Review: Batman – O Cavaleiro das Trevas

Postado por Rodrigo Pinder

Filmes de super-heróis costumam funcionar em um nível inversamente proporcional ao quanto se levam a sério. Homem-Aranha foi um sucesso de público e crítica principalmente porque manteve o clima juvenil e novelesco das histórias clássicas de Stan Lee, filtro dramático que ajudou as platéias contemporâneas – acostumadas a enxergar as coisas através das lentes do cinismo – a abstrair a absurdez do conceito e realmente se importar com os problemas românticos e familiares de Peter Parker.

No outro extremo mora o Hulk de Ang Lee, über-sisudo e consensualmente avaliado como uma obra artisticamente ambiciosa e irremediavelmente falha (apesar de ter seus defensores). O público teve dificuldade em levar o drama a sério ao mesmo tempo em que ficou exasperado com os artifícios de montagem, que acabaram servindo principalmente para disfarçar o fato de que em geral não havia muita coisa acontecendo ali.

Batman Begins foi talvez o primeiro exemplo do gênero que conseguiu ser realmente bem-sucedido buscando uma sobriedade naturalista, conseqüência de uma preocupação em levar a própria idéia do Batman – um herói sem poderes que se vale da tecnologia para combater o crime – às últimas conseqüências, vestindo o conceito de um realismo cru que não podia estar mais distante da fantasia gótica de Tim Burton.

Além da platéia não ter que engolir aranhas radioativas, mutações ou monstros esverdeados, todos os detalhes extranormais foram cuidadosamente justificados num nível obsessivo-compulsivo, processo extremamente facilitado pela era de aceleração tecnológica em que vivemos – a maioria dos bat-equipamentos corre o risco de deixar de ser ficção científica num futuro próximo.

Batman – O Cavaleiro das Trevas traz tudo isso de volta, acrescentando de quebra algo que faltou em Begins: um roteiro realmente bom, cortesia de Jonathan Nolan, invariavelmente colaborador nos melhores filmes de seu irmão Christopher (Amnésia, O Grande Truque). Desenvolvendo uma história de Chris e David S. Goyer (responsável pela franquia Blade), Jonathan se tornou o principal responsável pelo filme de super-heróis mais tematicamente complexo de todos os tempos. Não é à toa que críticos o estão comparando a dramas policiais como Fogo Contra Fogo.

Antes de ir mais fundo nesse aspecto, no entanto, talvez seja de bom-tom direcionar nossa atenção ao elefante cor-de-rosa na sala de estar: Peter Travis, da revista Rolling Stone, foi o primeiro a verbalizar a idéia em um veículo de comunicação proeminente, e a internet desempenhou sua função habitual de explodir a coisa em progressão geométrica: no momento, há uma espécie de movimento não-oficial com o objetivo de conseguir um Oscar póstumo para Heath Ledger.

Talvez a maior prova dos méritos da tão comentada atuação seja o fato de que eu tenha conseguido esquecer de toda a polêmica envolvendo a morte do ator, realmente acreditando no Coringa doentio interpretado por ele. Ledger incorpora o personagem com um desembaraço virtuoso, capitaneando a tela de forma hipnótica toda vez que está em cena. Estamos bem longe das tropelias histriônicas de Jack Nicholson: você vai rir, mas não por muito tempo.

Ledger tem uma ajuda imprescindível do roteiro, entretanto: esse Coringa não tem uma origem, tampouco um arco. O próprio enfatiza isso, oferecendo cada hora uma história diferente sobre a origem de suas horríveis cicatrizes. Como uma força da natureza de aparições explosivamente repentinas, o vilão é menos uma nêmese do que uma energia de puro caos que serve de catalisador para os dilemas morais enfrentados não apenas pelo Morcegão, mas por praticamente todos os personagens do filme.

Ao final de Begins, ficou estabelecido que (a) Bruce Wayne (Christian Bale) criou o Batman para inspirar as pessoas e (b) o então Tenente Jim Gordon (Gary Oldman) está preocupado com o tipo de inspiração que isso pode acarretar. Logo no início de O Cavaleiro das Trevas nós somos apresentados a uma conseqüência menor: uma gangue de “batmans” que se arrisca no combate ao crime sem os recursos e treinamento do Homem-Morcego.

É um problema relativamente inofensivo em uma Gotham onde o vigilantismo facilitou o trabalho da polícia, abrindo caminho para que o novo promotor público, Harvey Dent (Aaron Eckhart), inicie uma cruzada definitiva contra o crime organizado, profetizando uma era de ouro onde o Batman finalmente não seria mais necessário. Isso é abalado pela chegada do Coringa, um delinqüente imprevisível contra o qual os métodos habituais de combate ao crime se mostram ineficazes.

Não se trata de um antagonista com objetivos racionais, como vingança ou dinheiro (ponto que é ilustrado quando o palhaço enlouquecido queima uma pilha de dinheiro). Ele não quer matar o Batman. “Eu não quero mata-lo. Você me completa”. Essa é uma idéia inspirada pela graphic novel de Alan Moore e Brian Bollan, A Piada Mortal – Batman e Coringa como dois lados da mesma moeda, metáfora que ganha contornos especialmente mórbidos no terceiro ato, onde Harvey Dent é confrontado com a fragilidade de suas próprias convicções (dica: ele se torna o Duas-Caras).

