. Pingback: Recapitulando: 22/06/08 « O Discreto Blog da Burguesia

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