Esperei o DVD: Pr&$$@910

Postado por Rodrigo Pinder

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Todo mudo já viu esse, certo? Não preciso colocar um aviso de SPOILER aqui, preciso?

Bom, talvez eu precise. Talvez o que é óbvio para mim não seja tão óbvio para outras pessoas. Talvez exista um propósito no universo, um Objetivo Maior, um Plano Inefável. Ou talvez a vida seja apenas uma série de acontecimentos randômicos, porém inevitáveis. De onde viemos? Para onde vamos? Por que eu sou obrigado a compartilhar das músicas ruins que meus vizinhos ouvem?

Estas são as questões fundamentais da existência humana, e uma dramatização envolvendo um cético deparando-se com uma prova inegável de presciência sobrenatural poderia ser um jeito intrigante de explorá-las, mas os três roteiristas deste filme aparentemente estão mais preocupados com (a) catástrofes, (b) terror fantasmagórico e (c) Nicholas Cage correndo e/ou gritando com pessoas.

Os apologistas de Dark City vão ter que me desculpar, mas Alex Proyas nunca teve muita sensibilidade para lidar com roteiros. Não dava pra esperar que ele tivesse, por exemplo, os cojones de cortar o que é provavelmente o prólogo mais dramaticamente inútil de todos os tempos, ou exigir uma revisão no segundo ato, prolongando a descoberta e criando suspense através da ambiguidade. Como não há espaço para dúvidas e logo fica claro que as previsões são à prova de balas, a tensão é natimorta, a duração um mero capricho e cada obstáculo um exercício de futilidade.

O véu de inteligência e auto-importância é esfarrapado demais pra esconder o fato de que isso é basicamente Transformers com uma premissa “intrigante”. Tudo é desculpa para BANG CRASH POW, a “trama” consistindo numa série de situações nonsense e descaradamente convenientes. Aparentemente, “predestinação” tem uma profunda conexão com “pessoas agindo como idiotas” (o que acontece talvez mais aqui do que nos próprios filmes do Michael Bay), a necessidade dramática atropelando qualquer chance de caracterização como um rolo compressor carnavalesco: ninguém age como um ser humano normal se não for conveniente.

Amostra 1: depois de pesquisa exaustiva, astrofísico renomado está convencido de que parte de uma seqüência de números indica as datas e a quantidade de mortes de grandes catástrofe, mas idéia de que o restante dos números podem, por acaso, indicar, digamos, o local desses desastres sequer passa pela sua cabeça até o GPS do carro o lembrar que latitude e longitude existem, ao convenientemente passar pelo exato local da próxima catástrofe no exato momento em que ela acontece. POW BANG CRASH, plano-seqüência caótico que deve ter sido um inferno pra coreografar[1].

Amostra 2: mesmo astrofísico tenta se aproximar de uma mulher que pode ser a chave de todo o “mistério”, e para isso usa o próprio filho, pois a mulher convenientemente tem uma filha da mesma idade. A idéia da cena é até interessante, mas a execução patética: “eu estou extremamente preocupado com alguma coisa e definitivamente não estou sendo completamente honesto” é o que a expressão do personagem sugere desde o começo. Estaria Nic Cage interpretando o pior ator do mundo, que por acaso também é o astrofísico mais incompetente do mundo?

Eu poderia citar exemplos até o fim desse post (como o “amigo cético”, que num filme serviria como compasso de sanidade, mas neste produto audiovisual é reduzido a um mero mecanismo de negação, declarando a todo momento que lagartos gigantes não existem enquanto é repetidamente pisoteado por um Godzilla metafórico), mas isso seria fácil demais. O ponto é que tudo isso é perfeitamente compreensível quando se lida com o tipo de projeto que pinguepongueou durante anos e aterrissou no colo dos creditados depois de passar por um número indeterminado de sabe-se lá quais mãos.

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O produto final é claramente uma cria bastarda rejeitada por diversos Frankensteins, e só não é uma ofensa completa em termos de desperdício (o pouco de existencialismo que há no filme é tão burocrático que soa como exposição) porque uma versão boa desse conceito já existe: O Juízo Final, de Michael Tolkin (1991). Recomendado para pessoas interessadas em uma visão realmente desesperadora da “certeza do que está por vir”.

