A Face Não-Tão Oculta De William Peter Blatty

Postado por Rodrigo Pinder

O Discreto Blog da Burguesia pede paciência a seus passageiros enquanto enveredamos por caminhos insólitos. Em breve voltaremos à nossa programação normal, mas, por hora, acompanhem-nos em uma incursão ao passado-não-tão-distante:

À sua direita vocês podem observar a prole dos baby boomers espatifando o Muro de Berlim, abrindo caminho para a hegemonia do capitalismo. À sua esquerda, yuppies regozijam-se no materialismo enquanto uma pletora de artistas americanos levanta fundos para ajudar a Etiópia; Nós Somos O Mundo, aparentemente. Um pouco à frente da parábola descrita pela ascensão e queda da música Disco, hippies hedonistas profetizam a Era de Aquário. Mais adiante, pegadas humanas são impressas no solo arenoso do satélite solitário de nosso planeta. Peças de roupa íntima feminina são incineradas.

Deixemos tudo isso para trás, no entanto. Avançando além dos destroços da Guerra do Vietnã, encontramos um romancista que teve a chance de apostar em uma carreira literária graças aos $10.000 ganhos em um game show, iniciou sua participação no cinema escrevendo roteiros para comédias de Blake Edwards e se consagrou com um dos filmes de terror mais famosos de todos os tempos.

William Peter Blatty é o dono da mente doentia por trás de “O Exorcista”, sendo responsável tanto pelo livro quanto pelo roteiro oscarizado do filme de William Friedkin. A história da menina possuída pelo demônio Pazuzu, já há muito tempo incrustada no cânone da ficção religiosa, obviamente dispensa apresentações. O pecado que muitos cinéfilos cometem, todavia, é ignorar o talento singular de Blatty como diretor – o que é compreensível: ele só dirigiu dois filmes, um bastante obscuro e outro infelizmente enfastiado pelo estigma de seqüência-inferior-ao-original.

Aqui talvez seja necessário um pouco de contexto para aqueles que acabaram de chegar de um exílio em Marte. Meados dos anos 70 foi a época em que uma das regras mais fatídicas de Hollywood se concretizou: seqüências podem ser lucrativas. Assim sendo, quando uma continuação de O Exorcista se mostrou viável, era inevitável que as engrenagens responsáveis pelo seguinte raciocínio começassem a girar: “Ei, por que não? James Bond e Dirty Harry estão fazendo, e nós temos os direitos aos personagens do filme mais aterrorizante de todos os tempos aqui. Isso é ouro, cara.”

“Por que não?”, deveras. Cinco anos depois de seu lançamento, O Exorcista ainda dava o que falar. Uma seqüência seria, teoricamente, sucesso garantido. E quem melhor para comandar essa Caçada ao Níquel Perdido do que John Boorman, o aclamado diretor de Amargo Pesadelo e do cult hit Zardoz? Cordinhas foram gentilmente puxadas, as marionetes fizeram sua dança e logo a produção estava encaminhada. Blatty não teria absolutamente nada a ver com ela.

Como não havia sentido em tentar recriar a atmosfera do filme original mantendo a mesma qualidade, alguém teve a brilhante idéia de tomar o caminho mais discrepante possível: o mise en scène cru e naturalista de Friedkin deu lugar a um visual gótico delirantemente estilizado; o icônico tema musical sinistro e discreto abriu caminho para o que é provavelmente a trilha mais bombástica que Enio Morricone já compôs (confiram o trailer); a história simples e mundana foi preterida em favor de uma salada de basicamente-de-tudo-um-pouco, de poderes psíquicos a cultos pagãos.

Grande erro.

Extravagante, ambicioso e extremamente problemático, Exorcista II – O Herege (1978) foi um fracasso espetacular que deixou platéias compreensivelmente perplexas. Gargalhadas e coisas sendo arremessadas na tela eram reações que aconteciam com uma freqüência provavelmente maior do que os executivos da Warner Bros. considerariam aceitável. O filme acabaria relegado ao status familiar das obras que são definidas por alcunhas simplórias, no caso “aquele dos gafanhotos” ou “aquele com James Earl Jones” ou, ainda, “aquele totalmente ridículo e histérico com aquela cena hilária da Linda Blair seduzindo o Richard Burton“.

