SPIFF – Quarta 22

Postado por Luis Calil

Enquanto um cara conversa com sua esposa na Argentina via webcam aqui do meu lado esquerdo, e outro utiliza a foto de um pênis negro no seu MSN no meu lado direito…

A Rotina Tem Seu Encanto (Yasujiro Ozu) – 5
Quando o Ozu descobrir qual é tal encanto, por favor me avisar  – ele não chegou lá ainda. As composições são frequentemente elegantes e confiantes, obviamente o trabalho de alguém que dirigiu por várias décadas, e ele faz certas observações (aparentemente) pertinentes sobre o Japão pós-Segunda Guerra (título alternativo: Saquê & Chope: Embebedando Para Esquecer a Dor), mas a montagem e as atuações rígidas e primitivas dão uma leve impressão de novela mexicana, só que sem o melodrama histérico. Um moleque sentado na minha frente comentou com os amigos – quando ocorreu algum problema na exibição e as luzes acenderam por alguns segundos – que “não é pra ter história ou um clímax, é um retrato do Japão naquela época.” Correto, mas eu não quero ver um retrato. Eu quero que alguém dê um soco na minha cara com o retrato do Japão no meio.

Na Mira do Chefe (Martin McDonagh) – 8
Tecnicamente não está no festival, mas merece ser citado. Escrito por um dramaturgo aclamado, você nota imediatamente que o filme tem uma sensibilidade distinta. A trama fala de dois assassinos profissionais que são enviados pra cidade Belga medieval de Bruges para esperar a barra limpar em Londres depois de um serviço. Um filme convencional teria usado os primeiros 10 minutos para introduzir os dois assassinos, estabelecer suas personalidades distintas, mostrar seu conforto em ambientes urbanos e mostrar o assassinato em si que leva a essa fuga; McDonagh abre já em Bruges, com a comédia de peixes-fora-d’água (mais sutil do que se espera) a todo vapor. Os diálogos frequentemente saem do assunto principal e vão parar em pequenos becos sem saídas extremamente engraçados, lembrando Tarantino e Shane Black. Até o anão do filme foge do seu típico papel de humor barato e vira um personagem quase tridimensional (ele usa antidepressivos e é racista). Está sendo exibido comercialmente – corram.

Horas de Verão (Olivier Assayas) – 8
Ristow postou ali embaixo se gabando do realismo de Gomorrah; se ele está tentando armar uma competição de “Quem faz o Realismo Mais Ultra-Hardcore?”, o Assayas chegaria pelo menos nas semi-finais. É um drama familiar – tematicamente, está no território de Toy Story 2, i.e., o dilema entre o valor histórico e o valor pessoal de um objeto de arte – como Rachel, mas sem a histeria do roteiro que lutava contra o Dogmamento do Demme. E ele possui vários detalhes extremamente sutis, totalmente irrelevantes à história, que deixam a experiência mais vívida e rica: em um momento, um dos personagens num restaurante caminha até um garçon, que está anotando algo em cima do balcão, e pede um café. O garçon sorri para ele e continua fazendo o que estava fazendo, e o personagem pausa por um milésimo de segundo em desconforto. O filme poderia ter perdido esse momento, mas foram coisas assim que me fisgaram com tanta força (há vários outros exemplos, que eu nao lembro mais por ter preguiça de fazer anotações durante a sessão). Rodrigo Pinder achou “muito francês – ninguém parava de falar!”, mas quando se tem Juliette Binoche, Charles Berling e Jeremie Renier falando o diálogo, reclamar é de mau gosto.

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