Artistas Sonham Com Capas Adequadas?

Postado por Luis Calil

Philip K. Dick, prolífico escritor americano de ficção-científica que produziu obras constantemente inventivas dos anos 50 até o começo dos anos 80, não parece ter tido sorte com capas. A maioria tinha pouca, ou nenhuma, relação com o conteúdo do livro, e por mais interessantes e surreais que fossem, isso me parece um problema. (nota: a capa acima é boa e tem tudo a ver com o livro)

Pega A Scanner Darkly (traduzido estupidamente como O Homem Duplo aqui no Brasil): é um livro nostálgico inspirado nos tempos de junkie do Dick. Fala sobre Robert Arctor, um viciado paranóico que suspeita que sua casa está sendo espiada pela polícia. E está: Arctor na verdade é Fred, um policial investigando tráfico de drogas que instalou scanners na casa, que gravam tudo que ele e seus amigos fazem e falam. O problema é que Arctor/Fred está tomando tanta Substância D – uma nova e poderosa droga – que ele não entende mais que Arctor e Fred são a mesma pessoa: ele.

A trama faz parecer um thriller psicológico, e o livro é isso, em parte, mas ele também é um retrato engraçado e melancólico de um grupo de pessoas completamente perdidas. Ele funciona quase como uma seqüência de Jovens, Loucos e Rebeldes que se passa 20 anos depois, num futuro onde toda a exuberância vista no filme virou decadência.

Os artistas das capas do livro não parecem ter recebido as informações dos parágrafos acima. Eles não parecem ter recebido informação alguma. Alguns deles provavelmente nem sabiam que estavam fazendo capas pra esse livro em particular. As publicações de Scanner dão uma nova dimensão àquela velha idéia de que não se pode julgar um livro pela capa.

E ao invés de citar as capas de A Scanner Darkly uma por uma e apontar o que há de errado, eu resolvi mostrar isso através de uma historinha ilustrada inspirada por elas. Veja bem:

Era uma vez um “neonazista”. Ele dizia para todos que odiava judeus, mas isso era apenas um disfarce. O verdadeiro motivo dele se identificar como um neonazista é que ele sofria de calvície precoce (cujo nome científico eu não consigo recordar). Então ele decidiu escrever um livro, sob o pseudônimo de Philip K. Dick, sobre sua angústia, e o chamou de “Retrato do Calvo Quando Irritado”. O livro não vendeu nada.

Mais nova manchete no jornal London Times: “Ninguém Quer Ler Autobiografia Sobre Calvície”.

Um dia, deprimido, vagando pelas ruas de sua cidade, ele encontrou uma cigana. Ela disse que revelaria o futuro por 10 reais, e ele topou. De dentro de seu manto, ela tirou uma bola de cristal e, ao esfrega-la, uma imagem começou a se formar:

Era um alienígena, explicou a cigana. Ele tinha duas cabeças e foi responsável pela aparição de gafanhotos na Terra. O neonazista perguntou o porquê dessa imagem, e a cigana lhe contou que esta raça alienígena estava a caminho da Terra, preparando um ataque impiedoso.

Seguindo o próximo passo lógico, o neonazista decidiu se conectar a um computador e utilizar os serviços de uma prostituta virtual, Alexandra:

Mas por causa de um glitch no sistema, ela só se comunicava em japonês, o que cortou completamente o tesão do neonazista.

Ele gritou mais uma vez:

Mais nova manchete no jornal Diário Popular: “Glitch Deixa Pervertidos A Ver Navios”

Enquanto isso, a nave da raça alienígena se aproximava da Terra:

Como uma piada, a raça alienígena decidiu utilizar sua tecnologia extremamente avançada para criar uma nave que fosse uma mistura de um arranha-céu, um navio viking, um caixão e um porta-aviões. Eles tinham esse senso de humor.

A mais nova manchete no jornal New York Times: “Merda Bizarra na Atmosfera.”

O neonazista, não sabendo como reagir à invasão iminente, decidiu encontrar seu melhor amigo, Haagen-Dazs, um robô gay que participa do Cirque du Soleil:

O robô pediu para que neonazista cheirasse suas axilas, mas o neonazista não estava para papo. Ele precisava de consolo, algo que Haagen-Dazs não podia proporcionar.

A mais nova manchete no jornal L.A. Times: “Cientistas Buscam Explicação Para Merda Bizarra na Atmosfera.”