“Você está olhando com atenção?” foi a frase repetida na colaboração anterior dos irmãos Nolan, O Grande Truque. É uma pista das intenções de um filme onde reviravoltas previsíveis da trama servem como o véu que encobre um profundo ensaio filosófico. O Cavaleiro das Trevas segue essa tradição com a expressão “Ou você morre um herói ou vive o bastante para se tornar um vilão”, auspício de escolhas difíceis e amargas.

Até o fim do filme, basicamente todos os personagens importantes (além da maioria dos coadjuvantes e um bom número de figurantes) são forçados a tomar decisões que vão inevitavelmente acarretar conseqüências desastrosas, em uma série de situações engenhosamente cruéis orquestradas pelo Coringa. Aqui nós não temos um clímax envolvendo uma perseguição extensa ou uma luta final, mas sim uma série de ilustrações terríveis do Dilema do Prisioneiro.

É um longa que encarna as próprias ambições com destreza, mas não sem os seus problemas. Ironicamente, estes ficam por conta do que geralmente é a preocupação principal em blockbusters americanos: a ação. Cristopher Nolan tenta, mas simplesmente não consegue alcançar a energia cinética de um Sam Raimi, o espetáculo radical de um Spielberg ou a elegância robusta de um Michael Mann.

É por isso que a primeira metade pode causar uma certa impaciência, enquanto uma quantidade enorme de set-up é entremeada a cenas onde um excesso de cortes tenta encobrir o fato de que Christian Bale só tem extrema facilidade em lutar com aquelas pessoas porque elas obviamente estão se movendo com velocidade subaquática.

Isso é especialmente evidente em um interlúdio onde o Batman faz uma visitinha a Hong Kong, necessário apenas para estabelecer um elemento que terá importância futura e completamente ineficiente em sua tentativa de gerar empolgação (exceto pelo desfecho jamesbondiano). Todavia, logo os fios da trama começam a se entrelaçar e, a partir do ponto em que Batman estréia sua moto, tanto ele quanto o filme engatam uma segunda e não olham mais para trás.

Eu recomendo evitar ler muito sobre O Cavaleiro das Trevas se você quer aproveita-lo ao máximo. Aliás, esqueça tudo que você acabou de ler aqui. Esse filme merece ser apreciado sem saber os detalhes do roteiro de antemão. Nesse caso, eles realmente importam.

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14 Comentários

Arquivado em Cinema

14 Respostas para “Review: Batman – O Cavaleiro das Trevas

  1. Wanderson

    Mas que belo review, o Bátima é meu super-herói preferido etc. Eu ainda não assisti, mas agora a vontade triplicou, vou vê-lo urgentemente.

    ps: a propósito, sou fã de seu trabalho como ator, interpretando Maria etc. Rachei o bico rindo, puta merda.

  2. Ernesto

    Isso sintetiza toda a coisa, mas esta grande de mais para ser uma sintêse… mas digamos que o que mais poderia se dizer de um filme de quase 2hs de duração e necessárias, ainda por cima.

  3. Ernesto

    Na verdade eu queria dizer… quase 3 hrs… tsc

  4. Vicente

    Alguns spoilers não me fizeram mal, pelo contrário. Assim como o Wanderson, estou com mais vontade de assistir ao filme.

    Bom trabalho, Batman.

  5. Tisf

    Sim! O Pinder só fez crescer em mim a vontade de ver o filme, pqp.

  6. Kabral

    …ainda bem que li essa resenha bem depois de ter assistido ao filme.

  7. Ah sim: excelente resenha e tudo mais.

  8. Maglor

    Eu vi o filme ontem e ainda estou atônito. Não vou comentar nada. Só que simplesmente não entendo como algumas pessoas – eu vi por aí – dizem que o filme é “chato”, “monótono”, “sonolento”. Eu realmente fiquei meio estático e inquieto durante todo o filme.

    No mais, eu realmente queria saber a opinião de alguém que conhece mais de Batman do que eu sobre o fato de ele usar armas de fogo. Tá certo que sempre no carro e na moto, e nunca contra pessoas, só contra coisas, mas ainda assim, são armas de fogo e o Batman é que está atirando. É um baita exagero fanboy, mas isso me frustrou bastante durante o filme.

  9. Eu li essa resenha antes do filme e ela não me incomodou em nada… até porque, de certa forma eu consegui fazer o que o Sr. Pinder pediu no final dele e esquecer das considerações mais importantes dela durante o filme. Tanto que a reli novamente agora.

    No mais, filme sensacional. Entendi perfeitamente o que você quis dizer com o roteiro ajudar a atuação do Ledger. As situações que o Coringa cria (incluindo essa do Dilema do Prisioneiro) são geniais.

  10. @Maglor:

    Olha, pelo menos não é que nem o filme do Tim Burton, onde o Batman invade lugares explodindo tudo e deixa capangas caírem de torres de igrejas.

    Em outras notícias, hackearam o seu orkut. Fica esperto.

  11. Pingback: Trailerama: Quem Vigia O Batman Do Futuro? « O Discreto Blog da Burguesia

  12. besouroverde

    Review muito bom, mesmo.

    Gostaria também de saber quanto aos outros dois escritores do blog, todo mundo gostou do filme?

  13. wilian almeida

    novas arma e bom

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