Piscadelas

Postado por Fabiano Ristow

Sempre que houver a oportunidade, os responsáveis pela promoção de um filme irão estampar em seus pôsteres e trailers a expressão “baseado em uma história real” (de preferência, qualificarão a palavra “história” com adjetivos que variam entre “emocionante” e “comovente”, se é que dá para enveredar muito nesse espaço). Como o Rodrigo disse, as pessoas costumam sentir uma atração irresistível por filmes que têm o respaldo da realidade sustentado a conexão emocional com os personagens. Bom para os bolsos das produtoras, ruim para o cinema: mesmo que a produção não seja lá grande coisa, o que se vê na tela funciona aos olhos do cinéfilo casual porque faz a intermediação com o que aconteceu na vida real; o espectador consegue então estabelecer uma ligação com a história “verídica” (ainda que idealizada), e por tabela ganha a falsa sensação de que o filme de fato presta.

Esse efeito corre o risco de ser amplificado pela condição a que o protagonista de O Escafandro e a Borboleta está submetido: após um AVC, Jean-Do (interpretado por Mathieu Amalric [1]), ex-editor da revista Elle, fica paralisado dos pés à cabeça; ele só consegue mexer a pálpebra esquerda, sob a qual o olho se vê como o único órgão útil e em funcionamento. Em outras palavras, é uma condição estonteantemente ferrada que, somada à personalidade sarcástica e irreverente de Jean-Do, campeia um terreno fértil para que tenhamos por ele uma compaixão gratuita quase instantânea. Não foi o meu caso.

Isso porque eu assumo uma postura inevitável de aversão a personagens doentes, como o de Javier Bardem em Mar Adentro. Pelo menos nesse caso a tetraplegia é um ponto de partida para discutir um assunto mais amplo como a eutanásia, ou o direito de interromper a própria vida. O problema é quando o sofrimento tem a finalidade de se reduzir a si mesmo, e o drama é extraído a partir de sua mera observação catatônica. O que aprendemos com o sofrimento de Jean-Do ao longo de 122 minutos?

“O rosto de Mathieu Amalric é um mapa tão confortante quanto dilacerante da frágil condição humana”, diz Carlos Alberto Mattos, no Rio Show, aplaudindo de pé. Roger Ebert é mais meditativo: “No final, ficamos com a reflexão de que a consciência humana é o maior milagre da evolução”. “Diving Bell é, de várias formas, um filme de prisão sobre transcender o confinamento”, escreve Wesley Morris.

Verdade seja dita, não acho que Jean-Do transcende coisa alguma; ao contrário, ele se vê cada vez mais prostrado na angústia de não poder tocar seus filhos, beijar uma mulher e se reparar das merdas feitas na vida pré-derrame (ele se pergunta inquieto por que não tinha ligado para um amigo após este ter sido seqüestrado e preso em Beirute por quatro anos). No máximo, ele aprende a ser mais contemplativo e a extrair o máximo possível de sua situação limitada, como usar a imaginação para sair de seu escafandro – a metáfora mais dispensável, provavelmente, explicitada em planos insistentes que o mostram dentro de uma roupa de mergulho, no fundo do mar. É somente em seus pensamentos que ele tem a liberdade de fazer o que quiser (e nós de fato vemos seus delírios, o que rende momentos deliciosamente surreais, como o banquete lascivo e o balé no hospital); é onde ele é livre como uma borboleta. Borboleta = liberdade. Sacou?

No mais, não duvido que o filme acene tematicamente para a fragilidade e a consciência humana. Mas como a mensagem pode ser eficiente se você não se identifica (no sentido de compartilhar sentimentos) com os personagens? A inclusão de background envolvendo a infância, a relação com o pai e a vida amorosa do protagonista soa burocrática e rasa demais para que seu conteúdo seja mais relevante que a estética – a fotografia de Janusz Kaminsk (responsável pela do último Indiana Jones, Munique, A Lista de Schindler e uma porrada de outros filmes do Spielberg) é o ponto alto do filme a quilômetros de distância. No fim, a aflição pungente do homem imobilizado não desemboca num propósito tangível.

