High School Classical

Postado por Fabiano Ristow

“Quem é fã de Penderecki?”

Daí que o ensino de música passa a ser obrigatório nas escolas a partir do ano que vem, o que pareceu uma ideia muito bacana até o momento em que não pareceu mais. Fui então regredindo em uma série de pensamentos aterrorizantes e culposos, a começar pela pergunta: mas o que a música ensina?

Ensina concentração, cooperação, linguagem e memória. É o argumento pedagógico. Ok, aprender a tocar instrumentos desenvolve todas essas habilidades. Isso provavelmente é muito útil para as crianças e encerra a questão da validade do ensino de música nas escolas.

Se eu tivesse tendo essa discussão ao vivo, é possível que eu concordasse com a conclusão, mas iria embora pensando com os meus botões: ok, é válido, mas não teriam outros assuntos mais válidos para se ensinar?

Eu odiava quando meus amigos falavam que Química e Física não adiantavam pra porra nenhuma, que eles fariam Letras ou Jornalismo e todas aquelas fórmulas e leis não adiantariam para nada. Aí eu, que já sabia que faria Jornalismo e teoricamente era para concordar com eles, dava a resposta pedagógica e fácil: “Vocês acham que essas matérias são inúteis, mas elas estão desenvolvendo em vocês o raciocínio lógico, a memória, a concentração, habilidades que serão úteis em qualquer profissão”, etc.

O problema é que logo depois que eu saí da escola eu percebi que tinha uma carência absurda de conhecimento a respeito de coisas práticas e importantes para a Humanidade. Por exemplo, economia e política. Aí eu pensei: certo, Química e Física desenvolvem todas aquelas habilidades e tudo, mas outros assuntos não teriam sido mais válidos? Aos 16 anos, você já pode eleger um presidente que vai definir, no mínimo, o futuro de um PAÍS. Se fosse obrigatório nas escolas o ensino de economia e política, você poderia tomar essa decisão de forma muito mais consciente e embasada, e contribuir para um mundo melhor e tudo o mais. Não seria mais útil?

Acontece que sair por aí defendendo o fim da Física, da Química (e da Música) seria de uma irracionalidade e pateticismo formidáveis, até porque, para muitos (muitos), essas matérias acabam sendo úteis na prática, e quem sou eu para definir uma grade escolar sentenciando o que deve sair para entrar Política e Economia. Isso significa que eu não vou defender nenhuma posição sobre essa questão. Então vou retomar de onde parei: aprender a tocar instrumentos musicais na escola é útil porque ensina um monte de habilidades.

Mas e ouvir música, ensina alguma coisa? É claro que isso deixa de ser uma questão meramente pedagógica e se torna mais ampla, porque sai do ambiente escolar e cai em todos nós. Bem, se você considerar que canções têm letras, letras, que, como poemas, carregam mensagens, temas, etc, a resposta para a pergunta é: sim, claro que ensina alguma coisa.

Mas e ouvir música instrumental, ensina alguma coisa? Vamos pegar a música clássica orquestrada, por exemplo, para fins didáticos. Ela é considerada arte. Não que por ser arte ela esteja implicada a alguma função específica, até porque para fazer essa afirmação a gente teria, primeiro, que definir o que é arte, e essa é uma outra história que terá de ser contada em outra ocasião. Mas se a gente pegar a característica mais básica e crua da arte, a de que é a expressão de alguma coisa, então, por ser arte, a música clássica expressa alguma coisa.

Como e o quê ela pode expressar? É muito mais fácil identificar o que outras artes expressam. Um filme ou um livro podem seguir uma trama linear, relatar um acontecimento histórico, transmitir um modo de pensar através de ritmo, etc. Seu objeto de estudo está na sua frente para ser analisado. É quase natural assumir que a arte ensina alguma coisa, e ponderando do ponto de largada, é muito mais instantâneo e lógico assumir que é mais fácil apontar o que o cinema e a literatura (ou a pintura, escultura) têm de edificante. No outro lado, está a música, a única arte, de todas, que é abstrata na forma, o que torna esse processo menos óbvio. Quando a gente fala em música clássica, definir como ela transmite informações e ensinamentos ou o porquê de ela ser arte me parece mais complexo ainda, mas definitivamente ela o é, e assim é considerada há muito tempo, inclusive como sendo mais “artística” do que um rock.

Eu não tenho certeza se isso automaticamente delega à música clássica o objetivo de ensinar alguma coisa, mas é uma expectativa praticamente involuntária. Existe essa relação – e eu não vou citar nenhuma fonte porque não é totalmente empírico, mas eu tenho certeza de que você sabe do que eu estou falando – entre música clássica e inteligência. Essa imagem da família intelectual e fina indo a concertos vestida como se estivesse concorrendo ao Oscar. A música clássica também é pretensiosamente conhecida como música erudita – como se ela própria fosse inteligente, ao contrário da música… ignorante?

É óbvio que a música clássica é famosa pela complexidade, camadas de melodias amarradas soando em harmonia, etc. E com certeza requer um considerável grau de dedicação identificar e apreciar essas sutilezas. Mas essa capacidade exige, necessariamente, uma mente intelectualmente desenvolvia? Seria estúpido pressupor que o analfabeto do grotão não seria capaz de sentir prazer com a música clássica. Para mim, o que ela realmente exige, na maioria dos casos, é só paciência – o que na camada mais superficial não tem nada a ver com intelecto, mas sim com o aspecto emocional.

E aí o ciclo fecha: se a música clássica requer o mínimo de boa vontade de quem está ouvindo, é também justamente isso o que ela tem a ensinar: paciência, sensibilidade. Tem até bebê dormindo bem e índices de criminalidade caindo por conta de Mozart. Eu não faço a menor ideia de como entrar no mérito de processo cognitivo, de como o nosso cérebro reage ao ouvir música clássica, mas o som em si evoca sensações – “sombrio”, “alegre”, etc.

Então, se eu tivesse que opinar, diria que a música clássica é capaz de atingir com ferocidade e direção mais a parte emocional do que a intelectual (aliás, justamente por ser abstrata que em algum lugar eu sempre acreditei que a música era a forma mais imediata de se comunicar com as emoções, mas isso é uma outra história e etc etc), mas não posso afirmar com 100% de certeza. De qualquer forma, uma conclusão é simples. Quando eu comprei aquela coleção de música clásica da Folha, recebi junto um livro do crítico musical Arthur Nestrovski (na contracapa tem um elogio exagerado do Harold Bloom a ele, o que achei chique). Ele abre refutando a ideia de que a música clássica “deva” ser aprendida com vista a qualquer propósito pedagógico. Ele diz: “A única razão que se pode apresentar é que escutar os clássicos é melhor do que não escutar os clássicos”, o que de fato parece o suficiente.

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1 comentário

Arquivado em Ciência e Tecnologia, Geral, Literatura, Música

Uma resposta para “High School Classical

  1. Bia Tincani

    Acho que a maioria das pessoas que estudam economia comigo concordam que noções básicas de economia e política teriam sido muito úteis e importantes no colegial, além de imensuravelmente chatas. A idéia é que tudo isso entre nas matérias de história e geografia. Mas o ensino disso tudo nas escolas é fraco. Portanto, o que fazer?
    Sistema de créditos eletivos como complemento educacional?

    Anyway, acho que música é um exercício de reflexão. Não existem muitos exercícios de reflexão na escola, onde somos ensinados a escutar, absorver e vomitar na prova em seguida.

    E viva a fuvest.

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