O Melhor Filme de Cada Ano Em Que Estive Vivo – Part Une

Postado por Luis Calil e Rodrigo Pinder

Recentemente, um dos escritores do A.V. Club, Steven Hyden, publicou uma lista com o seu álbum favorito de cada ano em que ele esteve vivo. Como os participantes do Discreto Blog não têm vergonha na cara, nem a paciência de produzir material original consistentemente, decidimos entrar na onda e criar nossa própria lista.

A diferença vai ser a mudança de álbuns para filmes, pois – como ficou óbvio nesta última semana – somos mais cinéfilos do que audiófilos (o que não quer dizer que uma versão musical não possa aparecer mais cedo ou mais tarde). Também vamos incluir alguns comentários, pois se aprendemos alguma coisa recentemente, é que o brasileiro adora ler.

Duas regras: (1) Vamos começar a partir do ano em que eu nasci, pois o Ristow não vai participar dessa primeira parte, e não queremos botar o Rodrigo pra escolher e escrever sobre 27 filmes. (2) Nada de repetecos; se dois de nós escolherem o mesmo filme, um deles muda pro segundo melhor. Ah, e utilizamos as datas do IMDB.

1986

Luis: A Costa do Mosquito (Peter Weir)
Peter Weir fazendo Werner Herzog, com o Han Solo incorporando o arquétipo do lunático ambicioso que o Klaus Kinski consagrou. A atmosfera da floresta não chega à intensidade embasbacante de Aguirre: A Cólera dos Deuses, mas também não é muito longe disso.

Rodrigo: A Mosca (David Cronenberg)
A fusão entre terror e romance nunca vai ser perfeita, assim como a fusão entre homem e mosca, mas Cronenberg consegue fazer dela um espetáculo asquerosamente fascinante. Em outras notícias, qual é exatamente a conexão entre o ano de 1986 e insetos (ver acima)? Discutam.

1987

Luis: O Jogo de Emoções (David Mamet)
Já tendo visto uns cinco filmes do Mamet antes de chegar nessa louvada estréia dele, as artimanhas e reviravoltas de costume não me surpreenderam, mas ainda foi excitante ver as engrenagens mexendo com incrível precisão. Mamet faz narrativas de relógio suíço.

Rodrigo: Nascido Para Matar (Stanley Kubrick)
“Are you quitting on me? Well, are you? Then quit, you slimy fucking walrus-looking piece of shit! Get the fuck off of my obstacle! Get the fuck down off of my obstacle! NOW! MOVE IT! I’m going to rip your balls off, so you cannot contaminate the rest of the world! I will motivate you, Private Pyle, IF IT SHORT-DICKS EVERY CANNIBAL ON THE CONGO!”

1988

Luis: Ligações Perigosas (Stephen Frears)
Ignorei esse por um bom tempo achando que era “um drama de época chato”. Como fui retardado… Cada fala é um dardo venenoso soprado no pescoço do ouvinte, e a manipulação fria e sádica dos personagens é mais eletrizante do que qualquer cena na carreira do Indiana Jones.

Rodrigo: A Tênue Linha da Morte (Errol Morris)
Errol Morris prova que documentários podem ser artísticos e poéticos (com uma bela ajuda de Philip Glass) enquanto desconstrói o processo da justiça. Um homem condenado à prisão perpétua foi libertado graças a esse filme. Depois ele processou o Morris.

“Que palhaçada auto-indulgente é essa que os meninos estão aprontando?”

1989

Luis: Sexo, Mentiras e Videotape (Steven Soderbergh)
David Spader interpreta um rapaz com sérios problemas psicossexuais (não é geralmente o que ele interpreta? Veja: Crash, Secretária, etc) que lentamente desabrocha a puritana Andie McDowell, durante conversas hipnoticamente francas sobre sexo.

Rodrigo: Faça a Coisa Certa (Spike Lee)
Eu preciso (a) rever esse e (b) ver mais filmes de 1989.

1990

Luis: O Exorcista III (William Peter Blatty)
O Friedkin assustou criando a impressão de realismo no primeiro Exorcista; já o Blatty arranca arrepios através de artifício, da sensação de que estamos vivendo na cabeça dele, e que lá dentro qualquer coisa (macabra e doentia) pode acontecer.

