O Melhor Filme de Cada Ano Em Que Estive Vivo – Part Deux

Postado por Luis Calil e Rodrigo Pinder

Curtindo o Falcão Maltês Adoidado

Continuando o post de ontem:

1997

Luis: Fast, Cheap & Out of Control (Errol Morris)
Ano espetacular. Tsai Ming-Liang, Michael Haneke, David Fincher, Atom Egoyan, todos trabalhando num nível extremamente alto de qualidade, e um pouco mais abaixo, Mamet, Duvall, Armitage, Brakhage, etc. Eu escolhi este documentário do Morris porque foi o que deixou o lencinho mais úmido. Difícil de achar no Brasil… Usem as internets.

Rodrigo: Los Angeles – Cidade Proibida (Curtis Hanson)
Quem leu o livro vai te garantir que o filme nem esbarra em sua profundidade, mas isso aqui é um noir vigoroso e intrincado que não deve nada aos clássicos. O Hanson devia se aposentar ASAP, porque ele nunca vai chegar nesse nível de novo.

1998

Luis: Três é Demais (Wes Anderson)
Essa obra-prima sobre adolescência funciona como um teste de compatibilidade. Se você não gosta do filme, fique longe de mim. Não vai dar certo. (Na verdade, se você gostar de A Lula e a Baleia, eu te dou outra chance).

Rodrigo: Além da Linha Vermelha (Terrence Malick)
Terrence Malick leva seus voice-overs poéticos à guerra e, como esperado, ela é o Inferno. O corte original do filme tinha um pouco mais de 6 horas; Malick conseguiu reduzir para 170 minutos, duração que ainda ultrapassa o insuportável pra muita gente que eu conheço.

1999

Luis: Topsy-Turvy (Mike Leigh)
O melhor trabalho da carreira de Mike Leigh é esta história de época de 2 horas e 40 minutos sobre o processo de criação de um musical do Gilbert & Sullivan. Ei, aonde você vai? Volta aqui! (Tagline: Os egos. As batalhas. As palavras. A música. As mulheres. Os escândalos.)

Rodrigo: O Teste Decisivo (Takashi Miike)
Lá pela metade deste, nós somos presenteados com um susto que me fez literalmente pular da cadeira; o mais interessante é que até então o filme era um romance. Isso é meio que um spoiler pra quem não viu, mas pelo menos os portugueses não vão reclamar: lá o filme se chama “Anjo ou Demónio” (wink, wink).

2000

Luis: Dançando no Escuro (Lars von Trier)
Um filme sobre uma mulher que está ficando cega. Interpretada pela Bjork. Que se envolve num crime maluco. Filmado no estilo Dogma 95. E tem interlúdios musicais. De músicas da Bjork. Filmados com 100 câmeras ao mesmo tempo. Como funcionou? Não faço idéia. Mas funcionou, e é maravilhoso.

Rodrigo: Canções do Segundo Andar (Roy Andersson)
Andersson levou 4 anos para completar este filme melancólico, surreal e ocasionalmente hilário, que cria um cenário apocalíptico através de longas vinhetas sem cortes que se relacionam basicamente só no aspecto temático. A seqüência final é uma das melhores cenas da História do Cinema.

2001

Luis: Donnie Darko (Richard Kelly)
Considerando o que virou a carreira de Kelly – Southland Tales é supostamente uma catastrofe, e o roteiro do próximo filme dele (The Box) é horrível – o maior mistério por trás de Donnie Darko é: quem diabos é o responsável por Donnie Darko? E por que deixaram Kelly levar o crédito? Revele-se.

Rodrigo: O Homem Que Não Estava Lá (Joel Coen)
Meta-comentário superlativamente fotografado sobre a carreira dos Irmãos Coen. Funciona em tantos níveis que você nem precisa entender a frescura metalingüística para apreciar – a prova disso é que eu emprestei o DVD pra várias pessoas, nenhuma das quais tinha visto qualquer filme dos irmãos, e todas adoraram.

2002

Luis: Embriagado de Amor (P.T. Anderson)
É aquela velha história: garoto (de terno azul) conhece garota (de vestido vermelho), eles se apaixonam, operadora de linha de sexo por telefone tenta atrapalhar tudo, e o amor acaba vencendo no final. Sublime. Faz Sangue Negro parecer uma redação que algum moleque precoce fez na sexta série pra tentar impressionar a professora.

Rodrigo: A Última Noite (Spike Lee)
Nova-iorquino e controverso, não foi uma surpresa quando Spike Lee se tornou o primeiro cineasta com os cojones de mencionar os atentados do 11/9 abertamente – a surpresa foi o quanto ele amadureceu como diretor. A julgar pelas farpas que ele andou trocando com o Clint ultimamente, no entanto, foi só como diretor mesmo.

2003

Luis: Dogville (Lars von Trier)
Robert Bresson disse que quanto maior o sucesso, mais perto ele chega de ser um fracasso. Lars prova essa teoria pela segunda vez, fazendo um filme alegórico – sobre a América, um país que ele nunca visitou – de 3 horas de duração, onde você é o diretor de arte e precisa imaginar os cenários e as paisagens. Ben Gazarra interpreta um tarado.

Rodrigo: O Retorno (Andrei Zvyaginstev)
Não confundir com O Retorno do Rei, do mesmo ano. Esse aqui é russo e, portanto, mais chique.

2004

Luis: Primer (Shane Carruth)
Quais são as chances de que o melhor filme de todos os tempos seja também o mais barato de todos os tempos? Shane Carruth desafia as probabilidades matemáticas. Sua arma secreta? Um diploma de Matemática. Profundamente inteligente e intoxicante, de um jeitinho que só ficção-científica consegue ser.