Pode-se argumentar que os filmes não são exatamente similares, que este é ambíguo sobre o que exatamente está controlando tudo. Na minha opinião, isso é uma falácia. Não há qualquer ambigüidade aqui, e o último plano está basicamente esfregando isso na sua cara. O “quem” não é importante, e sim o “como” e o “porquê.” Esse filme é sobre anjos e o Apocalipse. Eles tem asas. Por que aliens teriam asas? Eu digo porque. Porque esse roteiro passou na mão de cristãos, judeus e ateus.

Mais uma evidência de que o objetivo aqui é demográfico (agradar o máximo possível de pessoas e ofender o mínimo), o visual sci-fi permite explorar alegorias bíblicas desgastadas sem fazer os ateus e agnósticos revirarem os olhos, além de garantir uma rede de segurança contra os religiosos mais fanáticos, que não costumam gostar de coisas bíblicas que não são exatamente como está escrito na Bíblia. Resultado: um filme completamente subordinado, sem nenhuma vida própria. Em algum momento alguém pode ter acreditado nessa idéia de verdade (provavelmente o cara que escreveu o primeiro draft), mas a quimera retardada que ela se tornou é disaster-porn.

Os valores de produção impedem que ele se torne um possível candidato para um possível futuro MST3K? Eu não saberia dizer. Apreciar histeria num nível tão-ruim-que-é-bom em longas nunca foi muito a minha praia; logo a graça se esvai e tudo que sobra é constrangimento. É por isso que eu nunca assisti Plan 9 From Outer Space até o fim, e nem pretendo. “Sim, é bem ruim, já entendi, haha. Agora coloca Cidadão Kane aí que eu preciso purificar a minha alma.”

A conclusão final é tão previsível quanto o filme: o maior desastre que o Nicholas Cage não consegue impedir são suas contínuas tentativas de esconder a própria calvície (rimshot). Não, sério, como um cara aparentemente tão vaidoso (a peruca que ele usou em Motoqueiro Fantasma levava 3 horas para ser aplicada) se sujeitou a fazer Adaptação? Eu sei, eu sei; ele queria outro Oscar. Em todo caso, ele devia fazer filmes de época; pelo menos ia poder usar chapéu.

(Ainda bem que eu fiz uma nota de rodapé. Terminar com uma piada tão fácil ia ser tão filisteu.)

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***

[1] Aparentemente o Proyas quer copiar Children of Men, mas há um problema nesse espectro e ele se chama MPAA. Enquanto o Cuarón pode se dar ao luxo de espirrar sangue na câmera, Know1ng é um projeto que já nasceu no berço confortável do PG-13. Não é que eu queira ver gore, é que o filme quer mostrar catástrofes de forma extremamente detalhada, e não dá pra fazer isso só com concreto estraçalhado e metal retorcido. Essas coisas têm a tendência de reduzir o corpo humano ao seu estado básico de ossos e líquidos. Ignorar esse fato é banalizar a situação.

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4 Comentários

Arquivado em Cinema, Esperei o DVD, Religião

4 Respostas para “Esperei o DVD: Pr&$$@910

  1. Acabei de perceber que o WordPress informa que “você é o autor desse post” logo abaixo da caixa de comentário. Obrigado WordPress.

  2. Fausto

    Acho que a pergunta correta é “alguém viu esse filme? Ninguém liga que vou contar spoilers, certo? Estou escrevendo Nicolas com ch, mas quem se importa?”.

    Eu meio que gosto de Eu, Robô, mas esse aqui não me pareceu nada atraente, a começar pelo nosso Nick Quase-Sem-Cabelo (Harry Potter feelings). Até que fiquei levemente curioso com o Ebert dando quatro estrelas e dizendo que é “um dos melhores sci fis que já viu”, aí lembrei que ele gosta de The Prestige tanto quanto The Happening..

  3. Mas se você reparar, na tag eu escrevi certo.

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