Criticando Críticas: “Ser ou não ser… nunca serão!” (e a tabelinha de 20/06)

Postado por Rodrigo Pinder

“Alas, poor Zero-Meia!”

Tinha que acontecer, mais cedo ou mais tarde: Wagner Moura é Hamlet. Um Hamlet “debochado”, como declara o próprio ator em entrevista ao Jornal da Globo (assistam ao vídeo no G1). “Um Hamlet diferente, um dinamarquês meio à baiana”, acrescenta o repórter Renato Biazzi. É óbvio que a imprensa brasileira, em sua infinita relevância, não poderia evitar comparações entre o protagonista da peça de Shakespeare e o personagem que alavancou a carreira de Moura: “O que eles têm em comum é a dúvida sobre si mesmos, a angústia e um ator brasileiro, Wagner Moura, que da podridão do morro vai agora à podridão do reino da Dinamarca”. Dúvidas e angústia, por acaso, é o que ambos têm em comum com 99,74% dos personagens já criados na História do Drama, seja em romances, peças, filmes, gibis, séries de TV ou reality shows, o que abre caminho para que jornalistas continuem comparando o Capitão Nascimento a todos os personagens interpretados pelo ator, até o Fim dos Tempos.

Por falar em Fim dos Tempos, a estréia da peça ilustra a capa do Guia da Folha desta semana (de onde confesso ter escaneado a foto de Wagner Moura utilizada na espetacular montagem acima), que traz, como sempre, a tradicional tabelinha. Eu sei, eu sei. Eu também não sou nenhum exemplo de relevância. Prometo que quando tiver tempo e disposição falarei sobre coisas realmente importantes; por hora, fiquem com as últimas macacadas dos críticos da Folha de São Paulo:

Fim dos Tempos divide opiniões radicais, confirmando o atual status “ame-o ou deixe-o” de M. Night Shyamalan (eu não fazia idéia de que havia tantos apologistas do diretor no Brasil): Bruno Saito acompanha suas três estrelas de uma referência um tanto estrambólica: “assustadora atualização de ‘Guerra dos Mundos'”. Peraí, Spielberg já não “atualizou” ‘Guerra dos Mundos’ três anos atrás? Estaria o Sr. Saito sugerindo que o Fim dos Tempos é uma atualização do filme de Spielberg, a temática (spoiler) ecológica sendo talvez mais relevante que aliens nesses tempos de Verdades Inconvenientes? Discutam. Cássio Starling Carlos dá quatro estrelas (!) e filosofa: “além do mal-estar da civilização”. Pedro Butcher também dá a nota máxima (uau), supostamente referindo-se a Shyamalan no comentário: “criador de imagens”. Sim, Sr. Butcher, é isso que um cineasta é. No outro extremo estão Sérgio Rizzo e Christian Petermann. Rizzo escolta sua estrela isolada com “não ter rumo difere de esconder o rumo”. Eu tenho quase certeza que ele quis dizer “é pior que” ao invés de “difere de”; seja como for, concordo. Já Petermann não dá estrela alguma (ou seja, “péssimo”) e escolhe um adjetivo a dedo: “constrangedor”.

Cleópatra (2007) aparentemente conseguiu despertar mais ufanismo do que Corpo. A julgar pela imagem acima, quem teria a audácia de discordar? (Obs.: Eu ainda não vi nenhum dos dois.) Bruno Saito enriquece sua cotação de duas estrelas com uma recomendação: “para ver sem pipoca, preconceito ou sono”. Eu tenho que obrigatoriamente respeitar estas três condições para apreciar Cleópatra? Preconceito e sono já são coisas que eu sempre evito ao assistir filmes, mas vou alugar o DVD e fazer um balde de pipoca, só pra contrariar. Todos os demais deram três estrelas: Cássio Starling Carlos concede uma recomendação no estilo ‘Rede Globo’: “aventure-se na esfinge de Bressane”. Inácio Araújo apresenta uma impossibilidade geográfica: “o Nilo vai ao Rio”. Marina Person é outra que oferece um conselho: “esqueça o convencional e desfrute”. Sérgio Rizzo, aparentemente compartilhando dessa linha de pensamento, adverte: “o Egito de Bressane não é para turistas”. E é Pedro Butcher, geralmente pragmático, que arrisca um certo lirismo: “lírio cinematográfico”. (Mais sobre lírios.)

Um Beijo Roubado é um dos poucos que todo mundo viu (os outros são Indiana Jones e Longe Dela), e a maioria gostou: Bruno Saito, Cássio Starling Carlos e Pedro Butcher deram quatro estrelas, adornando-as com desenvoltura: Saito: “a arte de sofrer com classe; Carlos: “para os que ainda amam”; Butcher: “diante da dor dos outros”. Marina Person permanece em seu espectro estável de três estrelas, adicionando uma definição essencial: “Kar-wai goes west”. Suzana Amaral compartilha da cotação de Marina e não perde tempo divagando: “belo, arrojado, melancólico”. Mas nem tudo são lírios: Amir Labaki, Christian Petermann e Inácio Araújo soltam apenas duas estrelas cada. Labaki aparentemente acredita que Kar-wai falhou: “América inconquistada”. Petermann, totalmente por fora do estilo da tabelinha, tem o arrojo de criticar o filme de forma direta: “muito clima, boa música e artificialidade”. Por fim, Inácio Araújo se contenta com “um chinês empetecado”.

O Incrível Hulk sofre de uma recepção um tanto morna: Amir Labaki dá três estrelas e consegue espremer duas referências no curto espaço do comentário: “Frankenstein com escorregão Godzilla”. Vamos analisa-las: Frankenstein, um aclamado romance clássico sobre um cientista que cria um monstro. Godzilla, uma série cult de filmes japoneses com um “escorregão” americano. Eu entendo o que ele quis fazer aí, mas por que ignorar a referência literária mais óbvia, ‘O Médico e o Monstro’? Talvez o título do livro de R.L. Stevenson não soasse tão bem no contexto. Talvez estourasse o número máximo de caracteres. Christian Petermann é direto, aliando suas duas estrelas a um “só ação, mas das boas”. Pedro Butcher compartilha da cotação, finalizando com um “correto, mas sem graça”. Bruno Saito e Cássio Starling Carlos dão uma estrela cada: eu desconfio que Saito gostou do filme de Ang Lee, já que considera esse “um Hulk que não pensa”. (Sacou? O Hulk não pensa. “Hulk esmaga!”, etc. Boa.) Concluindo, Starling Carlos está se tornando o crítico mais faceiro da tabelinha: “para ficar verde de raiva”. (Vale lembrar que o comentário dele sobre Homem de Ferro foi “não é uma lata velha”.)

P.S.: A mais nova versão de Hamlet tem encenação de Aderbal Freire-Filho e estréia hoje (dia 21/06) no teatro Faap.

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2 Comentários

Arquivado em Cinema, Criticando Críticas, Teatro

2 Respostas para “Criticando Críticas: “Ser ou não ser… nunca serão!” (e a tabelinha de 20/06)

  1. Ótimos comentários! Que bom que gosta de cinema e não despreza o que é nacional

  2. Pingback: O Melhor Filme de Cada Ano Em Que Estive Vivo - Part Une « O Discreto Blog da Burguesia

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