Como Melhorar WALL-E

Postado por Luis Calil

WALL-E é excelente. Isso é óbvio. Desde o trailer, eu já previa. A estratégia de preterir diálogo por boa parte da duração; a situação Sisífica do ingênuo protagonista; a sátira direta e potente de consumismo e indolência; o design magnífico dos cenários futuristas; a graciosa história de amor “artifcial”. Estamos falando aqui do melhor trabalho da Pixar, possivelmente. Não consigo lembrar de nenhuma cena sem começar a lacrimejar.

O problema com WALL-E é que ele é claramente excelente. Não há nada que eu possa elogiar que centenas[1] de críticos (pagos) já não tenham elogiado – e de um jeito muito mais eficiente, um jeito que deixa claro que ele estão sendo pagos ($$$). Mas eu não quero simplesmente mudar de assunto. Devo reconhecer a existência desse brilhante conto de ficção-científica no Discreto Blog, que, se tem alguma utilidade, é falar de coisas que valem a pena.

(E se você ousou não assisti-lo na estréia, faça-me o favor: feche o browser agora [o post não vai sair daqui] e vá. Sim, agora. Literalmente. Agora. Vá.)

Então, ao invés de digitar burocraticamente comentários redundantes sobre a magnificência de WALL-E, vou falar sobre o que eu teria feito se eu tivesse a mesma premissa, uma equipe gigantesca de animadores e 120 milhões de dólares (!) nas minhas mãos. Sim, nas minhas perversas mãos.

Primeiro lugar, cortem as indicações de sexo pros robôs. O filme se passa 800 anos no futuro. É bem provável que as categorias sexuais limitadas dos humanos de hoje em dia – com a ajuda de modificação genética, entre várias outras possibilidades – vão evoluir para algo mais fluido, ou simplesmente desaparecer. Agora imagina os robôs. Eles nasceram sem sexo, e não precisam disso. Os criadores encontraram um jeito esperto de justificar os nomes – WALL-E é Waste Allocation Load Lifter-Earth Class e a EVE é Extra-Terrestrial Vegetation Evaluator – mas ainda são nomes que claramente indicam robô-garoto e robô-garota[2]. Até o design – maravilhoso, estupendo – e a voz dos protagonistas abrem o jogo. Será que as criancinhas não estariam prontas para uma história de amor assexual, entre o robô WABLA e o robô DIPLA, ou alguma merda do tipo? [3]

Segundo lugar, qual é a pressa? A Pixar se deu o trabalho de criar alguns dos cenários mais espetaculares da história do cinema, como a Terra empoeirada, com pilhas de lixo imitando o formato de prédios, ou a nave espacial gigantesca que emprega centenas de tipos de robôs diferentes, cada um com características distintas. É uma pena que o Stanton se sentiu obrigado a passar correndo por tudo isso, como se o espetáculo da complexa lógica de cada cenário não fosse o suficiente para render vários minutos de saliva escorrendo da boca da platéia. Se eu estivesse no comando, teria diminuído o ritmo consideravelmente, especialmente na primeira metade, na Terra. Isso realçaria o contraste da melancolia da rotina de WALL-E com a insanidade ultra-high-tech impessoal da nave na segunda metade, uma estratégia que orgulharia Apichatpong Weerasethakul.

Terceiro lugar, a trilha de Thomas Newman poderia ter sido ainda mais incrível. Houve um trecho do filme – no set-piece genial onde WALL-E chega pela primeira vez na nave humana e encontra um punhado de robôs inspetores – em que a trilha mudou de marchas e se transformou em algo que soou genuinamente futurista. Eu não conseguiria descrevê-la satisfatoriamente sem poder ouví-la outra vez, mas envolvia um ritmo acelerado e mecânico, notas voando para todas as direções e harmonias bizarras. É uma pena que a trilha frequentemente caía de volta para o tradicional, com cordas orquestrais atingindo as marcas de sempre. É bonito, mas eu prefiro “estranho” e “original”. Eliminaria tudo que não soasse como algo composto daqui a 800 anos, com exceção das canções antigas do filme favorito do WALL-E, que tocam em momentos estratégicos.

