Jogos, Trapaças e Amor Fraterno

Postado por Rodrigo Pinder

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As pessoas deviam dar mais atenção a Rian Johnson. Ele está fazendo coisas raras no Cinema. São raras, por exemplo, as ocasiões em que você pode usar o termo “pastiche” com uma conotação positiva. Mesmo o imitador mais bem-sucedido do mundo (Tarantino) é ocasionalmente acusado de superficialidade. Nesse espectro, Johnson parece disposto a fazer carreira de exceções que provam a regra. Brick, o longa de estréia do diretor (lançado direto em DVD no Brasil com o título A Ponta de um Crime[1]) atiçou o circuito indie assim que apareceu em Sundance.

Trata-se de uma obra singular, que utiliza uma das premissas mais básicas da ficção (a investigação de um crime) para criar um drama complexo, injetando uma atmosfera noir e riffs de histórias de gangsters e detetives em um ambiente de filme colegial. A combinação a priori pode soar ridícula, mas a genialidade está justamente em mostrar o quanto os clichês de ambos os gêneros são parecidos: manipulação, um herói proscrito, violência, valentões, femme fatales, etc. Podia ter dado errado, mas funcionou porque a direção confiante acertou o tom exato entre sátira e seriedade.

Foi o suficiente para que seu segundo projeto contasse com um orçamento aproximadamente 40 vezes maior e dois Academy Award Winners® no elenco. The Brothers Bloom (lançado no Brasil com o título Vigaristas [2]) pode não ser tão original quanto Brick; a montagem e a trilha criam um clima vívido e amigável para o público (ocasionalmente evocando bastante o estilo de Wes Anderson), mas acessibilidade não é necessariamente uma característica ruim. Brick é talvez uma expressão mais pura da arte do autor, mas Bloom é simplesmente mais rico e divertido, além de discutivelmente mais maduro.

O prólogo é um microcosmo impecável de tudo que estamos prestes a assistir, telegrafando os temas e enfatizando o mise-en-scene estilizado com extrema desenvoltura: os irmãos do título são apresentados em sua infância como órfãos encrenqueiros que usam ternos e chapéus monocromáticos e vêm pulando de lar em lar devido a mau comportamento. Stephen, o mais velho, declara seu desprezo pelo bando de shiny happy children observado à distância, enquanto joga fora um pixy stick com um gesto digno de Bogart se livrando de uma bituca de cigarro.

Johnson está novamente trabalhando com heróis proscritos, mas aqui há uma esperança na forma de Bloom, o irmão mais novo, que demonstra o potencial para viver na colorida normalidade ao se mostrar apaixonado por uma garota. Em uma de muitas gags hilárias, Stephen literalmente o empurra na direção dela, mas o garoto simplesmente não sabe utilizar os mecanismos sociais necessários. Determinado a ajudar seu irmão, Stephen formula o plano que inadvertidamente irá definir o futuro de ambos.

Anos depois, Stephen e Bloom (Mark Ruffalo e Adrien Brody, respectivamente) já são golpistas consagrados, mas a personalidade da dupla se encontra estagnada nos arquétipos estabelecidos desde a infância: Stephen articula trapaças de progressiva complexidade artística, criando narrativas onde seu irmão pode “viver” situações através de papéis pré-concebidos. Bloom se encontra obviamente frustrado, sua personalidade aleijada pela artificialidade.

E aqui chegamos em outra raridade, aqueles casos onde estilo é substância e a metalinguagem tem uma razão de existir: a artificialidade do filme – e, em um certo nível, do Cinema em geral – obviamente reflete a artificialidade da vida de Bloom. O teatral desfecho de um golpe (a primeira cena dos protagonistas adultos) envolve balas de festim e sangue artificial, provavelmente os props mais básicos do cinema. Coincidência? Eu acredito que não.

Como Stephen, Rian Johnson está pintando um panorama romantizado através de referências e simbolismos, o que inclui um ex-mentor caolho positivamente dickensiano (ele é até referido como “nosso Faggin”) e um mecanismo de logística na forma da ajudante Bang Bang (Rinko Kikuchi) que “conhece as entradas e saídas”, explica Stephen. Proferindo apenas três palavras (sem contar uma inesperada performance de karaokê), Bang Bang é mais uma presença do que um personagem propriamente dito, mas é responsável por boa parte dos momentos mais hilários do filme.

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Sendo uma história de golpistas, mesmo uma que pretende desconstruir o gênero, um golpe deve engatar a narrativa, então quando Stephen vai atrás de um aposentado Bloom, escondido em Montenegro, nós sabemos que o irmão mais novo vai aceitar um último trabalho. O alvo: uma herdeira obscenamente rica e tão entediada que “coleciona hobbies” (o que é demonstrado em uma montagem absurdista que envolve malabarismo com motosserras), o tipo de pessoa que obviamente pularia de cabeça na primeira oportunidade de aventura.

