O Cão dos Agnellis

Postado por Fabiano Ristow

Quando se trata de famílias amaldiçoadas, talvez o caso real mais próximo ao dos Baskervilles seja o dos Agnellis. Às vezes fico imaginando se não haveria de fato um cão diabólico atribulando o cotidiano da família italiana, que, em sua trajetória para tornar a empresa que tinha numa referência mundial, enfrentou tenebrosos períodos de morte implacável.

A empresa em questão é a Fiat, cujo centro de operações fica em Turim, no norte da Itália, onde passei uma noite, em 2004.

Cheguei de ônibus, vindo de Roma, e o clima era de uma melancolia que só o fim de tarde visto da janela de um ônibus pode criar. Eu estava quase em estado de transe, hipnotizado, quando a guia ligou o microfone e começou a contar histórias e curiosidades da cidade. O som saía de caixas – uma delas bem em cima de mim – ajustadas num volume propositalmente calculado, desconfio eu, para irritar os passageiros.

Ela falava da Fiat, fundada em Turim em 1899 por Giovanni Agnelli, e das tragédias que marcaram as gerações de sua família: doenças e acidentes são os principais itens do cardápio.

A maldição começou no fim da Segunda Guerra, quando um câncer violento matou Giovanni. O parente que teve de assumir o trono da empresa foi seu neto, Gianni, em 1966, porque o pai do rapaz havia morrido num acidente de avião dez anos antes.

Durante décadas, ele cuidou do império. O herdeiro natural seria seu filho Edoardo, se não fosse o detalhe de que ele sofria de depressão (mais tarde viria a se matar pulando de uma ponte). Sobrou o sobrinho Giovanni Alberto, só que esse aí também morreu de câncer, em 1997, aos 33 anos: o tumor no estômago sofreu uma repentina metástase e contaminou vários órgãos.

Gianni morreu em 2003. Um ano depois, seu irmão, Umberto, bateu as botas. De câncer, claro. Isso já está ficando repetitivo.

No momento, John Elkann, neto de Gianni, aguarda o momento de assumir o trono. Até agora, nenhuma tragédia. Quer dizer, ano retrasado, seu irmão Lepo, diretor de marketing da Fiat, quase morreu de overdose de cocaína. Mas, convenhamos, em comparação ao histórico da família Agnelli, esse incidente soa quase como um mero detalhe.

A guia se calou e avançamos de ônibus mais alguns quilômetros, em silêncio. Agora já era de noite. Não sou do tipo que se abala facilmente, mas o clima havia ficado pesado. Eu percebia que a sensação era compartilhada pelos outros passageiros. Finalmente desembarcamos.

Era como se a companhia de turismo tivesse feito um acordo com a prefeitura de Turim para pregar uma peça na gente. As ruas estavam completamente desertas. Certo, era domingo, mas isso não justificava aquele vazio esquecido e a escuridão obscena. As casas, coladas umas nas outras, mantinham as janelas fechadas – no máximo se flagrava uma ou outra fresta por onde se vislumbrava luzes piscantes, provavelmente vindas de pequenas televisões.

Havia chovido poucas horas antes e, enquanto andávamos pelos paralelepípedos em direção ao hotel, eu me desviava de manchas pretas no chão, que eu não sabia se eram buracos ou poças. Parecia um cenário construído digitalmente pela Capcom.

Se não fosse essa atmosfera obscura, talvez a história dos Agnelli não teria provocado tanto impacto assim; ou se não fosse a história, talvez a aparência da cidade não teria parecido tão melancólica. Uma coisa alimentava a outra, eu não sabia de quem era a culpa. É engraçado como nossa percepção das coisas depende do seu estado de espírito no momento.

No meio da escuridão, finalmente um ser humano: uma mulher lindíssima usando um vestido branco – a princípio achei que fosse uma noiva – e empurrando um carrinho de bebê. O contraste entre a mãe e o cenário era tão gritante que, embora na hora tenha sido, de certa forma, triste, hoje soa simples e totalmente hilário.

Será que existe alguém naquela cidade que não esteja deprimido, ou melhor, que não seja deprimido? Ok, não é bem assim. É que as ocasiões apenas me levaram para o local e hora errados. Com mais de 900 mil habitantes, Turim é a quarta cidade mais populosa da Itália, um centro cultural e industrial, que, além da Fiat, abriga a Lancia. De qualquer forma, eu penso com meus botões que não há nada melhor que viver com a família numa cidade caótica.

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2 Comentários

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2 Respostas para “O Cão dos Agnellis

  1. Eu sei que quando você mencionou Capcom, estava se referindo à algo como a série Resident Evil, mas agora eu nunca vou conseguir desassociar Turim de Ryu e Ken.

  2. Pensei a mesma coisa que o Luís, hahahaha

    Mas isso que você falou do “ambiente” da cidade é algo que eu vi em várias cidades menores européias, quando estive por lá…pareciam cidades fantasmas. Agora, em uma cidade grande como Turim é mais estranho mesmo.

    De qualquer forma, é um lugar que planejo visitar um dia.

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