Esperei o DVD: Cloverfield – Monstro

Postado por Luis Calil

A realidade é uma bagunça. Ela é simultaneamente caótica e banal, e frequentemente frustrante. Mas a “Realidade” – a de Reality Shows – não pode funcionar assim. A maioria das pessoas não tem interesse em gastar seu tempo reservado para entretenimento assistindo algo que reflete fielmente a confusão do dia-a-dia, não importa quão incisiva e produtiva seja a reflexão.

A solução que produtores de TV encontraram pra isso foi contratar roteiristas e montadores que têm como missão enfiar na realidade arcos dramáticos, conflitos forçados, resoluções convenientes, e todo tipo de fórmula que ficção utiliza. Assim, as pessoas têm apenas a impressão de ver algo real, quando na verdade estão recebendo colheradas de algo quase tão pré-programado e seguro quanto um sitcom aleatório. Com cortes traiçoeiros e uma estrutura escavada à força, um episódio de America’s Next Top Model pode acabar lembrando – por bem ou por mal – algum capítulo da novela das 8, e Run’s House alguma reprise de The Cosby Show.

O problema de Cloverfield – o filme de monstro de J.J. Abrams (Lost, Alias e outras merdas) – é que ele representa a situação inversa do que eu descrevi acima. É um filme de ficção cuja ambição é criar uma sensação imersiva de realismo através do conceito de filmagem amadora, mas que falha toda vez que ele nos lembra que os caras por trás da obra saíram de Hollywood.

Sou fã de A Bruxa de Blair, e já considerei várias vezes o quanto seria excitante aplicar a idéia de “gravação encontrada” pra uma história de um ataque alienígena, ou algo igualmente grandioso.[1] Mesmo que parte da graça de Blair seja o aspecto psicológico – a câmera era para os personagens um jeito de filtrar os truques que suas mentes poderiam pregar neles, pois a câmera capta a realidade como ela é (supostamente) – ainda sim a sensação de que os eventos representados estavam realmente acontecendo era forte e envolvente, e poderia ser aplicada em certas situações fantásticas de gênero.

Cloverfield não é nenhum Bruxa de Blair. Vamos ignorar a falta do aspecto de tensão psicológica aguda, que talvez seja pedir demais de um filme sobre um Godzilla americano que mata yuppies. O que faz a obra de Abrams comparar inferiormente à Blair é que os cineastas por trás da cortina – Matt Reeves na direção e Drew Goddard no roteiro – não conseguem manter a maldita cortina fechada. De 5 em 5 minutos, surge algo que me fez pensar “Isso é um filme”, o que atrapalha muito quando o terror depende em parte da nossa crença de que isso não é um filme.[2]

Por exemplo: o filme abre numa festa de despedida de um dos protagonistas, e porque a platéia sabe que o filme não é sobre um mané se despedindo dos amigos, há uma leve tensão na expectativa do início do ataque. Após uns 20 minutos, um dos protagonistas solta essa pérola: “Esqueça o mundo, e se segure nas pessoas com quem você mais se importa”. Eu automaticamente pensei “Lá vem”, e no mesmo instante um tremor balança o apartamento, e as luzes se apagam. Colocar uma fala dessas próxima a um momento impactante é um jeito de realçar ou sublinhar alguma preocupação temática, e talvez teria funcionado num filme que não envolvesse filmagens amadoras. Mas esse acontecimento não tem absolutamente nada a ver com a realidade. No mundo real, o ataque teria interrompido a seguinte fala: “Eu tava checando as pastilhas de freio e parece qu–” POW!

Lembre-se que não estou sugerindo que momentos como esse estragam completamente o suspense e a tensão; o filme ainda tem várias sequências onde eu segurei a respiração ou deixei o queixo cair, e realmente vale a pena ser conferido[3].