Rodrigo: Ajuste Final (Joel Coen)
Neo-noir elegante e labiríntico que me faz aspirar um improvável retorno à moda dos chapéus. Os irmãos Coen tiveram um bloqueio tão violento enquanto escreviam esse filme que acabaram escrevendo outro filme enquanto a inspiração não vinha.

1991

Luis: JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar (Oliver Stone)
Stone cria um argumento fantástico – não pra convencer a platéia sobre a “verdade” por trás do assassinato de JFK, mas pra explicar qual é o tesão de acreditar em teorias de conspiração. A intensidade formal – montagem frenética, variações da película, cor, etc – é uma delícia.

Rodrigo: Barton Fink (Joen Coen)
Esse foi o filme que os irmãos Coen escreveram durante o bloqueio mencionado acima, um pesadelo retro-hollywoodiano progressivamente surreal. O Inferno São Os Outros, e escritores infelizmente devem conhece-los.

1992

Luis: Crack Glass Eulogy (Stan Brakhage)
Um curta avant-garde de 6 minutos do maior maestro do experimental. Começa na escuridão, e logo você começa a ver fomatos e texturas. Não dá pra ter certeza se é um chão cheio de cacos de vidro, ou uma cidade vista de cima de um avião, ou os dois ao mesmo tempo. De repente, aparecem nuvens, e você percebe o nó na sua garganta. Trilha sonora sobrenatural de Rick Corrigan.

Rodrigo: Os Imperdoáveis (Clint Eastwood)
Anti-western placidamente selvagem. Até o Oscar acerta ocasionalmente.

1993

Luis: Sem Medo de Viver (Peter Weir)
Eu me lembro de algumas coisas incríveis – como a abertura em que Jeff Bridges corre por uma plantação de milho em câmera lenta (um avião acabou de cair, e ele estava dentro) – mas eu também me lembro que o Weir usa uma música do U2 num momento catártico. Então, escolha não super-confiável.

Rodrigo: Naked (Mike Leigh)
Um vagabundo extremamente inteligente, culto e canalha sofre de um caso agudo de Noite Escura Da Alma, durante o qual tem vários encontros bizarros. Eu me identifico com esse filme.

1994

Luis: Exotica (Atom Egoyan)
Como Soderbergh em SM&V (acima, 1989), Egoyan cria um ritmo deliberado e hipnótico, que encontra mistério e tensão mesmo nas interações sociais mais inocentes (que são poucas), como se todos os personagens estivessem guardando segredos (e eles estão). Qualquer erro e a coisa toda poderia ter desabado em pretensão. Não aconteceu.

Rodrigo: Pulp Fiction (Quentin Tarantino)
“ENGLISH, MOTHERFUCKER, DO. YOU. SPEAK. IT?”

1995

Luis: Safe (Todd Haynes)
Há algo de errado com Julianne Moore – numa das melhores atuações da história do cinema – e não é a droga do meio ambiente. Mas então o que é? Tão infinitamente ambíguo que a sua incompreensão é mais aterrorizante do que os sintomas da doença de Moore. Uma pena que o Haynes nunca mais quis imitar Antonioni.

Rodrigo: Safe (Todd Haynes)
Aqui nós temos que abrir uma exceção à regra de não repetir filmes, porque este está no meu Top 10 de todos os tempos e o segundo lugar da minha lista de 1995 não chega nem perto.

1996

Luis: Paradise Lost (Joe Berlinger & Bruce Sinofsky)
Se me apresentassem esse documentário como um roteiro de ficção, eu teria o chamado de “ridiculamente implausível” e jogado no lixo. Você vai querer parar a fita em vários momentos e gritar, esmurrar a parede, e arrancar os cabelos. Sim, isso é um elogio.

Rodrigo: Irma Vep (Olivier Assayas)
Todo mundo que ama Irma Vep tem uma certa dificuldade em articular porque exatamente ele é fantástico. Pena que eu não estou escrevendo isso para a tabelinha da Folha, onde eu poderia simplesmente dizer algo como “esse obscuro objeto do desejo”. P.S.: Não confundir com Irma Vap – O Retorno (2006), filme de Carla Camurati estrelando Marco Nanini e Ney Latorraca.