[E agora, uma alteração do final. Se vocês ainda não viram o filme (i.e. desobedeceram minhas ordens acima), pulem o próximo parágrafo]

Quarto lugar, que tal um final deprimente? Não adianta; assim que WALL-E quebrou e voltou à vida sem sua identidade, todo mundo já sabia o que ia acontecer: era só uma questão de tempo até o momento onde ele iria olhar nos olhos de EVE e lembrar quem ele realmente é. Foi tão previsível, e a antecipação tão prolongada, que chegou a irritar. Enquanto eu esperava o filme atingir sua marca, imaginei como seria se WALL-E não recuperasse a sua identidade, e o filme terminasse na EVE desesperadamente tentando reanimá-lo, a tela escurecendo enquanto assistimos aquele ato sem esperanças. Muito perturbador para crianças? Sim, mas fodam-se as crianças. O final ia funcionar com essa mudança de tom abrupta? Talvez seja necessário alterar o roteiro para antecipar essa possibilidade e introduzir essa linha temática. Se funcionasse, seria bem mais potente e lógico e assombroso do que o final atual? Sem dúvida.

[Ok, spoilers acabaram]

Essas alterações teriam transformado o filme numa obra-prima demente, algo que a maioria da platéia ia odiar, e algo que faria a minoria, ao sair da sessão, seguir embasbacada direto para a bilheteria e pedir outro ingresso. Mas o problema com ficção-científica no cinema é que ela frequentemente requer orçamentos gigantescos [4], e esse compromisso geralmente deixa de fora as idéias ousadas e perturbadoras (que são a maior graça de FC). Portanto, se o espetáculo futurista de WALL-E é apresentado de uma forma segura e saudável, o jeito é engolir.

E não é como se fosse um sacrifício terrível. WALL-E é o filme mais perspicaz e emocionante que eu vi até agora esse ano.

(Agora vai. Sério.)

***

[1] Será que já caíram pra “dezenas”? Vou ter que confirmar.

[2] EVE é EVA na versão dublada. Como eles justificam isso? Extra-Terrestrial Vegetation… Avaliadora? Manés.

[3] Acho que esse é o momento apropriado pra confessar que, apesar da minha sugestão de alteração, eu achei a EVE levemente sexy. Me processe.

[4] Nem sempre.

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14 Comentários

Arquivado em Cinema

14 Respostas para “Como Melhorar WALL-E

  1. Fabiano

    Em outras palavras, Wall-E por Wong Kar-wai. Impossível, só em outro planeta, mas essa versão hipotética também me atrai mais, exceto o seguinte…

    SPOILER ABAIXO
    .
    .
    .
    .
    O final perde um pouco da força por causa da previsibilidade mesmo, mas a sua alternativa seria pior ainda. Daqui a pouco você vai se juntar à legião esmagadora que acha que A.I. deveria ter terminado na cena do oceano. Sei lá, é que o Walle e a Eva são tão fofinhos…

  2. Wong Kar-Wai? Eu tava pensando mais em Weerasethakul. E sim, essa versão só existiria em outra dimensão, pelo menos enquanto o preço de criar essas coisas é tão alto.

    SPOILERS

    Eu acho que o final que eu sugeri seria mais lógico e mais potente. Por exemplo, se o HD de um robô é formatado, por assim dizer, não há como ele restaurar sua identidade, a não ser pela “Magia do Cinema”. Faria sentido o WALL-E não lembrar de nada.

    Mas pra funcionar, o filme teria que explorar o assunto fascinante que esse final alternativo toca, que é a possibilidade de consciência e identidade num ser artificial. Eu adoraria que a primeira hora de WALL-E mostrasse o robô lentamente fugindo de suas tarefas e ações padrão e começando a criar interesses (por velharias, coleções, pelo musical que ele achou).