Boorman saiu relativamente incólume, conseguindo emplacar um filme de grande orçamento alguns anos depois (Excalibur, 1981). O mesmo não se pode dizer da franquia, que permaneceu em banho-maria até 1990, quando o próprio Blatty foi agraciado com a oportunidade de dirigir a versão cinematográfica de sua própria continuação de O Exorcista: o livro “Legion”, de 1983. Assim sendo, The Exorcist III – Legion, ignora completamente a existência de O Herege, mas, talvez pela infâmia deste, é freqüentemente desprezado como “aquele do serial killer”.

Injustamente.

O Exorcista III é um ótimo filme, inclusive considerado por alguns (como, por exemplo, nosso amigo Luis) melhor do que o original. Mais complexo ele definitivamente é, com uma trama mais ativa e um terror gerado de formas regularmente mais criativas do que o velho vamos-esticar-a-bizarrice-até-você-não-agüentar-mais.

Como a fita (ou melhor, o disco) é relativamente fácil de encontrar em locadoras, não me alongarei em sinopses e análises. É provável que você já conheça a premissa, de qualquer forma: o Tenente Bill Kinderman (George C. Scott) investiga uma série de assassinatos cujo modus operandi é estranhamente familiar ao de um serial killer morto há anos, incluindo até detalhes não divulgados pela polícia. Logo descobrimos que este assassino, apelidado “The Gemini Killer” (em uma aberta referência ao assassino do Zodíaco) foi executado no mesmo dia da morte de um grande amigo de Kinderman: um certo padre chamado Damien Karras…

A partir daí, espinhas são geladas e unhas são roídas como resultado de momentos genuinamente arrepiantes, adornados por excelentes atuações, especialmente de George C. Scott no papel principal e de um maníaco Brad Dourif. Alguns podem considerar essas atuações um tanto exageradas, mas esse excesso trabalha em favor do filme, contribuindo para a atmosfera geral de estranheza.

Em uma cena em particular, Blatty demonstra um controle de duração que muitos diretores consagrados nunca vão conseguir dominar – esse é geralmente o momento que fica gravado com mais intensidade na memória dos incautos: um plano-seqüência com câmera estática no corredor de um hospital, onde vemos, de longe, uma enfermeira solitária ocupada com seus afazeres. Você sabe que alguma coisa terrível está em vias de acontecer, e a tensão é esticada até o limiar do desespero. Quando algo de fato acontece, é tão repentino e efêmero que o efeito resultante é menos um susto do que o avassalador frio na barriga geralmente associado a eventos como a descoberta de uma gravidez não-planejada, ou chegar na vaga e não encontrar seu carro estacionado lá.

O único problema grave é a seqüência final, exigência de executivos que decidiram que um filme com “O Exorcista” no nome deveria conter pelo menos um (1) exorcismo. (O plano original de Blatty era chamar o filme simplesmente de “Legion”, como o livro.) Seja como for, apesar da mancha no currículo, o nome da franquia ainda foi o suficiente para garantir uma ampla distribuição a O Exorcista III. O filme anterior de Blatty, apesar de premiado com um Globo de Ouro de melhor roteiro, não havia tido tanta sorte.

Enquanto Boorman e Cia. desfiguravam sua criação, Blatty estava armando suas próprias peripécias: em 1978, ele expandiria seu livro de 1966, “Twinkle, Twinkle, ‘Killer’ Kane” em um novo romance, batizado “The Ninth Configuration”. Em 1980 ele dirigiria a versão cinematográfica, um dos filmes mais idiossincráticos e interessantes que eu já vi: parte drama, parte comédia pastelão, parte tese teológica, é quase impossível entender como Blatty foi capaz de equilibrar elementos tão díspares, fazendo de The Ninth Configuration (utilizo o nome original porque ele nunca foi oficialmente lançado no Brasil) um longa com um tom suficientemente coerente, mas de alguma forma ele conseguiu.

