Família Darko em Crise

Postado por Luis Calil

Eu vou começar ao contrário (o que é apropriado, considerando o assunto), com uma mensagem para os responsáveis pelo seguinte projeto:

Caros responsáveis pelo projeto acima,

Tenham vergonha na cara. Ninguém quer uma sequência para Donnie Darko, estrelando a irmãzinha (“What’s a fuckass?”) de Donnie Darko, a Samantha Darko. Nem o próprio Richard Kelly, o criador do original, quis participar. Provavelmente será um desastre. E no mundo real não há um portal de viagem no tempo como no filme; vocês não poderão reparar o estrago. Desistam. Agora.

Obrigado pelo seu tempo,
Luis Calil

***

Para “celebrar” o anúncio e futuro lançamento deste patético exemplo de oportunismo descarado, vou reciclar um texto que eu fiz sobre o filme original e postei no meu velho blog. Ele ainda presta, eu acho (o texto, não o blog). Veja:

[Spoilers a seguir]

Funny

How

Time

Flies

A prevista transformação de Donnie Darko de um pequeno filme independente extremamente ambicioso para fenômeno cult entre adolescentes nerds, indies e proto-cinéfilos foi um quebra-molas na minha apreciação dele.

As primeiras vezes que eu o vi foram anteriores à sua relativa explosão – o filme nem tinha chegado no Brasil ainda, e eu o assisti no computador – e na minha idade impressionável de 15 anos eu tinha certeza que havia visto uma obra-prima. Mas eu fui crescendo, os meus gostos cinematográficos foram ficando mais refinados e elitistas (acontece), e eu vi uma brecha se expandir entre o que eu estava passando a apreciar e o que os também crescentes fãs de Darko apreciavam. Seja na definição de “cool” segundo indies narcisistas – Angústia! Solipsismo! Joy Division! – ou na definição de “cool” segundo a turma de babadores da AICN – Coelho gigante com cabeça de metal! Portais interdimensionais! – o filme parecia se encaixar. O que inevitavelmente me levou à pergunta: como diabos eu podia ter gostado de um filme tão apreciado pelos motivos aparentemente errados?

(Eu suspeito também que parte do meu desgosto veio do fato de que o pequeno filme que eu “descobri” agora havia se transformado num fenômeno pop – o coelho Frank agora até aparece em flogs. Mas isso não vem ao caso)

De qualquer forma, eu senti que uma nova assistida do filme revelaria que eu teria sido enganado pela minha ingenuidade, e apreciado o que era meramente uma fraude, um Beleza Americana, um produto engenhosamente montado para massagear os egos e os “idéias de qualidade” de sua platéia. Esperei ganhar mais confiança no meu próprio gosto e julgamento, e finalmente peguei o DVD pra rever. E sabe de uma coisa?

Eu tava certo desde o começo. O filme é fantástico. E o seu sucesso faz completo sentido. Nós não estamos falando de um “pequeno filme independente”, mas sim de uma obra icônica, grandiosa, romântica e pop, não muito diferente de clássicos dos anos 80 como E.T. – O Extraterrestre, Curtindo a Vida Adoidado, De Volta Para o Futuro – mas é claro, com uma sensibilidade evidentemente mais peculiar.

Ele realmente é um filme teen, mas um que constrói sua própria mitologia, um que pega as fórmulas, vira elas de cabeça para baixo, sacode, pisa, rasga e costura de novo; ele torna todos os clichês excitantes e vivos, contando, é claro, com a tremenda confiança que Richard Kelly – um iniciante de 26 anos na época – trouxe pra direção. E acredite, quando você sente arrepios vendo coisas absolutamente ridículas na tela – como o coelho Frank e os portais já previamente mencionados – você ganha a certeza de que está nas mãos de alguém que sabe exatamente o que está fazendo (uma certeza rara e extremamente prazerosa).

