Onde o livro não tem vez

Postado por Fabiano Ristow

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O Festival de Veneza começou ontem e um dos filmes queridinhos é “A estrada”, de John Hillcoat, e você precisa vê-lo. Primeiro porque ele é baseado no livro do Cormac McCarthy, o mesmo cara que escreveu “Onde os fracos não têm vez”, que você gosta. Essa associação entre as duas obras vai ser o chamariz que todas as campanhas de divulgação vão explorar para atrair público. Vão explorar como um urso polar em dieta proteica há três semanas explora as estranhas de uma foca robusta. O filme vai estampar “Do autor de Onde os Fracos Não Têm Vez” em todos os trailers, pôsteres e spots de TV. Ele vai se apoiar nisso como um amputado se apoia em outras pessoas pra subir num ônibus.

Segundo porque, assistindo ao filme, você não precisa ler o livro. Eu sei que existe uma espécie de regra tácita nos orientando a nunca dizer uma frase como “Pra que ler se vai ter um filme”, mas é isso, não leia o livro, veja o filme. Basicamente é o tipo de livro que te faz pensar a cada dois minutos: “Isso ficaria bacana num filme”.

A primeira vez que você pensa isso é na página 1, quando descobrimos que a história é ambientada num mundo pós-apocalíptico, completamente destruído e habitado por pouquíssimas pessoas – que basicamente passam todo o seu tempo procurando comida enlatada ou matanto/roubando outras pessoas.

Mas aí você poderia pensar que o cenário pode até ser cinematograficamente estimulante, principalmente nas mãos de um diretor como George Romero, mas que isso não justificaria evitar o livro, já que, em muitas ocasiões, a graça está no estilo do escritor. Na ironia, por exemplo, ou na sensação de casualidade que Saramago conseguia dar às situações com o uso do vernacular e frases longas. Mas não é o caso.

Cormac tem um estilo direto e seco. A poesia dele não tem enfeite. Cada frase não ocupa mais de uma linha. Tipo esse parágrafo.

Esse estilo não é só perfeitamente transponível para as telas como pode dar um toque mágico se bem usado. Vocês lembram daquele clima seco e silencioso [1] de “Onde os fracos não têm vez”? É exatamente aquilo. Em outras palavras, quando você se familiariza com o estilo do autor, é a hora em que pensa: “Isso ficaria bacana num filme”.

Dentro desse cenário de fim de mundo, há uma estrada (ver título). E pela estrada caminham os dois protagonistas: um Homem e um Menino, rumo a um Lugar Desconhecido. Nós nunca conhecemos os nomes do pai e do filho, porque é super TEMDÊMCIA fazer um filme ou livro com Personagens Sem Nome, ainda mais quando você quer inserir uma temática do tipo “Um Mundo Sem Identidade”. Também não é explicado por que o mundo se encontra devastado. [2]

O fato é que os dois caminham pela estrada. E é isso. Às vezes chove. Às vezes eles comem. Às vezes eles não comem. Às vezes eles dormem. Às vezes eles não dormem. Às vezes eles ficam com caganeira. Etc.

Tudo isso bem descrito. E com “bem descrito”, eu me refiro a páginas descrevendo os passos, o tempo, a chuva, a noite, o abrir de uma lata. Páginas. Se um dia houver uma epidemia global de zumbis, é esse o livro que você precisa ler, não esse. Ocasionalmente aparecem alguns coadjuvantes (Homens Maus) que inserem um momento de ação. Mas é sempre bem rápido. Apenas o suficiente pra você pensar: “Isso ficaria bacana num filme”.

Uma coisa interessante é que Cormac, além de uma marca estilística, tem uma temática também. Tanto aqui quanto em “Onde os fracos não têm vez” ele parece interessado em admirar a bondade e inocência infantil. Em ambas as obras a criança é o único ser imbuído de solidariedade, da capacidade de dar sem pedir nada em troca. Vocês lembram que em “Onde os fracos não têm vez” o Josh Brolin só consegue um gole de cerveja de uns adultos que passavam depois de dar um casaco pra eles? (Era um casaco? Não era? Tanto faz.) E que o Javier Barden, por outro lado, consegue a ajuda de umas crianças sem precisar dar nada em troca? Em “A estrada” vocês vão ver várias cenas iguaizinhas.

Eu tenho fé que o filme vai ser bom. [3] Dizem que a atuação do Viggo Mortensen (ele é o protagonista) é memorável, melhor que a de “Senhores do crime”. E outra coisa: apesar de eu não recomendar o livro para ninguém, eu não poderia desencorajar ninguém de o ler. Não é um livro ruim. Mas é aquela coisa. Pra que ler se vai ter o filme.

[1] “Onde os fracos não têm vez” não tem trilha sonora, aliás.

[2] No filme, aparentemente, vai ter uma explicação. Algo envolvendo Homem Maltrata Natureza ou Bomba Nuclear Explode. Sei lá. Trailer:

[3] Um internauta do You Tube também acha que o filme vai ser bom e foi categórico em seu argumento: “This is gonna be like No Country with Aragorn in it! It’s gonna be one badass movie!”. Essa frase me lembrou disso.

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1 comentário

Arquivado em Cinema, Literatura

Uma resposta para “Onde o livro não tem vez

  1. Sei lá. A história precisará ser bem sintetizada para funcionar como um filme. McCarthy gasta um tempo considerável, no livro, explorando a rotina dos personagens, enfatizando a dificuldade que eles têm de conseguir comida, abrigo etc. Isso não funcionaria bem num longa-metragem, ao meu ver; seria maçante.

    O roteiro precisa costurar cenas dispersas a fim de conferir dinamismo à narrativa, torná-la ágil e panz. Certamente foi isso que fizeram, mas meu temor é que isso acabe esvaziando a principal qualidade do livro, que é, imho, a sua atmosfera opressiva e sufocante.

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