Rodrigo: Antes do Pôr-do-Sol (Richard Linklater)
Dez anos depois, Linklater, Delpy e Hawke se reúnem para mais um ménage, dessa vez despindo a narrativa de todos os artifícios utilizados em Antes do Amanhecer, como coadjuvantes ocasionais e rodas-gigantes. Uma amiga minha disse que os diálogos foram “previsíveis”. Eu até hoje não sei de que diabos ela estava falando.

2005

Luis: A Ponta de um Crime (Rian Johnson)
Qualquer um que fica sabendo do conceito – elementos de film noir socados num cenário colegial – vai pensar que é um filme “wink wink” autoconsciente tipo Quando as Metralhadoras Cospem (onde os gangsters são crianças). Mas não. É sóbrio e sofisticado e filmado com extrema convicção. E lembra Primer: trama complicada, diálogos com linguagem/gírias semi-compreensíveis, se mantendo sempre uns 8 passos à frente da platéia.

Rodrigo: A Lula e a Baleia (Noah Baumbach)
Baumbach tem uma aptidão ímpar para inserir detalhes nitidamente colhidos da vida real, e o fato do filme ser hilário não atrapalha. Jeff Daniels arrasa.

2006

Luis: Síndromes e um Século (Apichatpong “Joe” Weerasethakul)
Como o paspalho do Ristow não pôde participar, não houve ninguém pra citar uma outra obra-prima de 2004: Mal dos Trópicos, do mesmo diretor desse aqui. Trópicos brinca com dois gêneros – romance gay e terror místico – mas mantém sempre um pé na sensibilidade espiritual/bizarra do Joe. Síndromes – levemente inferior, mas ainda espetacular – inverte a estrutura de Trópicos – a primeira metade é rural, a segunda é urbana – e abandona gênero completamente.

Rodrigo: O Grande Truque (Cristopher Nolan)
Os irmãos Nolan exploram o conflito entre Ciência e Fé no Século XX em um roteiro babilonicamente complexo, onde cada detalhe foi claramente pensado e repensado até a exaustão. Claro que o Oscar ignorou esse trabalho hercúleo completamente, enquanto teve a audácia de indicar um roteiro sci-fi ruim no mesmo ano, o do tapado Filhos da Esperança.

2007

Luis: Medo da Verdade (Ben Affleck)
Quem diria? Ben Affleck finalmente encontra um emprego em que ele é genuinamente competente. Sobre o ano: Uma boa porção de filmes ótimos (como Joshua) – vários deles repletos de fãs apaixonados – mas nenhum que socou minha testa e me fez ver estrelinhas. Talvez porque eu ainda não tenha visto a escolha do Rodrigo…

Rodrigo: En la ciudad de Sylvia (José Luis Guerín)
Ou “Como matar uma platéia brasileira de tédio enquanto eu babo hipnotizado”. Em outras notícias, ninguém viu esse filme. Circulando.

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13 Comentários

Arquivado em Cinema

13 Respostas para “O Melhor Filme de Cada Ano Em Que Estive Vivo – Part Deux

  1. Whoa, muito bom. Uma porrada de filmes que provavelmente estariam na minha lista.

    E dessa vez fiquei mais dividido entre as duas listas. “Dogville”, “Dançando no Escuro”, “Donnie Darko” são sensacionais, filmes que eu adoro e que já vi várias vezes, etc. Por outro lado, “Antes do Pôr do Sol”, “O Homem que não Estava Lá” e “A Lula e a Baleia” são filmes que sempre facilmente entrarão em qualquer lista de “top” que eu faça.

    Nice.

  2. janaína

    o problema é que você não foi na mostra de 2007, luis…

    en la ciudad de sylvia é matador. foda foda foda.

  3. janaína

    e btw;

    2004:
    MAL DOS TRÓPICOS (apichatpong weerasethakul).

  4. Jana, esse aí era do Ristow, mas ele foi abduzido.

  5. Khansc

    Sylvia é foda mas superestimado ao último se você não ver no cinema.

    1999 precisava no mínimo ter um espaço reservado pra uma das maiores obras da humanidade: Eyes Wide Shut. Não citar Kubrick-quando-ele-ainda-vivia é um pecado.

  6. Eu vi Sylvia no cinema. Eu também vi Stellet Licht no cinema. Vai encarar?

    E eu cheguei a considerar EWS, na verdade em 99 eu considerei vários, é que na segunda parte da lista foi a minha vez de ser idiossincrático.

    Na verdade eu preciso rever vários filmes dos anos 90, aliás, eu percebi agora que 99 foi quase 10 anos atrás. Eu estou ficando velho.

  7. Khansc

    Quando esses cinemas que você vai pegarem fogo você não vai encarar mais nada.

  8. janaína

    eu vi sylvia no cinema também. três vezes. <3

  9. Confirmado. En la Ciudad de Sylvia é o melhor filme de 2007 que eu vi até o momento.

  10. Só pra dizer que eu nunca vi uma única linha escrita sobre Primer no bananão. E que, sim, considero-o enormemente genial e acho que o Shane devia estar fazendo mais alguma coisa do mesmo calibre. Ou ao menos anunciar que está fazendo, pra não chegar blowing minds away.

  11. Na página de Wikipedia do Shane Carruth:

    “As of June, 2008, Carruth has been working on his sophomore project for over 2 years and will begin the pre-financing/pre-production phase in the coming months.”

    E sim, a informação é segura, eu já confirmei.

    PS: Não será a última vez que falaremos de Primer por aqui.

  12. Pingback: Recapitulando: 13/07/08 « O Discreto Blog da Burguesia

  13. olá Fiz minha listinha e desejo fazer meu jabazinho aqui.

    Afinal, vocês é que foram os “responsáveis” por essa idéia

    http://dancafragmentada.blogspot.com/2008/08/ndice.html

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