No entanto, o que coloca Donnie Darko como algo mais do que um híbrido de filme teen e fantasia extremamente divertido são os temas que flutuam pela sua narrativa, proporcionando ressonância emocional e as ocasionais revelações sobre a experiência de ser um adolescente. O que me toca mais é a idéia de que Darko é um filme sobre um período estranho e surreal da adolescência – ou pelo menos da minha adolescência – onde o mundo todo começa a se desmistificar, e qualquer sinal de espiritualidade e magia vai escorrendo lentamente pelo ralo. Junto a esse processo, há geralmente uma resistência por parte da pessoa, meio que uma última tentativa de acreditar que há algo “Além” desse mundo.

Isso é brilhantemente retratado na premissa: um coelho da Páscoa demente aparece para Donnie numa de suas madrugadas – uma das visões causadas pela provável esquizofrenia do protagonista – contando que o mundo (i.e. o mundo ainda encantado pelo Impossível) vai acabar em aproximadamente 28 dias. Nós todos já não nos sentimos assim uma vez ou outra? (Não? Nunca?)

Se você acha que eu estou arrancando interpretações malucas da minha própria experiência pessoal, basta olhar para uma das cenas de Donnie e sua psicóloga (Katharine Ross, ótima no papel), onde ele melancolicamente menciona o seu medo da morte e da solidão. Depois de contar uma anedota sobre o seu cão (que se enfiou debaixo da varanda pra morrer), Donnie começa a falar sobre o cansaço gerado pela sua dúvida em relação à existência de Deus. Ou então, veja a intensa cena no cinema, onde Frank mostra a Donnie um “Portal”, que surge no meio do telão durante uma sessão de Uma Noite Alucinante. É um buraco revelando do outro lado um céu celestial, divino. Toda a trama que Donnie desenvolveu em sua cabeça – e eu não acredito que haja algum momento no filme em que não estejamos na cabeça dele – é cheio de elementos relacionados ao espiritual, e à idéia de permanecer jovem, ocupando um mundo de fantasia.

Note que o “vilão” do filme é um hipócrita pedófilo, que se finge de moralista mas corrompe criancinhas; se tem duas coisas que Holden Caulfield (o protagonista de outro clássico de angústia adolescente: Apanhador no Campo de Centeio) não gosta, é de pessoas falsas e da perda da inocência infantil. Note também que o filme lida com viajar no tempo, uma idéia romântica da capacidade de satisfazer nostalgia. Note a tentativa de Donnie de dessexualizar os Smurfs. E o projeto de ciências que ele e Gretchen Ross (n.b: nome chiquérrimo) criam, envolvendo uma máquina que exibisse apenas imagens de “coisas belas” para bebês, protegendo eles de “coisas ruins” (meio que um “Ludovico Treatment” reverso). E o momento maravilhoso onde Donnie pega os protetores de ouvido que a caçoada Cherita usava para se resguardar do mundo, e os coloca, se isolando completamente do exterior, enquanto caminha pelas ruas da cidade.

Resumindo: cada momento e reviravolta na narrativa do filme é cristalizado não só pela direção icônica e lírica de Kelly, mas também pelas idéias debaixo do tapete. Kelly consegue gerar (com total sucesso) uma atmosfera densa onde qualquer coisa parece possível, e as tensões psicosexuais da adolescência entram em conflito com as noções ingênuas de espiritualidade e pureza do protagonista, criando uma química estranha e vibrante. O dilema pessoal e íntimo de Donnie é apropriadamente transformado numa fantasia grandiosa e insana, onde ele é o centro. Porque é isso que adolescentes fazem (se você já não percebeu).

***

Mais material Darkano: O brilhante Jim Emerson analisa o filme pensando em incesto:

“Frank is a manifestation of that ambivalent aspect of Donnie’s own erupting id, his stifled/frustrated hormonal urges, his feelings of being trapped in his own body and his own brain between childhood and the full-blown sexuality he so desires but knows he can’t act on (with Elizabeth, anyway). How appropriate that he’s attending Middlesex High School; when it comes to sex, he’s stuck in the middle. When Donnie taunts Elizabeth about how to “suck a f—k” while miming that he’s “all ears” — well, whether he knows it or not, he’s conjuring up a prescient image of Frankenbunny, whom he no doubt imagines engaging in all kinds of polymorphously perverse activities with his sister.”

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