É nessa caracterização que mora uma terceira raridade, evidência indiscutível do talento do Johnson: depois de 30 filmes e um Oscar, essa é a primeira atuação realmente memorável da Rachel Weisz. Ela se mostra tão perfeita para o papel de Penelope quanto Penelope é perfeita como alvo de um golpe, encarnando a excentricidade da personagem com expressões e maneirismos completamente espontâneos. Mas há algo mais por baixo da superfície.

O desejo por aventura de Penelope a torna o alvo perfeito para um golpe, mas ela também é claramente o par perfeito para Bloom. A excelente cena em que ela conta toda a história da sua vida enquanto faz truques com um baralho é tão hilária quanto emocionante; há uma identificação real entre aqueles personagens, ambos socialmente comprometidos por suas origens. “Não se apaixone”, Stephen adverte, mas é isso que ele realmente espera? “O melhor golpe é aquele onde todos ganham o que queriam,” é a epifania anunciada desde o preâmbulo. Seria isso realmente possível?

Provavelmente seria de bom-tom parar por aqui, com a recomendação de que Os Irmãos Bloom (sim, eu me recuso) é uma história sobre histórias que conta com um pathos real permeando a ludicidade narrativa, já que somos constantemente lembrados de que as fabricações são motivadas pela necessidade de tornar uma pessoa amada feliz. É por isso que a considerável desaceleração de ritmo no terceiro ato é completamente necessária. As últimas peças se encaixam, e elas carregam peso demais para incluir trivialidades.

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***

[1] Há crimes na história, mas de onde tiraram essa “ponta”? Eu não me lembro de nenhuma ponta relevante no filme todo. Qual é o problema com Tijolo, exatamente? Um tijolo não ilustra uma imagem “perigosa” o suficiente? Mesmo sendo um tijolo de heroína? OK, as pessoas não saberiam exatamente do que é feito o tijolo ao olharem a capa do DVD, e O Tijolo de um Crime soa até mais nonsense do que A Ponta… Mas dava pra ter refletido um pouquinho mais, na minha opinião. Que tal a velha tática do subtítulo-muleta? Sugestões: Brick – Crimes no Colégio; Brick – O Segredo do Tijolo; Brick – Um Tijolo muito Louco; etc.

[2] OK, alguém está de brincadeira. Não é possível que ninguém tenha lembrado que um filme do Ridley Scott foi lançado aqui em 2003 com o título Os Vigaristas. Qual é exatamente a necessidade de tornar tudo genérico? Será que as distribuidoras consideram o público brasileiro tão tapado que um título como Os Irmãos Bloom não é considerado “informativo” o suficiente? (Obviamente a resposta é sim, QED.)

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2 Comentários

Arquivado em Cinema

2 Respostas para “Jogos, Trapaças e Amor Fraterno

  1. Thiago Ortman

    Já elogiei a crítica – no twitter.
    Por isso, venho com as interrogações e há SPOILERS nelas.

    ___

    Após revê-lo notei que essa “desaceleração” foi definitivamente saudável para a obra, algo que havia me incomodado na primeira vez.

    Na revisão também me veio na cabeça uma teoria maluca que a Bang Bang não existe, sendo ela uma espécie de “ponte” que conduz todo o filme. Não consigo explicar exatamente porquê, mas nas cenas: dela cantando e entregando o origami para o Bloom (Blade Runner? E tudo que está implicíto nessa cena na obra do R. Scott) Me pareceu que o Johnson estava querendo nos dizer isso.

    Acho que seria válido ressaltar a questão da epifania, que conduz todo o subtexto do filme, até a hora que Ela definitivamente desabrocha, naquela cena brilhante do Bloom furtando a maçã (?).

    Enfim, algumas homenagens agradáveis/divertidas que notei: O origami já comentado; o teatro abandonado no fim me pareceu bem semelhante com aquele da Briga no Laranja Mecânica; o “dispositivo” de arma do Bloom nessa mesma cena (Taxi Driver). Fora a forma doce que o Johnson “cria” seu western nos furtos ao trem.

    • Existir ela existe, mas naquele espectro de personagens-mecanismos que o Coringa de TDK habita. Isso é meta-enfatizado (urgh, de onde eu cavei essa) quando a Penelope diz “I feel like I wanna know more about her.” Penelope é o “público” nesse momento, mas claro que não há uma origem satisfatória. Bang Bang está ali porque é necessária, e ENQUANTO é necessária.

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