O Senhor De Todos Os Livros Sobre Estar Preso Numa Ilha Deserta

Postado por Fabiano Ristow

Ficar preso numa ilha deserta é um dos grandes medos do imaginário coletivo, como o monstro debaixo da cama é para a criança. O que é curioso, porque não é um medo que envolve necessariamente a ideia de morte, talvez o suprassumo dos temores do homem – pelo menos não num primeiro nível, porque você não espera morrer imediatamente de fome ou sede como se estivesse à deriva num barco. Você vai comer frutas e se proteger contra a chuva num abrigo improvisado, e o resto você aprende com o tempo, como o Tom Hanks ensinou em “Náufrago”. Claro, ao primeiro sinal de uma doença grave você estará perdido porque não haverá tratamento, mas essa é uma preocupação futura (se você não for hipocondríaco).

O que torna a situação da ilha realmente apavorante, eu acho que é o tédio e desconforto que ela implica. Estar num pedaço de terra sem ter o que fazer, a não ser as coisas básicas para a sobrevivência, comer e beber, e sempre através de muito esforço, sem talheres nem papel higiênico. O terceiro fator, se você chegou à ilha sozinho, é a solidão. Talvez, finalmente, a noção da morte apareça indiretamente aí. Muita gente já se matou por causa dessas coisas.

O fato é que se perder numa ilha deserta tem a aura de uma casa mal assombrada, e todo mundo já brincou de perguntar “o que você faria se fosse parar numa ilha deserta?”, como uma espécie de versão negra e deprimente de “o que você faria se ganhasse na loteria?”. Como consequência, a premissa foi, é e será explorada pelos livros e filmes. Não só ela, como também os temas que aprendemos a esperar dela, de uma história sobre uma ou um grupo de pessoas isoladas da civilização por tempo indeterminado e perdendo a esperança de serem salvas: o retorno à selvageria, o lado obscuro da natureza humana, o medo do desconhecido e a relação com o poder.

São temas praticamente obrigatórios nessas histórias, onde, no caso de um grupo de pessoas, elas precisam conviver umas com as outras num espaço físico limitado por tempo ilimitado. Isso é aterrorizante: lidar com o jeito do outro sem que em um momento específico uma autoridade possa interferir e apontar quem está errado – e mesmo que você seja julgado como o errado, pelo menos é um ponto final na história, para que você possa continuar a vida e seguir para outras preocupações. Eu acho que esse é um conforto em todos os conflitos humanos, e também o que os torna suportáveis: saber que em algum momento eles vão acabar, que em algum momento você poderá dizer “então deixe a Justiça decidir”. E mesmo que você não possa fazer isso, mesmo que não possa delegar o fardo da decisão a qualquer outra coisa que não você, ainda existe a segunda opção, que é sair de perto. O Big Brother só é possível porque termina 3 meses depois, o casamento sem amor só é possível porque você pode pedir o divórcio.

Não ter o conforto da certeza de que os problemas são passageiros é mais do que aterrorizante, é enlouquecedor. A loucura, inclusive, é mais um tema recorrente em histórias de ilhas desertas. Nelas, as dificuldades não têm um fim delineado e a solução não é certa, porque os instrumentos a que você sempre recorre para superar empecilhos não estão lá. É um mundo imprevisível. A gente quer saber o que aconteceria com essas pessoas em convívio forçado e sem governo – ou obrigadas a formar o seu próprio sistema de governo -, e é por isso que essas histórias são atraentes. E elas podem se manifestar de várias formas. Não precisam necessariamente se passar numa ilha. Podem ser numa prisão, como em “Ensaio sobre a cegueira”, ou numa casa, como em “O anjo exterminador“.

“O Senhor das Moscas” é apenas mais uma dessas histórias com essa premissa, só que com o cenário clássico. Quando foi publicada na década de 50, não era novidade. Robinson Crusoé foi escrito séculos antes. Mas “Moscas” tem uma diferença crucial e envigorante: os presos na ilha são crianças. Não é mesmice. É incrível. É sobre uma ilha e alguns mistérios, mas é sólida e penetrante como “Lost” nunca poderia ter sido, porque tem personagens fortes. É sobre crianças que precisam se reunir para criar regras e decidir o que é o certo e o errado e que acabam chegando num resultado desastroso.

É claro que a relação dessas crianças é uma representação da sociedade em geral, porque o livro é um clássico, e clássicos falam sobre coisas importantes ou maiores do que parecem ser. Apesar de as atitudes dos meninos-de-12-anos-para-baixo serem marcadas pela ingenuidade/impulsividade característica da idade, eles são guiados e eventualmente prejudicados por denominadores comuns a qualquer estrutura política e social.

Ao tomarem uma lança e caçar, ao convencerem alguém através de argumentos e ao humilharem uma outra criança usando palavras ou a força, os meninos são tomados pelo prazer de se sentirem uma autoridade. O que evita que a gente veja esses comportamentos e pensamentos como meros delírios infantis é a facilidade com que conseguimos reconhecê-los à nossa volta, na vida real, o tempo inteiro. No livro, os menores sonham com monstros e bichos e são logo caçoados pelos maiores, mas até os mais velhos sabem pouco da vida, e, influenciados pelas noites, as tempestades, a escuridão, a floresta, o frio e o silêncio, inevitavelmente se perguntam: e se houver mesmo um monstro? Bem, na vida real, graças a essa pergunta, coisas como a religião são possíveis.

Ao longo do livro existe um arco muito claro que começa com dias alegres até o horror. O começo tem o tom de uma história fantástica infantil, o final tem o peso de uma tragédia repugnante, e a última página faz querer chorar. Na luta das crianças para, primeiro, atingir o senso comum e, depois, para defender os seus lados, dá para identificar grandes questões do mundo real e outras pessoais, situações do trabalho ou em casa ou no bar, ou onde quer que você esteja interagindo com outras pessoas. A diferença é que os personagens de “Moscas” não podem sair daquele lugar. E como são crianças, dá pena. Mas talvez o grande golpe do livro não seja só a carga dramática, e sim, igualmente, o reconhecimento de que, mais do que identificar o mundo real naquela ilha, você identifica a ilha e aqueles atos infantis em todas as pessoas supostamente maduras com quem você convive.

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em Literatura

3 Respostas para “O Senhor De Todos Os Livros Sobre Estar Preso Numa Ilha Deserta

  1. Fernanda Costalonga

    nossa, amei o seu texto, Fabiano… e o livro é tudo isso mesmo, vale a pena ler!

  2. tenho esse livro há séculos, nunca me animei de verdade em ler. mas agora depois desse seu post, tá na lista dos livros para serem lidos ainda este ano.

  3. A parte mais triste do livro é ver/ler o Porquinho ( ri muito lendo este nome ) morrer, atacado pelos selvagens, cego sem os óculos, pedindo para Ralph o proteger.

    William Golding fez parte das minhas férias de verão.

    Abraço e parabéns pelo blog.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s