O neonazista voltou a vagar pelas ruas, desesperado, e se deparou com três policiais, que conversavam sobre o caso da menina Isabella. Ele tentou explicar sobre a invasão, mas eles não deram bola. Afinal, ele era um neonazista; o que ele sabia?

Neonazista insistiu. Um dos policiais puxou a arma e não pensou duas vezes: disparou.

Neste exato momento, os alienígenas chegaram e derramaram ácido na face do tira afobado:

Mais nova manchete no jornal Folha de São Paulo: “Porta-Aviões Viking Traz Caos, Confusão, Ácido.”

O policial morreu na hora. O neonazista morreu alguns minutos depois. Algumas horas depois, os alienígenas haviam completado sua invasão.

O Fim.

***

Da próxima vez, vou contar outra história, a do viajante dos desertos. Seu nome era Palmer Eldritch, tinha três stigmatas, e gostava de refletir olhando para o horizonte:

Ele reflitia, refletia, refletia.

Um dia, refletiu tanto que descobriu que seu nome na verdade era Paul Atreides, e ele era o protagonista de Duna:

Mas isso fica para outro post.

PS: Sim, a editora Manor Books realmente reaproveitou a capa de Duna, de Frank Herbert, para o livro de Dick, que não tem nada a ver com Duna. Enquanto isso, Dick revira no seu túmulo astral interdimensional.

PPS: Sim, todas as capas da historinha são de A Scanner Darkly. E Dick vira e revira.

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10 Comentários

Arquivado em Artes Plásticas, Literatura

10 Respostas para “Artistas Sonham Com Capas Adequadas?

  1. Luis, eu não sei se você ficou sabendo, mas o próprio Linklater (responsável por Jovens, Loucos e Rebeldes) dirigiu recentemente uma adaptação cinematográfica de A Scanner Darkly.

    O filme é com o Keanu Reeves e se chama A Scanner Darkly.

  2. É o que dizem, Rodrigo, mas nunca se sabe. É perfeitamente possível que isso seja só um rumor.

    Aliás, a noção de que um homem com o talento de Linklater teria a idéia de escolher Keanu Reeves pra interpretar um esquizofrênico paranóico carismático é algo que encoraja ceticismo.

  3. Paula

    http://www.imdb.com/title/tt0405296/
    Aqui no Rio o filme passou no Festival de 2006, e até entrou em cartaz depois. É feito em rotoscopia, estilo “Waking life”. Não li o livro, mas achei o filme meio moralista.

    Essa do Duna foi mto absurda. G
    Garanto que mtos designers estão interessadíssimos em fazer capas de livros bem mais bacanas, e nem cobrariam caro por isso.

  4. Sim, Paula, eu vi ele na Mostra de SP também em 2006. É bom, mas não tem a melancolia do livro.

  5. Aliás, aquela foi uma sessão bizarra. O Woody falando sobre a bicicleta de 18 marchas e só o nosso grupinho de meia-dúzia de gatos-pingados gargalhando, na sala inteira.

    O povo deve estar até agora achando que a gente tem problemas mentais.

  6. Mais da metade da platéia devia tá pensando o seguinte: “Fudeu, esses pirralhos não conseguem levar o filme a sério e vão atrapalhar a sessão de todo mundo.”

  7. Sim, já que, como evidenciado pelo cara que nós ouvimos falando com os amigos na fila, mais de metade da platéia estava naquela sessão simplesmente pra ver “o novo do Keanu Reeves” (sic).

  8. Thiago Tavares

    Aqui em Goiânia não tem esse problema, vai direto pra locadora e olhe lá. Walking Life eu só consegui assisti por sorte no Telecine Cult, haha.

  9. Nossa, completamente absurdo. Fica claro que o pessoal que fez essas capas não estava ligando a mínima. Nem parecem que são capas do mesmo livro.

    Fiquei curioso e resolvi dar uma pesquisada…achei mais essas coisas aqui:

    http://transition.turbulence.org/Works/beatingheart/blog/A-Scanner-Darkly-1.png (nessa última aparentemente se inspiraram no Jack Sparrow)

    Mas acho que essas que você pôs aqui são ainda piores.

    Enfim, pelo menos até agora não encontrei nenhum livro com o Keanu Reeves na capa.

  10. @Rafa

    A segunda e a quarta são suficientemente relacionadas ao livro, então eu deixei passar. A terceira é a capa do meu livro, e deve ter sido algo completamente aleatório mesmo – tão aleatório que eu nem soube como zoá-la.

    Lembrando que o poster do filme também é bastante sem sal:

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