A sensibilidade peculiar se faz presente logo no preâmbulo, um dos únicos casos onde uma piada é criada puramente através de formalismo cinematográfico de que consigo me lembrar: uma balada sentimental acompanha um homem que contempla, com uma expressão triste, a paisagem de um dia chuvoso através de uma janela. Esse momento, que parece um exemplo do que há de mais brega nos clipes de música country, transcorre até o ponto em que as suas perspectivas para a qualidade do que você está começando a assistir sejam quase completamente destruídas.

Subitamente, entretanto, o homem desliga seu rádio. A música sentimental cessa, e uma nota sinistra pontua um corte brusco para uma seqüência extraordinariamente surreal. As reações conflitantes trazidas por essa transição funcionam como um belo presságio do espetáculo excêntrico que está por vir.

O homem acima é um dos personagens centrais do filme, o Capitão Billy Cutshaw (Scott Wilson, indicado ao Globo de Ouro por esse papel), um astronauta internado em um manicômio para veteranos do Vietnã depois de um colapso nervoso cujo estopim foi uma missão que o levaria à Lua. A trama é acesa pela chegada de um novo pisiquiatra ao asilo, o Coronel Vincent Kane (Stacey Keach, no papel de sua vida). Logo se percebe que há algo de errado com ele: apático e passivo, Kane permite que os internos dêem vazão aos seus aluamentos livremente, processo de produtividade no mínimo duvidosa.

É da interação entre Kane e Cutshaw que é gerada a maior parte dos debates filosóficos do filme, e também boa parte do humor. Em um dos momentos mais cômicos, o Capitão, vestindo uma indumentária completa para um dia na praia, entra no escritório do Coronel marchando decidido, pés-de-pato estalando espalhafatosamente, e exige: “Me leve à praia.” O Coronel, em sua passividade habitual, argumenta: “É noite e está chovendo.” Cutshaw não se dá por vencido, no entanto: “Vejo que você está determinado a iniciar uma discussão.”

Claro que Cutshaw é apenas o maluco principal ali. O manicômio conta com internos de psicoses tão exóticas que a dúvida é criada sobre esses veteranos serem realmente insanos ou estarem simplesmente fingindo. Um deles, por exemplo, pretende montar uma versão de “Hamlet” estrelando apenas cachorros (sim), situação que gera, na minha opinião, uma das cenas mais hilárias da História do Cinema, um plano-seqüência de câmera estática sensacional, que faz pela comédia o que a cena da enfermeira em O Exorcista III fez pelo terror.

Blatty é aparentemente mestre nesses, mas a maior prova de sua habilidade na direção é que o drama funciona tão bem quanto o humor e, como se não bastasse, depois de flashbacks e revelações, o filme dá uma guinada em um clímax virtuoso, que inclui um gênero inesperado na mistura com total desenvoltura.

Não se trata de uma obra-prima; pode-se dizer inclusive que The Ninth Configuration sofre de muitos dos problemas de O Exorcista II: ambicioso demais, bizarro demais, estilizado demais. Definitivamente não é para qualquer um, mas para aqueles que entrarem em sintonia com a sensibilidade de Blatty, o único problema realmente aparente será talvez o desfecho, embora de forma menos grave do que em O Exorcista III. Para alguns talvez nem seja um problema. A questão é que, católico devoto, Blatty simplesmente não consegue deixar ambíguo o que para ele é obviamente fato.

Ateus, considerem-se avisados.

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4 Comentários

Arquivado em Cinema, Literatura

4 Respostas para “A Face Não-Tão Oculta De William Peter Blatty

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  4. roberta

    Muito bem escrito seu texto. Uma boa demonstração de crítica de cinema proveitosa.

    Sou fã e do filme “O Exorcista” e foi de fato uma grata surpresa descobrir que Bambém com o Blatty pode ser apreciado também como diretor.

    Roberta

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