Girl Talk Não Nos Convidou

Postado por Luis Calil

Ao me posicionar em frente ao palco Indie do festival Planeta Terra, às 02:00am, pra ver meu último show da noite, eu reparei (lembrei, na verdade) em algo que me deixou semi-apreensivo: o Girl Talk não tem banda; é só um cara e uns laptops. Não que Yeasayer ou Phoenix – outras bandas que também tocaram no festival – sejam o auge do carisma no palco, ou que as fantasias dos “dançarinos” de Of Montreal fossem visualmente instigantes, mas pelo menos essas bandas fornecem algum tipo de distração, algo pra observar enquanto você escuta o som (nem que seja pro meu colega Fabiano Ristow reparar que certo guitarrista de certa banda parece o Fiuk).

Na verdade, o conceito de um show onde o palco e o artista não são o centro das atenções é algo extremamente nobre; a música eletrônica ao vivo sempre operou dessa forma, desinflando o ego dos artistas, colocando o foco no prazer e movimento e interesse visual da própria platéia. O festival Planeta Terra, no entanto, não é uma boate ou uma rave, e indies são treinados por experiência a olhar pro palco. Eu temia que a plateia não fosse ficar visualmente distraída o suficiente pra se entregar ao show – a não ser que o Girl Talk tivesse um às na manga.

A carta na manga não chegou a ser um às (foi mais tipo um par de oitos offsuit, ou algo assim [i.e. uma carta que você não daria All In mas não teria medo de apostar blind]), mas serviu: ele trouxe o que pareceu ser a equipe de produção/organização do Planeta Terra[1] pro palco pra dançar, bolinar, jogar papel higiênico pro alto e se abraçar em paz e harmonia. E pelos primeiros 20 minutos, foi definitivamente o palco mais interessante e cômico do festival, muito mais eficiente do que as fantasias retardadas do Of Montreal.[2]

Logo, porém, uma outra impressão foi se formando na minha cabeça: a de que tava rolando uma festa fantástica no palco – cheia de pessoas bonitas, gelo seco e papel higiênico – e ninguém da platéia lá embaixo havia sido convidado. Nós teríamos no máximo a honra de observar e admirar a diversão dessas pessoas privilegiadas. Eu relatei essa impressão para meu colega Fabiano Ristow, que concordou comigo imediatamente (o que significa que não era frescura minha). Não que a platéia tenha perdido ânimo por causa dessa vaga impressão, mas certamente teria sido nobre do Gillis convidar alguns espectadores não-insiders pra subir lá também, como a M.I.A. costuma fazer[3].

Lá pelos 45 minutos de show, os tais dançarinos privilegiados do palco já tinham se transformado na minha cabeça em adversários/competidores, e eu já tava vendo a hora de aparecer uma votação estilo-BBB no telão perguntando quem devia continuar lá em cima e quem devia ser retirado. Meu voto pra continuar teria ido pra Garota de Laço Vermelho Na Cabeça, que – além de dançar com incrível habilidade e sensualidade e nenhuma auto-consciência – parecia ter quase tanta energia quanto o Gillis. E meu voto pra remover iria pros crachás que os privilegiados usaram; se é pra ser um show meio elitista, podiam ter pelo menos disfarçado.

P.S.a: Sobre a música do Girl Talk (você já deve ter lido descrições dela em várias outras publicações mais respeitosas que esse blog), deixa eu só comentar que fiquei orgulhoso ao ver a maior parte da platéia cantando junto tanto com o sample de “Since U Been Gone” da Kelly Clarkson quanto com o de “War Pigs” do Black Sabbath. Aliás, o uso desse último sample deve ter sido o momento mais eletrizante do festival inteiro (2° lugar: Phoenix abrindo com “Lisztomania”; 3° lugar: Yesayer fechando com “Ambling Alp”).

P.S.b: É “conversa de garotas” ou “conversa, garota”? Eu sempre li do primeiro jeito, mas um amigo imaginou uma vírgula implícita no título. Deve ser algum tipo de teste de personalidade.

