Autoexclusão Não Intencional Em Se Tratando De Cinema

Postado por Fabiano Ristow

“Filme de arte”

Mais alguns casos de pessoas fazendo coisas e tendo em retorno exatamente o contrário do que elas esperavam.

Eu vi esse editorial hoje chamado “Nojento”, do Cahiers du Cinema. Ele diz que o rótulo “filme de festival”, dado por comitês e mecanismos franceses a certos filmes que precisam de apoio, é falso e nojento. (só reforçando que falso e nojento é o rótulo “filme de festival”, não o “filme de festival”) Rotular um filme como “filme de festival” seria marginalizá-lo e eventualmente destruí-lo, já que o colocaria numa classe separada dos “filmes reais” (i.e. filmes comerciais, que são exibidos pra maioria). E aí o texto aponta a ironia que é filmes sendo subestimados e excluídos por causa de um rótulo dado por grupos que foram criados originalmente justamente para promover a diversidade.

Aqui no Brasil, não existe nenhum órgão rotulando oficialmente um filme de “filme de festival” só por ele precisar de ajuda financeira, mas todo mundo já ouviu falar de “filme de arte” (muito presente em festivais), que na cabeça de muita gente é estereotipado como também sendo um filme barato, e “pior”: chato, lento e difícil.

A definição básica de um filme de arte é de um filme que faz o espectador participar da experiência e se esforçar mais do que ele está acostumado no “cinema comercial”. E aí há vários graus de esforço que diferentes filmes exigem. Dá para chamar Onde os Fracos Não Têm Vez dos Irmãos Coen e O Rio do Tsai Ming-liang de “filmes de arte”, e há um oceano entre os dois em termos de acessibilidade. É um oceano de variedades enorme demais para reduzi-lo a uma mesma concha. O filme de arte “chato, lento e difícil” é só um tipo de filme de arte.

Mesmo assim tem o cara que viu um trecho de um filme iraniano no Telecine Cult anos atrás, achou horrível, e desde então sai correndo só de ouvir a expressão “filme de arte”. Esse cara (muito comum) comete o erro de extrapolar a parte ao todo. Os espaços de cinema “alternativos” e “cults” viram uma espécie de exotismo a ser evitado. Provavelmente não tem comitês nem mecanismos que consigam ser mais destrutivos e segregadores do que os pré-conceitos que a gente mesmo inventa.

Eu não vejo problema em você ter uma preferência por um gênero ou por um tema – todo mundo tem. Quando o cara que tem uma vida profissional, amorosa e agitadas arruma um tempo valioso para se dedicar ao entretenimento, ele vai querer ser certeiro e ir atrás do quê ele tende a gostar e se identificar. Mas ser extremista ao ponto de considerar uma classificação ou um termo o suficiente para decidir se vale a pena ou não ver um filme, aí precisa de um nível de preconceito acima do considerado recomendável. Não custa nada usar usar mais dez segundos da sua vida para perguntar: mas sobre o que é esse filme? Já seria alguma coisa.

De qualquer forma, quando as pessoas não estão ocupadas estereotipando uma classificação e se tornando estereotipadas, o pretensioso e amplo termo “filme de arte” ainda consegue representar alguma coisa e levantar algum tipo de expectativa, a de que você está prestes a encarar algo que requeira de você uma atenção minimamente aguçada. Na pior das hipóteses, é uma expressão mais interessante que “filme gay”.

Eu falei sobre sobre a classificação “filme gay” e como ela pode, em certas circunstâncias, também causar uma autoexclusão não-intencional nesse texto, que claramente ficou mal escrito, desinteressante e feito às pressas, já que os dois únicos comentários vêm da Julia, que achou “muito longo, não li”, e do Claudio, que recomendou que eu “busque cultura depois fale dos gays”.

(Entendeu por que lá em cima eu achei necessário reforçar que o problema do texto era com a classificação e não com os filmes em si? Porque as pessoas confundem [ou a gente não explica direito]. Então, reforçando: eu não tenho problema com filmes gays, muito menos com pessoas gays [eu não acredito que eu estou falando isso], e sim com a classificação “filmes gays”.)

De forma resumida, eu gostaria de ter dito que “filmes gays”, a não ser que eles estejam falando sobre a sexualidade de um gay, são como qualquer outro filme de romance, suspense, drama ou comédia. Na teoria, é possível argumentar que “filme gay” seja específica ou principalmente sobre a homossexualidade. Na prática, o “gênero” é comumente atribuído a qualquer filme em que o roteirista tenha incluído em algum momento um personagem gay – o que aos meus olhos faz tanto sentido quanto chamar de “filme esquerdo” um filme com um personagem canhoto. Ou seja, virou um rótulo que não diz nada. Você espera rir com um filme de comédia e se assustar com um de terror, mas, hoje em dia, responda sinceramente: o que você espera de um filme gay? É como se o cinema estivesse sendo definido pela sexualidade e não pelo mérito artístico. Resultado: filmes complexos e interessantes (filme de arte!) entram em mostras gays e ficam ocupados demais sendo vistos majoritariamente (ou apenas) por gays. Ruim para o diretor que teve seu filme excluído a uma exposição limitada, ruim para o público que acaba não ouvindo falar dele.

Mas o caso mais interessante e fascinante sobre Autoexclusão Não-Intencional Em Se Tratando De Cinema (ANIESTDC) vem do Theo Panayides nesse texto. Ele apresenta uma verdade incrível: tempos atrás – na década de 50, por exemplo -, o que as pessoas viam no cinema era, por acaso, também o que levava o Oscar e o que era aclamado pela crítica, tudo ao mesmo tempo. Nem é preciso continuar para você perceber como hoje a situação é completamente diferente. Com o passar dos anos, ocorreu uma fragmentação. As três vertentes quase não se encontram mais. Se você estivesse numa festa ou num jantar na década de 50, é provável que todos pudessem conversar sobre cinema como um interesse em comum e discutir filmes que todos tivessem visto.

Hoje, isso é simplesmente impossível. Cada um, adolescente bobo ou intelectual, assiste ao filme que lhe convier, e quando se encontrarem, serão como habitantes de mundos diferentes. E essa ANIESTDC o Theo nem enxerga como um aspecto ruim, é só uma consequência da escolha do consumidor. É a natural individualização das práticas. E, como eu disse, é absolutamente legítimo a gente definir as nossas pereferências, ainda mais numa era em que passamos praticamente 24 horas por dia fazendo a mesma coisa: filtrando o excesso de informação (e de filmes).

De qualquer forma, o Theo faz conclusões com que eu não poderia concordar mais: filmes não são mais o que une diferentes idades e classes. A experiência de assistir a filmes reflete nosso preconceito escondido: se assistimos ao que gostamos, é, principalmente, porque assistimos a apenas o que gostamos.

Se a gente experimentasse o que está do outro lado, em vez de escolher morar no próprio mundo e acreditar em classificações simplistas só porque é mais fácil, é possível que tivéssemos um mundo melhor. E um cinema melhor.

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