Fique Esperto: Agente 86 Traz Piadas, Ação, Déjà Vu

Postado por Rodrigo Pinder

Devo confessar que minhas memórias da série de TV são consideravelmente turvas, limitando-se em geral à icônica abertura, além de alguns momentos isolados (dos quais boa parte corre o risco de ser fruto da minha imaginação). Mas o pouco de que eu consigo me lembrar com clareza se parece com uma sitcom onde a sátira de espionagem é quase incidental, uma comédia onde o humor é extraído principalmente da interação entre os personagens. Na busca por um lugar ao sol entre o Mínimo Denominador Comum do Verão Americano – onde os filmes com alguma ambição de um amplo lançamento aparentemente devem conter algo para agradar cada nicho demográfico existente – a versão cinematográfica procura equilibrar os dois elementos enquanto faz malabarismo com uma mais-que-generosa dose de ação e uma dolorosamente obrigatória pitada de romance, atingindo um resultado levemente caótico e curiosamente agradável, como um gaspacho à portuguesa.

O algo-para-todos é uma tendência de origens incertas que vem crescendo exponencialmente em Hollywood desde meados de 1996, sem mostrar sinais de desgaste. Trata-se de um dos atestados mais explícitos de um cinema controlado por executivos que não têm necessariamente algum interesse particular em cinema – quando se coloca os objetivos financeiros tão acima dos criativos, os resultados são, na pior das hipóteses, obscenos (Jogos Mortais está atualmente em sua quinta seqüência, e eu não me espantaria se uma sexta fosse anunciada até você terminar de ler este post); na melhor das hipóteses, nós somos agraciados com um desfile de potencial desperdiçado, um carnaval de inofensivos produtos genéricos estandarteando suas virtudes descartáveis pela passarela dos multiplexes. É pura matemática: quanto mais coisas cada filme tenta fazer, e quanto mais os filmes em geral tentam fazer as mesmas coisas, mais eles vão se tornando (a) parecidos, (b) inócuos e (c) longos.

A lógica obtusa que leva essas produções a perder tempo preocupando-se em competir em pé de igualdade não só comercialmente, mas também em conteúdo, acaba definhando a personalidade individual de cada uma delas, o que simplesmente não tem razão de ser; o prognóstico de competir com Hulk nas bilheterias não implica na necessidade de pelejar com ele no quesito “ação”. A existência de personagens de gêneros opostos não obriga você a criar um romance entre eles, só porque Sex & The City – O Filme está fazendo isso. Nada disso chega a ser um problema catastrófico em Agente 86, mas há o suficiente da sensibilidade “agrade o máximo possível de pessoas ofendendo o mínimo possível” para deixar uma pulga atrás da orelha. Num dos exercícios de futilidade mais flagrantes, a parcela do público que por acaso pudesse se sentir incomodada pela diferença de idade entre Steve Carell e Anne Hathaway é logo tranqüilizada: a Agente 99 é na verdade muito mais velha do que aparenta – ela só tem esse rostinho de menina graças à conveniente cirurgia plástica que mudou completamente suas feições.

Apesar de ter apenas 110 minutos (o que já é um tanto excessivo para um conceito que deveria se manter por volta dos 90), quando os créditos finais de Agente 86 começaram a subir eu podia jurar que pelo menos duas horas haviam se passado, especialmente porque o interminável clímax de ação sofre de um caso severo de Síndrome De Michael Bay, ultrapassando com larga vantagem o limite do bom-senso. Como não é do interesse do Discreto Blog divulgar spoilers, limitar-me-ei a dizer que a cena envolve um carro, um avião e um trem (todos simultaneamente em movimento, claro), e figura um Alan Arkin no piloto automático, reagindo a coisas que obviamente não estavam ali na hora da filmagem. O efeito geral fez despertar um bocejo com um gostinho familiar, um bocejo similar ao que eu deixei escapar no terceiro ato de Sr. e Sra. Smith (cujo tiroteiro final me deixou tão entediado que eu comecei a rezar para uma das balas escapar da tela e me atingir na testa).

Nos momentos em que se concentra em humor situacional orquestrado por interação humana, no entanto, o filme tem personalidade de sobra, graças a diálogos ocasionalmente inspirados e um elenco constantemente carismático. Cada coadjuvante consegue deixa uma impressão, por menor que seja sua participação (algumas resumem-se a apenas uma cena). Dwayne Johnson (o artista anteriormente conhecido como “The Rock”) não é exatamente um exemplo de versatilidade, mas seu estilo é perfeito para o super-badass Agente 23 (reparem na hilária cena do paintball). Anne Hathaway ainda não chega a demonstrar o que se pode chamar de dotes artísticos extraordinários, mas felizmente ela tem dotes de outros tipos de sobra para compensar. E Steve Carell novamente veste um papel como uma luva cirúrgica, oferecendo toda sua costumeira disposição para auto-humilhação e recuperando quase todos os pontos perdidos em A Volta do Todo-Poderoso.

Carell é um Maxwell Smart que faz jus ao sobrenome. Ele não é um trapalhão incompetente, mas sim um gênio talentoso que acaba provocando trapalhadas ocasionais pela sua falta de experiência em botar a mão na massa. Essa é a difereça crucial entre o Agente 86 e um Johnny English ou um Tenente Frank Drebin – ele não cumpre seus objetivos por acaso acidental, mas sim por uma insistência sobre-humana em fazer seu trabalho perfeitamente, nos mínimos detalhes. Grande parte da trama é devotada à possível promoção de Max a agente de campo, continuamente postergada porque ele é simplesmente competente demais como analista. Ou seja, mais do que alguém de quem você pode rir, ele é alguém por quem você pode torcer, e isso faz a diferença.

Enfim, depois de tantas divagações enfadonhas, você pode estar se perguntando “afinal, o filme tem um número suficiente de cenas engraçadas?” Sim, ele tem. Especialmente aquelas que pouco, ou nada, têm a ver com a trama: tanto o “cone do silêncio” quanto a “competição de dança” fizeram o cinema inteiro gargalhar, por exemplo. Há também uma farta quantidade de humor físico, que, apesar de esporadicamente inspirado (como nas estripulias de 86 no banheiro do avião), entra no espectro da previsibilidade com uma certa freqüência, provocando risos forçados por pura força do hábito. Infelizmente, certas coisas deixaram de ser novidade desde que Buster Keaton resolveu tropeçar e cair.

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