Pelo menos O Escafandro e a Borboleta funciona como experiência visual, o que fica claro desde a primeira cena até uns 40 minutos depois, quando vemos o mundo do ponto de vista de Jean-Do. Kaminsk recorre a filtros, variações esquizofrênicas de foco, de profundidade de campo e de luz/sombra; satura as cores, granula a imagem e treme a câmera; tudo para simular a claustrofobia de se enxergar através de um único olho, dentro de um corpo vegetativo.

O diretor Julian Schnabel (do também fraco Antes do Anoitecer) também teve uma excelente sacada ao transformar a estratégia adotada pelo protagonista para se comunicar numa ferramenta para criar tensão. (Uma pessoa diz o alfabeto de modo que ele possa escolher uma letra piscando o olho; e, assim, através de letra por letra e muita paciência, ele escreve um livro. Serious business.) Em várias cenas, numa espécie de jogo de forca mórbido, acompanhamos as piscadas formando, lentamente, frases cujo peso captamos somente no fim ou no momento em que as deduzimos – a terapeuta que cuida de Jean-Do não precisa chegar à metade da frase para entender o que “Q-U-E-R-O-M-O-R-“ significa.

Mas, em geral, Escafandro é um filme que se esgota em pouco tempo e degenera no sentimentalismo e em truques fáceis para chocar o público – há vários flashbacks que mostram o nosso herói tendo a vida absolutamente normal, rija e próspera de um bom vivant, acompanhados por um piano virtuoso, até serem abruptamente interrompidos pela imagem dos lábios repuxados e do olho esbugalhado de sua condição atual. Talvez Jean-Do tivesse sido mais concreto para mim se eu soubesse, antes de entrar no cinema, que ele realmente existiu. Eu não sabia. Mas, se eu soubesse, eu não estaria caindo naquela velha armadilha do “baseado em fatos reais”? Eu precisava saber?

[1] Se Amalric evocar em você uma familiaridade peculiar, lembre-se de que é ele o primeiro contato de Eric Bana em Munique)

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2 Comentários

Arquivado em Cinema

2 Respostas para “Piscadelas

  1. janaína

    como cineasta o schnabel é um ótimo pintor.
    mas eu gosto do filme sobre o basquiat…
    (e gosto das pinturas dele, de verdade.)

  2. Daniel

    Schnabel é um grande diretor que foge do padrão de narrativa moral, portanto, não pergunte o que “aprendemos com o sofrimento de Jean-Do”, porque não é esse o objetivo da obra. Como é possível vislumbrar na obra, não apenas em Le Scapandre et le Papillon”, do cineasta é a imposição do espectador no ponto de vista do protagonista, para que este experimente o que é capaz de sentir ao passar por determinadas situações-limite. O que seria se fosse um homossexual em Cuba impedido de sê-lo, o que seria de si na situação de um portador de uma sidrome locked-in. Neste ponto Schnabel é genial. Em qualquer obra a busca narcisista do homem em se transferir ao que vê na tela, que é a causa-mor para existência das artes, é justificada por diversas formas; Schnabel desmascara a função da arte tratando-a com o seu propósito maior. E se a moral ocidental, a moral cristã vê o narcisismo como algo negativo, é preciso refletir o assunto sob a perspectiva filosófica transcendental e enxergar a possibilidade desta transposição como qualidade, ao transformar o espectador num cidadão afetivo, por sua capacidade de vislumbrar as emoções alheias e, assim, capaz de tratar todos com dignidade. Em o escafandro torna-mos por 122 minutos um prisioneiro de nossos corpos para poder enter a realidade daqueles que passam por isto 60 segundos por minutos, 60 minutos por hora, 24 por dia, todos os dias até o última de sua existência, em menor ou maior grau.

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