[1] Vamos notar aqui que se realmente foi a equipe de produção do Planeta Terra – e pelos crachás que eles estavam usando, eu imagino que foi – ela parece ter sido inteiramente composta de pessoas jovens e bonitas, o que talvez explica certos aspectos retardados da organização e do Twitter do festival.[1.a]

[1.a] Um destes aspectos retardados foi que a organização do Planeta Terra se referiu ao Girl Talk, desde que ele foi anunciado na programção, como “Girl Talk 3rd band”, o que deve ter sido um erro grotesco de ctrl+c ctrl+v. Como isso não tinha sido corrigido mesmo depois de meses de anúncio, eu finalmente mandei uns quatro tweets pro @planeta_terra, até eles reconhecerem a merda que tinham feito. Agora me arrependo de ter feito isso, pois queria ter visto “Girl Talk 3rd band” aparecendo naquele telão ao lado do palco, tirado uma foto e mostrado pro resto do mundo a nossa estupidez.

[2] O fator visual do show foi intensificado também pelo próprio Girl Talk, aka Gregg Gillis, que é basicamente um personagem de desenho animado. Seu uniforme inclui uma headband icônica, prendendo seu cabelo pra baixo[2.a], e ele não para de pular em momento algum do show (a não ser pra subir em cima da sua mesa e mandar a platéia levantar as mãos e gritar). Quando ele tá mexendo nos laptops, o Gillis dá pulinhos movendo seu corpo de um lado pro outro, uma dança executada com tanta perfeição que parece ter sido treinada e refinada ao longo de centenas de shows, e que faz ele parecer estar andando na esteira mais divertida do mundo.

[2.a] A parte do cabelo dele inferior ao headband faz uma curva pra cima, algo que imagino ter sido causado pela incapacidade do Gillis de parar de pular.

[3] Isso pode ter acontecido; eu saí depois de uma hora de show.[3.a]

[3.a] Acabo de ser informado pelo meu colega Fabiano Ristow, que ficou até o final, que isso não aconteceu.

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5 Comentários

Arquivado em Atualidade, Música

5 Respostas para “Girl Talk Não Nos Convidou

  1. No fundo do twitter do Planeta Terra o erro não só persiste como também se agravou: Girl Talk -> Girl Talk 3rd Band -> Girl Talk 3th Band. Tá lá ainda. É a errata mais teimosa e fascinante da história.

  2. Jorge Rocha Netto

    Gostei do seu texto, está muito bem escrito. No entanto, uma correção deve ser feita… a subida de não-insiders realmente aconteceu. No mínimo umas vinte pessoas que estavam lá em cima foram convidadas durante o show do Empire of The Sun. Falo isso com toda a certeza porque fui uma destas pessoas. Curto pra caralho o som do Girl Talk, ele era a atração que eu mais queria ver. Fiquei em êxtase quando um cara da produção falou comigo e dois amigos ali embaixo! Ele disse que que poderíamos inclusive chamar outros amigos.

    Fiz este vídeo antes de subir. Todos que aparecem foram convidados minutos antes http://www.youtube.com/watch?v=SIZnTSxCpZA

    • Fabiano Ristow

      Jorge, você conhece a Menina do Laço Vermelho? Se sim, você parabeniza ela por mim? Eu também teria votado nela pra ganhar.

      Acho que teria sido legal se o Gillis tivesse pego pessoas da plateia durante o show dele próprio, você sabe se isso aconteceu? Acho que teria sido bacana. Porque caso contrário, eu meio que concordo com o Luis… mesmo com presença de não-insiders, continua sendo uma seleção prévia. Parece bobeira, mas faz toda a diferença pra quem estava lá e foi pego de surpresa com esse formato do show.

      Curti o vídeo. Meu coração acelerou visualizando a situação de entrar num palco com milhares de pessoas assistindo.

  3. Jorge Rocha Netto

    Não a conheço, mas acho que conversamos no backstage. Se for a mesma que eu tô pensando, ela é carioca e fã do Girl Talk. Tentou subir no palco com ele em um show que ela assistiu fora do país, mas não conseguiu. Foi a realização dela no Terra!

    Eu notei que o palco foi ficando mais cheio depois dos primeiros entrarem. Mas não sei se foram outros escolhidos da plateia ou se era galera da produção. Eu só lembro que minha cabeça latejava de tanto que eu pulava e gritava, heh. Foi demais! Saí do sul só pro festival, em especial por causa do Girl Talk, e ainda assisti ao show no melhor ângulo possível! Que venham as próximas edições!

  4. Pan

    eu poderia morrer sem saber q gente sem crachá subiu. msm tendo um colega q subiu (trabalha no terra). eu passei todos os segundos do show pulando insanamente e 24 horas depois minha roupa AINDA estava molhada de suor, eu teria feito alguma loucura pra subir se meu namorado nao tivesse lá.

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