Littell diz que você também faria

Postado por Fabiano Ristow

Fui no Orkut e outros sites ver o que o pessoal achou do romance As Benevolentes, do norte-americano Jonathan Littell. Um número considerável de leitores estava torcendo para os protagonistas, ou ao menos demonstraram insatisfação com o destino cruel de alguns coadjuvantes. Tudo muito bem, tudo muito bonito, se não fosse o fato de (quase) todos os personagens da história serem nazistas, comporem altos escalões responsáveis pela execução de campos de concentração, ou terem matado pelo menos um inocente à queima-roupa.

Não, não está surgindo uma onda de neonazistas (espero). Da mesma forma que as pessoas não apoiavam o crime organizado quando pediam um final feliz para Tony Soprano (sim, é uma comparação que veio à minha cabeça aleatoriamente). Esses personagens ganham a empatia do público porque não são tratados sob uma perspectiva maniqueísta; são vistos como seres humanos, atrozes mas também apaixonados, cheios de dúvidas e, principalmente, com problemas psicológicos.

(Não, eu não torci para um final feliz em nenhum dos dois casos.)

Ao contrário de Tony, Maximilien Aue não tinha um psiquiatra para falar de suas perturbações, grande parte delas dissimulada no inconsciente e manifestada nos vômitos e nos sonhos depravados, perversos e torpes. Pudera: o jovem oficial do Partido Nazista presencia as matanças irracionais da Segunda Guerra através do olhar de quem as corrobora.

Ele é um louco, você diria. Aliás, vários de vocês diriam que aqueles nazistas, todos os Waffen-SS que estouraram balas nas cabeças de judeus, deficientes e ciganos, mulheres e crianças, foram uns loucos. Aue não concorda. Ou melhor, Littell não concorda. Em entrevista, o escritor disse ter construído o comportamento de Aue baseado no que ele próprio teria feito se tivesse nascido na Alemanha pré-Guerra. “E ele não era o único, esse homem”, confronta Aue, referindo-se a um nazista. “Todo mundo era como ele, eu também era como ele, e vocês também, no lugar dele, seriam como ele.”

Sim, havia os que matavam por prazer. Mas também os que matavam por serem nacionalistas, ou por terem sido educados a acreditar na hierarquia racial, ou porque eram obrigados simplesmente, ou porque acreditavam estar espancando um animal, ou melhor, um sub-homem, e, quando percebiam que na verdade se tratava de um homem como eles, espancavam-no ainda mais para destruir a humanidade ali presente.

Esses “loucos”, argumenta Aue, seguiam nada mais que uma Lei exterior, da mesma maneira que todos nós o fazemos. A Lei pode ser o Estado, a moral ocidental, Deus. Mas o homem necessariamente aceita a coerção da Lei. “Que arrogância seria, e que caos também, se cada homem vivesse segundo sua Lei privada”, observa o oficial SS. Naquele caso, a Lei era o Führer. Get over it.


Littell, com seu olhar 43

Aue não tem pudor. Na forma de memórias oceanicamente detalhadas, ele descreve seus devaneios (homos)sexuais e incestuosos com uma minuciosidade indecente e a tragédia da guerra com uma frieza impiedosa. O trabalho de pesquisa de Littell para reconstruir os eventos reais que aconteceram de 1941 a 1945 é… sério, medonho. O resultado é um livro de mais de 900 páginas, um tijolo lançado em 2006 na França que se tornou um sucesso instantâneo.

Segunda Guerra é um assunto tão explorado que já se esgotou. Além de 614362 filmes sobre ele, também é uma espécie de moda retratá-lo na literatura sob prismas “originais”. Pega A Menina que Roubava a Livros, mega ultra fucking best-seller do ano passado, cujo mote é tão comumente repetido que praticamente integra o título: “A Segunda Guerra sob o ponto de vista da Morte”. Não li o livro inteiro, desisti quando já tinha passado da metade. Não vou explicar por quê: isso renderia outro post e, na verdade, que direito tenho eu de criticar uma obra da qual não cheguei ao fim?

Mas cabe aqui uma ressalva: o romance de Markus Zusak, até onde cheguei, não ousa; se acomoda nas conveniências hollywoodianas de estrutura e conteúdo. Os personagens, embora alemães, demonstram constantemente sinais de repulsa pelo nazismo, provavelmente porque Zusak achou que essa era a única forma de obter a benevolência do leitor. Littell é tudo, menos benevolente. Ele martela o cérebro com lufadas de melancolia, violência, choque e verdade. Seu mote é “a Segunda Guerra do ponto de vista do carrasco”, e o leva a sério até a última frase.

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3 Comentários

Arquivado em Literatura

3 Respostas para “Littell diz que você também faria

  1. Ah, mas você tem que ver que nazistas são excelentes vilões. São frios, calculistas, megalomaníacos, afixionados com um líder mau supremo e ainda matam criacinhas inocentes pra completar. Além de tudo, eram inimigos dos “US and A” e tal.

    Mas isso da influência do “ponto de vista” da narrativa sobre as pessoas é sempre algo interessante de se observar. As mesmas pessoas que dão risada com o Zé Pequeno em Cidade de Deus, vibram com o Capitão Nascimento mandando “pegar a doze” pra detonar o traficante em Tropa de Elite. As mesmas.

    Nesse caso do seu post, serve pra gerar esse questionamento (muito bom, por sinal), a respeito do “você também faria a mesma coisa”. E eu acredito que sim, a completa e imensa maioria das pessoas do mundo INTEIRO o faria. E nem penso isso baseado na quantidade – grande – de pessoas preconceituosas (que provavelmente consideram o nazismo uma boa idéia) existentes nas camadas mais ricas da nossa sociedade….mas sim pela facilidade com a qual a população em geral aceita idéias claramente ruins (maus políticos, religiões toscas, etc e tal). Imagina uma idéia como o Nazismo, que vem disfarçada em uma boa intenção nacionalista fácil de acreditar e seguir em frente. Ainda mais nesse mundo, onde a coisa mais fácil do mundo é encontrar povos querendo se separar de outros, seja por se considerarem melhores, seja por não querer estar no mesmo grupo que o resto. Como os nazistas.

    Enfim, falei demais.

  2. Pingback: Recapitulando: 29/06/08 « O Discreto Blog da Burguesia

  3. Acredito que o Littell pesquisou tudo a respeito dos nazistas, menos uma coisa: a resistência que houve na Europa em relação ao seu poder. Não deve ter pesquisado a respeito dos anarquistas na Espanha, na Frente Ampla montada na França. Pesquisou tudo a respeito da subjetividade de um fascista, mas provavelmente deve ter calado essas vozes. Se o romance é o que a figura do autor diz dele, ponto negativo para Littell, que só faz acrescentar caras e bocas a um filão mais do que explorado. Fico com Camus, Sartre, Musil, Kafka, Hesse, Mann, Calvino, Drummond, Rosa, Lispector, que contaram outra história e foram mais bem-sucedidos.

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