    Aí a segunda hora mostraria ele retirando a EVE do casulo dela, fazendo ela acordar para o mundo em sua volta, fugir do protocolo.

    O final alternativo nesse caso teria o peso de uma tragédia quase Shakespeareana, um Romeu & Julieta artificial, onde WALL-E perderia sua identidade logo quando a EVE finalmente começa a reconhecer sua existência e ganhar consciência.

    PS: O final de A.I. só é bom na teoria. Do jeito que tava executado, era melhor terminar no fundo do mar mesmo.

  3. Pingback: O que dizer de WALL•E? « Vida Ordinária

  4. Wanderson

    Mas que saco esse negócio de ficar postando quotes para linkar blogs. Eu não quero ler o blog de vocês. Párem! Eu quero ler o Discreto Blog da Burguesia, pelo menos enquanto está no começo e todos estão super animados etc.

    Mudando de assunto: “Folco”? Que gracinha!

  5. Bruno Tavares

    Wanderson, esse quote é automático…ahahahahahaha. O wordpress posta quando qualquer referência ao post de outro blog é feita.

  6. Wanderson

    Hype automático, era só o que faltava.

    De qualquer forma, eu vos perdôo.

    (Até porque funcionou: acabei indo ler o post)

  7. É uma escolha nossa, Wanderson. Agradecer o linkamento relinkando.

  8. Pingback: Reflexões acerca de WALL•E « Quelque Chose

  9. E olha mais um link aí…hehe

    O fato é que normalmente quando o post é bom, ele é bastante “linkado”. =]

    Sobre o que você disse: eu até concordo com coisa ou outra, (mesmo antes de ver o filme fiquei meio pensativo a respeito disso de “robôs sexuados”), mas acho que a gente tem que lembrar que, antes mesmo de ser um filme de ficção científica, Wall-E é um filme de fantasia, bem “Disney” (o que não chega a ser um defeito). Então estes elementos como a antropomorfização dos robôs e o final feliz são meio que inevitáveis. Eu diria até que estamos no lucro de termos um filme de fantasia lindo como esse e que ao mesmo tempo conta com elementos de ficção científica e questionamentos tão interessantes.

    Aliás, diga-se de passagem, eu sou da turma que não mexeria em nada no final. Concordo contigo que o final que você sugeriu faria muito mais sentido e traria novos questões, mas um pouquinho de catarse é bem vinda de vez em quando. Ainda mais em um filme “bonitinho” como esse. É como você falou, para ter esse final, teria que ser outro filme, com os mesmos personagens. Mas com um desenrolar da história bem diferente.

    No mais, acho que gostaria de mais cenas mostrando os cenários fodas do filme sim. Mas enfim, o tanto que elas apareceram já estão de bom tamanho.

  10. Paulo

    SPOILERS

    O início poderia ser maior mesmo, é a melhor parte do filme. E quanto ao final, quando a EVE toca no WALL-E antes dele se lembrar, acontece um estralo entre os dois, e como era de uma tecnologia extremamente avançada ela pode ter formatado uma nova consciência pelas lembramças que tinha dele, e transferido esta.

  11. Paulo, eu não lembro do estralo no final, só aquela faísca na cena do beijo. Se tiver alguma indicação que ela transferiu alguma coisa, faz sentido.

  12. janaína

    a primeira coisa que farei ao chegar em são paulo vai ser comer temaki. a segunda é assistir wall-e (só por causa d’O Discreto Blog da Burguesia®). porque dublado em espanhol até o apichtpong ficaria chato.

  13. Jessica

    WALL-E é espetacular, mas todos os creditos deveriam ir para Numero 5 do filme “um robô em curto circuito” (Short circuit de 1986)…Da minha época!

  14. Pingback: » O que dizer de WALL•E? Vida Ordinária

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