***

Amanhã, postaremos a Part Deux, de 97 a 07. Com participação do Ristow, eu espero.

E que tal outros blogs entrarem na brincadeira? Hellfire Club, Vida Ordinária, etc, nós estamos olhando para vocês.

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26 Comentários

Arquivado em Cinema

26 Respostas para “O Melhor Filme de Cada Ano Em Que Estive Vivo – Part Une

  1. Duas coisas:

    *Irma Vep é excelente, mas teria melhorado se o Neyla Torraca tivesse no elenco.

    *Por algum motivo obscuro, eu esqueci de A Fraternidade é Vermelha em 94, que é tão bom quanto Exótica, talvez melhor.

  2. Só por farra, aqui vão os melhores filmes dos anos em que vivi anteriores a 1986:

    1979. Manhattan (Woody Allen)
    1980. Meu Tio da América (Alain Resnais)
    1981. Cutter’s Way (Ivan Passer)
    1982. O Rei da Comédia (Martin Scorsese)
    1983. Sans Soleil (Chris Marker)
    1984. Gosto de Sangue (Joel Coen)
    1985. Depois de Horas (Martin Scorsese)

    Dobradinha scorseseana e MAIS UM dos Coen. Eu estou precisando variar os diretores.

  3. Eu discordo de alguns anos, mas obviamente o seu erro mais grotesco é achar que O Rei da Comédia (que é muito bom) é superior a Fitzcarraldo e E.T..

    Um navio. Atravessa. Uma montanha. Sem CGI. +Klaus Kinski fazendo um lunático ambicioso.

  4. Fausto

    Full Metal Jacket é meio idiota e imprestável. Vcs disseram que não iam repetir e repetiram Safe, que é inferior a Toy Story, Os 12 Macacos, talvez Se7en. Ristow participou sim, ele é o Barton Fink. Oi Ristow.

  5. For the lulz:

    1990: Trust (Hal Hartley)
    1991: Jungle Fever (Spike Lee) PS: eu não vi quase nada desse ano. Homicide, Les Amants du Pont Neuff, Ambition, Once Upon a Time in China, Side/Walk/Shuttle são filmes que eu deveria ver.
    1992: Os Imperdoáveis (Clint Eastwood) PS: quase Cães de Aluguel, mas não deu.
    1993: Naked (Mike Leigh)
    1994: Amores Expressos (Wong-Kar Wai)
    1995: Dead Man (Jim Jarmusch)
    1996: Irma Vep (Olivier Assayas)
    1997: Fast, Cheap & Out of Control (Errol Morris)
    1998: The Big Lebowski (sub: Além da Linha Vermelha, Henry Fool, Gosto de Cereja) (Coens) PS: ainda não vi Histoire(s) du Cinema.
    1999: Eyes Wide Shut (Stanley Kubrick)
    2000: The Heart of the World (Guy Maddin) (sub: E Aí, Meu Irmão, Cadê Você; Código Desconhecido; YI YI; Canções do Segundo Andar
    2001: Waking Life/Ghost World (Linklater/Zwigoff) (ps: impossível escolher)
    2002: Irreversible/Punch-Drunk Love (Noé/Anderson) (ps: impossível escolher de novo)
    2003: Dogville (Lars Von Trier) (brown bunny, na captura dos friedmans e kill bill são opções)
    2004: Eternal Sunshine of the Spotless Mind (Michel Gondry) (com apologias à Maladia Tropical e ao Primèr)
    2005: Amantes Constantes (Philippe Garrel) (last days, lula e a baleia, a criança)
    2006: INLAND EMPIRE (David Lynch)
    2007: I’m not there/Na Cidade de Sylvia (impossível escolher mais uma vez)
    2008: não faço a menor idéia.

  6. @Luis:

    Que bom que nós discordamos, concordar é chato. Incidentalmente, outra coisa em que nós discordamos é a existência de um filme “certo” ou “errado” para se preferir.

