Dez Trailers Memoráveis da Última Década

Postado por Fabiano Ristow

A não ser que você seja uma pessoa amargurada, assistir aos trailers antes do filme começar é uma das experiências interessantes no ritual de ir ao cinema, mesmo que não seja a principal. É provável que alguns esperem que um bom e honesto trailer apresente uma pequena prévia do que será o filme. Mas aí você pega o caso de Dama na Água, por exemplo, cujo teaser indica que se trata de uma fantasia doce – quando na verdade é também um suspense/terror. Ele é então um trailer trapaceiro? O que é um trailer bom? Basicamente, eu consigo pensar em dois casos: o que termina e te deixa pensando “Eu preciso ver esse filme” e o que tem uma boa edição. É curioso como um trailer elegantemente editado é o suficiente pra me fazer crer que o filme precisa ser visto, ainda que muito comumente ele tenha sido produzido por um departamento publicitário sem nenhuma relação com o diretor e suas ideias.

Então listei os 10 trailers memoráveis dos anos 2000, pra mim, que são um caso ou o outro, ou ambos. Em ordem alfabética:

A.I. Inteligência Artificial (2001)

É o trailer que absorve toda a sua atenção imediatamente. O feixe de luz que jorra na tela escura nos primeiros segundos é tipo uma representação visual da trilha do Zbgniew Preisner, na qual uma nota aguda surge de repente de um acorde grave. A partir daí parece que você está em um plano transcendental pós-morte, as mensagens na tela falam de um menino que caminha indistinguível em direção à câmera justamente como um fantasma. Depois que você entende que é um robô, parte da letra “A” se solta e forma a sigla “A.I.” – o título -, num truque de design tão perfeito que até hoje tenho vontade de pendurar o logo desse filme na parede do meu quarto.

Bastidores da Comédia (2002)

Eu não sei se é uma impressão estritamente pessoal, mas nos últimos anos parece que a quantidade de trailers contendo aquela narração de voz especificamente grave diminuiu nos últimos anos por ter finalmente ganho um pouco o status de elemento brega – além do fato do Don LaFontaine, o mais famoso locutor de trailers do cinema americano, ter morrido. Em 2002, a coisa já era meio previsível, então quando o trailer de Comedian parodiou todos os clichês e vícios daquele narrador, foi, além de hilário, praticamente uma crítica. No fim, você não fica sabendo nada a respeito do filme, mas passa a querer vê-lo mesmo assim com a esperança de que seja tão engraçado quanto a prévia.

Corpo Fechado (2000)

O quadro é perfeito: em primeiro plano, bem discretamente, uma massa branca respira com dificuldade. Em segundo plano, o Bruce Willis é informado, detalhe por detalhe, que um acidente terrível aconteceu. É o que o Shyamalan sabe – ou sabia – fazer de melhor: sugerir situações grandiosas e catastróficas através da simplicidade e silêncio. Até os flashbacks inúteis entrando no meio da sequência não são o suficiente pra arruinar a beleza da cena.

O Homem Que Não Estava Lá (2001)

Os primeiros 15 segundos do trailer são planos em preto e branco de vários cortes de cabelo descritos pela voz do Billy Bob Thorton; no fundo, a trilha melancólica do Carter Burwell. Por mim, podia parar por aí. Os outros 80 segundos elegantemente montados são só a cobertura do bolo.

Um Homem Sério (2009)

Existe algum outro trailer que utiliza samples? Começa com o som da cabeça do protagonista sendo esmagada numa parede repetidamente, e tal som é mantido e empregado pelo resto do vídeo como uma bateria pro baixo da trilha sonora. Mais samples são adicionados – um coadjuvante dizendo ao protagonista que ele “vai ficar bem”; um rabino tossindo – até formar uma sinfonia de sons e imagens monótona e desesperadora, uma perfeita reflexão da crise existencial do personagem. Pena que o filme não tenha sido tão sofisticado.

Irreversível (2002)

A cena da Mônica Belucci entrando no corredor escuro subterrâneo é entrecortada com takes violentos, e instantaneamente você quer ver o filme pra dizer pro seu cérebro de que forma ele deve correlacionar todos esses eventos. O trailer usa a conhecida mistura de musica clássica com imagens fortes. De alguma forma, no entanto, o resultado é desesperadamente tenso e original. Se na época de Beethoven existisse MTV, este seria o clipe da 7ª Sinfonia.

Pecados Íntimos (2006)

Com rimas visuais que surpreendentemente não soam ridículas, este trailer parece dizer: “Se pessoas comprometidas com corpos sarados se juntam, alguma merda vai acontecer”, só que de forma muito mais elegante e insana.

Primer (2004)

O trailer da obra-prima hi-tech lo-fi de Shane Carruth funciona quase como uma sátira daqueles comerciais “refinados” de cartão de crédito/seguro de vida. “O que é essencial?”; “O que é desejado?”; “Amigos, esposa, filho, lar… Feito.” Esses textos cruzam a tela com fontes estilosas, sobre wipes e gráficos do tipo que ensinam em cursos de publicidade. Shane maliciosamente joga na tela todas as possibilidades do que um ser humano pode querer (amor, justiça, clareza, dinheiro, poder) até chegarmos ao que é “realmente desejado”. É aí que você percebe que o que esses personagens estão construíndo (“you’re talking about making a bigger one”) trará resultados e consequências tão profundas que mal podem ser articuladas.

Sangue Negro (2007)

O protagonista narrador diz “Eu olho para as pessoas e não enxergo nada de que valha a pena gostar” enquanto um bebê chora, e logo depois somos informados de que “there will be blood”. Como alguma coisa pode ser mais assustadora que isso?

Violência Gratuita (2007)

Um trailer que reflete a visão doentia e deturpada dos psicopatas (e não das vítimas, como aconteceria em 99% dos casos) e que encaixa na tese do diretor Michael Haneke sobre como o espectador usa, casualmente, violência como entretenimento. Eu lembro das pessoas no cinema vendo esse trailer e rindo, apesar de ele mostrar uma mãe, um pai e uma criança sendo torturados. Dava até pra imaginar o sorrisinho arrogante aparecendo no rosto do Haneke se ele tivesse na plateia.

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