Livre, solta e sensata

Postado por Fabiano Ristow

Não precisa ter senso jornalístico para saber que, quando Ingrid Betancourt fosse libertada, a notícia ocuparia a primeira página de todos os jornais e seria massivamente comentada durante dias. Mas quem apostava que isso ia acontecer tão cedo? Ou que sequer aconteceria? Ou é meu pessimismo falando alto aqui?

Eis que ontem abro o G1 e um título em letras garrafais saltam da tela anunciando o resgate da senadora colombiana depois de seis anos mantida em cativeiro pelas Farc, e confesso que minha respiração parou por cinco segundos. Foi tipo ler a morte da princesa Diana ou do Papa, só que ao contrário.

Parando para pensar, não consegui compreender num nível racional por que o assunto Ingrid causa tanta comoção assim. Sim, ela é uma figura pública conhecida, ex-candidata à presidência colombiana, e as Farc são uma organização que integra listas internacionais de terrorismo. É um assunto relevante, portanto; mas talvez tenha um bom peso o fato de estar ancorado em sentimentos mais primitivos, envolvido numa paixão e anseio diretos, como se a Ingrid fosse mais do que o seu papel político lhe confere.

É assim para mim, e tudo por causa daquele vídeo do ano passado em que ela aparece no cativeiro cabisbaixa e sentada num banquinho de madeira dentro da selva, completamente suja e esquelética, os cabelos obscenamente longos jogados em cima do peito, o prendedor no pulso direito. Por mais horrível que seja a cena, incomoda mais as torturas que ela sugere, e, mais ainda, quando a gente imagina a nossa mãe no lugar – pensamento que, por sua vez, ganha mais carga dramática com as informações de ex-reféns de que ela teria tido malária, hepatite do tipo B e leishmaniose, além de problemas de insuficiência cardíaca. A Ingrid deixa, então, de ser uma mera capturada para se tornar alguém que a gente quer ver de volta não na vida política, mas, principalmente, dentro de sua casa. No fun.

Então é claro que a cena da Ingrid descendo do avião e reencontrando a mãe depois de 2.323 dias foi euforicamente gravada por todas as televisões do mundo. O mesmo vale para o reencontro com os filhos Lorenzo (19 anos) e Melanie (22 anos). E é claro que a operação de resgate está sendo tratada pela mídia com uma aura cinematográfica, já que envolveu agentes infiltrados, um helicóptero camuflado e camisas do Che Guevara. Quer dizer, cacete, essas aí a gente encontra em qualquer camelô.

Mas sabe o que foi realmente extraordinário?

É que, depois de tanto tempo propensa a doenças e tratada como cão, sem acesso a saneamento básico e serviço de saúde decentes, num lugar onde pasta de dente e sabão são objetos de luxo, Ingrid mostrou uma sensatez inexistente até em quem acompanhou tudo de fora. No resgate, ela, surpresa, sem saber direito o que estava acontecendo e sem se dar conta de que naquele momento estava sendo levada de volta à liberdade, viu o carcereiro Cesar, “que durante tantos anos nos tratou com tanta crueldade”, deitado no chão, vendado e pelado. E eu imagino que a maioria esmagadora das pessoas se delicia imaginando a cena: eis a vingança finalmente concretizada, abruptamente merecida. Ingrid, não. Ela preservou a maturidade de alguém que, mesmo tendo passado por tudo aquilo, ainda consegue analisar os fatos sob um ponto de vista humanamente sensato. “Não creiam que senti felicidade”, disse. “Senti lástima”.

Bom, a Ingrid que me perdoe, mas eu senti felicidade por ele ter sido capturado. Vingança merecida.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Livre, solta e sensata

  1. Flor de Liz

    eu não sei pq causou tanta comoção
    acontece que eu tb me comovi e chorei “que nem neném”
    depois de ver as declarações dela
    achei sensata, lúcida e como mãe me imaginei longe das pqnas por 6 anos e sim eu teria levantado e chutado o guerrilheiro
    talvez me falte sensatez

  2. Alvin Almeida

    Eu qeu naum sei pq tanta rasgação de seda sua. Pq esse dramalhão???
    Vc pensa q os caras tão na selva se divertindo de bandido e mocinho e traficando drogas como diz a imprensa internacional é?
    Eles tao lá vivendo mesmo como ela falou que viveu, em condicoes mínimas, sem infra-estrutura e utensílios corriqueiros básicos. Ou vc acredita que so os prisioneiros não tem essas coisas???
    Fiquei contente com o fato dela ter se reencontrado com a familia, afinal foram anos de dor e esperança. Porém, o fato maior é a causa da existência das Farcs e seus objetivos, ou vc ta satisfeito com esse modelo que vive? A Ingrid poderia ter sido qualquer mulher, qualquer mãe, qualquer filha que represente o q ela é.

    Vida longa à Ingrir, que ela tenha se sensibilizado com a realidade. E vida eterna aos ideais de munças.

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