    P.S.: Fitzcarraldo e ET são ótimos, ambos estão no meu Top 10 de 82.

    @Fausto Potter:

    Boa, agora conta aquela do português que estava num avião com o Papa e um cachorro chamado Nabunda.

  7. Khansc

    E adicionando em 95 tem Dead Man e Terra e Liberdade que são, juntos com os já citados pelo Fausto, melhores que Safe (que não deixa de ser muito foda).

    85 é complicado mas deixar isso de fora é negligência: http://www.imdb.com/title/tt0091251/

  8. @Khansc:

    Eu adoro Land and Freedom, Dead Man, Toy Story, Se7en, Os 12 Macacos, Antes do Amanhecer, Sissy Boy Slap Party, etc.

    Mas nenhum desses é 90+. Sorry.

    Em outras notícias, eu ainda não vi Idi i smotri, talvez seja essa a razão da negligência.

  9. Minha segunda opção pra 95 seria As Pontes de Madison, que é ridiculamente subestimado.

  10. Adorei a proposta e já tava pensando em “imitar” enquanto lia o post. A convocação no fim dele só me fez ter mais tranquilidade de fazer isso sem parecer “copião”. rs

  11. Gostei mais da lista do Rodrigo, mas isso deve ser simplesmente porque eu não conheço 2/3 da lista do Luís. O que significa que talvez seja uma boa hora pra começar a alugar/baixar esses filmes. De qualquer forma, a lista do Rodrigo contém boa parte dos meus filmes preferidos, como Nascido pra Matar e os dois Coen em 90 e 91.

    Mas eu só faria uma lista dessas depois de pensar um bocado. Até porque tem algumas coisas-que-todo-mundo-fala-bem que eu ainda não vi e tal. Sim, ando em relapso com relação ao assunto “filmes”.

    Ah, eu imaginava que o Sr. Pinder ia colocar “Depois de Horas” como o preferido dele pra 85….foi depois de ler um post dele falando sobre o filme na Valinor que eu resolvi assistí-lo, e ele se tornou um dos meus preferidos do Scorsese.

    O que me lembra: esqueci de elogiar a imagem do header do blog de vocês. É foda e tal.

  12. @Rafa:

    O Luis ainda veio me perguntar se eu achava que a lista dele tinha ficado mais idiossincrática que a minha. Ele coloca um curta avant-garde enquanto eu coloco PULP FICTION, e ele ainda tem dúvidas.

    Btw, o filme do Brakhage você provavelmente acha no próprio Youtube. Já vai ser um a menos.

    E sim, aquela imagem de After Hours vai ficar ali por um bom tempo. Eu não consigo olhar pra ela sem começar a dar risinhos que nem um adolescente idiota. Hehehe, um pênis.

  13. Eu perguntei inocentemente. Tirando o curta do Brakhage (que infelizmente não está no YouTube, mas eu tenho ele aqui e posso mudar isso) e o documentário de 96, eu considero a maioria dos filmes na minha lista relativamente famosos. Vai saber.

  14. Luis, você é a primeira pessoa que eu sei que viu “A costa do mosquito”. Adoro o filme, idem o livro. Talvez fosse a minha escolha para esse ano, também.

  15. Pingback: O Melhor Filme de Cada Ano Em Que Estive Vivo - Part Deux « O Discreto Blog da Burguesia

  16. Ah, não que a “culpa” de eu não conhecer os filmes seja do Luís, é mais minha mesmo. Tirando o exemplo supracitado, são em maior parte filmes não tão obscuros assim. Alguns nada obscuros, como Ligações Perigosas (mas esse está nos “1/3” que eu conheço).

    Eu que ando precisando voltar a assistir filmes como fazia tempos atrás mesmo.

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  22. olá

    Participando dessa brincadeira, faço , fresquinho

    Os melhores filmes de cada ano que vivi, parte 1

    http://dancafragmentada.blogspot.com/2008/08/os-melhores-filmes-de-cada-ano-que-vivi.html

  23. Pingback: » Confronto Ordinário: Watchmen x Outros Super-Heróis (e mais) Vida Ordinária

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