Mas considerando o potencial gigantesco de colocar um conceito fantasioso num ambiente ultra-realista, é difícil não se irritar quando você escuta ritmos óbvios (“[Os ratos] estão fugindo…”;”Fugindo do que?”), exposição conveniente (aposto que os criadores pensaram: “Se a gente não mostrar os parasitas numa reportagem de TV, a platéia vai se sentir traída quando eles aparecerem…”), e um militar declamando dramaticamente o que poderia ser um dos taglines do filme: “Seja o que for, está ganhando”. Talvez o pior dos elementos convencionais cinematográficos inseridos no filme por Abrams & Cia. seja o Sr. Alívio Cômico – o personagem dos filmes que só serve pra enfiar piadas onde não deve – que acabou virando a porra do cameraman.[4]


É compreensível. A Bruxa de Blair arrecadou muita grana, mas muita gente não gostou, e esse era um risco que um filme de 25 milhões de dólares deveria evitar. Abrams precisava garantir que, apesar da natureza ousada do conceito, ele apresentaria a versão mais segura e confortável possível.[5] Ironicamente, Blair ainda sim foi o campeão de bilheteria (provavelmente porque o conceito era mais fresco na época), mas Cloverfield não se saiu mal, ganhando 80 milhões nos EUA e 90 no resto do mundo. E a platéia AICN parece ter se divertido. Por que devo esperar uma ambição maior dos criadores? Não devo.

Tenho que tolerar que a voz saindo do fone de um celular a 7 metros de distância da camera será audível. Tenho que aceitar um Seth Rogen de quinta categoria segurando a câmera, e uma seleção de Melhores Momentos do ataque – estátua da liberdade! ponte do brooklyn! batalha do exército! queda de helicóptero! – que nem a mais sortuda (ou azarada) pessoa teria presenciado. Tenho que engolir até que o público brasileiro é tão idiota que precisaram meter um “Monstro” como subtítulo pro filme não fracassar.

Mas eu não preciso acreditar em nada disso.

***

[1] Eu não pretendo processar J.J. Abrams por copiar a minha idéia, assim como eu não processei Shyamalan quando ele roubou minha idéia de “invasão alienígena do ponto de vista de uma fazenda”. E na minha versão os alienígenas não eram retardados. Puta que pariu.

[2] Um mockumentary de comédia como os filmes de Christopher Guest não tem a necessidade de ser tão rigoroso e impecável, porque comédia não depende tanto da nossa crença total nos acontecimentos representados quanto um filme que se leva a sério.

[3] A sexy Lizzy Caplan sozinha é o suficiente pra valer a locação de Cloverfield.

[4] Minto. A pior manipulação hollywoodiana foi usar uma boa idéia – o ataque é gravado por cima de uma gravação banal de outro dia, portanto pedaços da gravação antiga aparecem em certas pausas – para desenvolver o romance entre o protagonista e o amor da vida dele. Se fosse algo aleatório – como personagens conversando sobre um jogo de basquete, ou comendo churrasco, ou etc – teria sido talvez emocionante, mas colocar a Beth (que é um baita dum McGuffin) nas gravações obviamente foi uma tentativa de deixar mais clara a motivação do protagonista em salvá-la. Dá até pra imaginar a nota do Abrams sugerindo isso.

[5] Não que ele precisasse. Com o hype que ele tem, ele teria conseguido financiar qualquer merda.

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6 Comentários

Arquivado em Cinema, Esperei o DVD, TV

6 Respostas para “Esperei o DVD: Cloverfield – Monstro

  1. samanta

    eu acho que a historia romântica que pra você parece ridícula faz a gente torcer pelas pessoas que estão fugindo, afinal de contas eles não estão o tempo todo vendo o tal monstro nesse meio tempo a gente ficaria assim :| “chato” a historia é para chamar a atenção do publico. ou você queria o que? um grupo de pessoas lutando com o monstro? tentando ser amigos dele? hahahahaha not
    e se não tivesse a história como seria?
    um povo sentado tremendo e assustado durante uma meia hora de filme? vai fundo.

  2. Paulo

    samanta é que é meio ridículo um filme com essa premissa abrir essa convenção, sendo que até em filmes sem essa intenção já é chato, e fica cada vez mais. Enquanto eles não estão “vendo o tal monstro nesse meio tempo”, podiam mostrar a reação das pessoas ao evento, brincar com os filmes do gênero de qualquer forma que não seja easter egg, criar tensão. As opções são muitas.

  3. janaína

    é meu, você queria o quê? que o filme fosse bom?!

  4. janaína

    hahahahaha not

  5. Shuver

    Você é 1 idiota hauhauahuahau!
    O filme é 10,
    ah, não tente parecer intelectual…

  6. Z

    O filme não foi de todo mal, vai um oitão pra ele.

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