A Origem Da Conquista Do Planeta Dos Macacos Também Se Levanta

Postado por Rodrigo Pinder

O título original de Planeta dos Macacos: A Origem é Rise of the Planet of the Apes, similar a G.I. Joe: The Rise of Cobra, aqui chamado de A Origem de Cobra, ou quiçá o próximo filme de Christopher Nolan, The Dark Knight Rises, mas definitivamente não como o filme anterior de Christopher Nolan, A Origem. Seria concebível alguém enxergar um padrão aí, talvez um serial killer que decifrou uma mensagem nesse padrão depois de uma maratona de Fringe e decidiu se fantasiar de macaco e matar o John Lightgow, que além de estar em Planeta também participou da série Third Rock From The Sun com Joseph-Gordon Levitt, que por sua vez está em A OrigemRise of Cobra e The Dark Knight Rises. Hello. Is this on?

Oi. Por motivos entediantes demais pra comentar, faz mais de um ano que eu não escrevo aqui. Decidi voltar em fluxo de consciência seguindo o “raciocínio” mais imbecil que consegui pensar porque eu escolhi falar de um filme de ação com pretensões sci-fi que não faz o menor sentido. Não me entendam mal, Planeta dos Macacos: A Origem é um bom filme e tem grandes momentos. E, claro, 100% deles envolvem macacos. O problema, como já se suspeitava desde o trailer, é o quociente Homo Sapiens, que parece ter sido definhado de propósito, como se torna-lo psicologicamente bidimensional deixasse os macacos mais verossímeis como criaturas visualmente tridimensionais, ou algo assim. Acompanhem-me enquanto eu tento explicar o que diabos eu estou dizendo, se é que eu ainda me lembro como se usa isso aqui.

A boa notícia é que a manipulação emocional não é nem de longe tão descarada como em Avatar  há pelo menos a tentativa de balancear as coisas. Por mais que a PETA queira fazer você acreditar no contrário, Planeta dos Macacos: A Origem não odeia humanos, pelo menos não da forma indiscriminada e cheia de entusiasmo que alguns amantes de animais parecem compartilhar. Talvez seja de bom-tom mencionar que eu sou totalmente a favor de macacos, especialmente os grandes símios retratados no filme. Eu os acho fascinantes e acredito que tem tanto direito à vida quanto nós. Sim, eles são meus parentes, e é peculiarmente empolgante vê-los fazendo coisas que teoricamente não conseguiriam fazer. Mas eu tenho parentes mais próximos, que são extremamente entediantes de assistir sendo pessoas estúpidas e/ou desinteressantes que agem de formas inexplicáveis e/ou contraditórias.

Oh, sim. É um daqueles filmes, onde em geral a motivação se resume a “porque está no roteiro.” Considere, por exemplo, o chefe de James Franco, cujo nome eu não lembro então vamos chamar de Corporate Asshole. Corporate Asshole é o maior antagonista do filme, e no terceiro ato sua ganância histérica e irresponsável tem consequências desastrosas.  O problema é que para chegarmos lá sua postura tem que fazer um 180 completo sem a menor explicação, já que no primeiro ato James Franco (que vamos chamar de James Franco) só adota nosso herói, o chimpanzé Caesar, porque Corporate Asshole é paranóico o suficiente sobre riscos de contaminação para mandar sacrificar todos os macacos inoculados com o vírus mágico que James Franco inventou para curar o Alzheimer. Talvez Coporate Asshole seja bipolar, mas eu acredito ser mais provável que o roteiro tenha sido apressado em diversos pontos.

Por falar em James Franco e Alzheimer, há também incômodos problemas de tom no Planeta dos Humanos, envolvendo especificamente aqueles humanos pelos quais você teoricamente deveria sentir alguma conexão emocional, ou no mínimo não torcer para que morressem. Franco, sua bela namorada indiana [1] Freida Pinto e seu pai John Lightgow (sim, ele tem Alzheimer) são tão cheios de boas intenções quanto o Inferno, mas quando o Franco está tão entediado quanto estava no Oscar e Lightgow parece fazer parte de algum skit de comédia peculiarmente controverso, não dá pra levar os conflitos dramáticos muito a sério. Nesse aspecto o pior elemento é o coitado do vizinho. O que começa como dano colateral acaba como punição cruel por sabe-se lá quais pecados. O cara só estava querendo proteger a própria família e propriedade, jesus.

Esses são os problemas fundamentais, não detalhes como os números que Caesar consegue juntar em seu exército (estima-se que o total de grandes símios em São Francisco seja algo em torno de 25), tampouco a velocidade de aprendizado necessária para organiza-lo. Em menos de duas horas acompanhamos o protagonista da infância ao cativeiro à liderança de um povo. É uma história de heroísmo (o que vai criar uma bela mudança de tom quando chegar a hora de fazer aquela sequência distópica, mas enfim); Caesar é Spartacus, e a logística exata de como ele libertou os escravos não é terrivelmente importante. Veja bem, eu não sou um cientista. Eu sou um homem simples, um homem que vê filmes. Mas eu tenho quase certeza de que a ficção científica aqui tem uma grande ênfase na parte da “ficção.” Eu confesso não lembrar quase nada da série original, mas, se não me engano, os humanos haviam sido dizimados por causa da boa e velha Terceira Guerra Mundial, ou algo parecido. Aqui nós temos um vírus que não apenas torna macacos hiperinteligentes, bem como mata pessoas horrivelmente. Ou seja, uma forma de vida cuja existência parece ter o único propósito de criar a trama de Planeta dos Macacos: A Origem.

Mas e os macacos? Bom, Andy Serkis está obviamente se tornando o maior especialista do mundo em motion capture de criaturas, e os efeitos são ótimos, dentro das limitações. Tendo intenções de fotorrealismo ou não, CGI ainda é animação, afinal. Fazer o King Kong não é muito diferente de fazer o Buzz Lightyear. Caso houvessem alternado entre símios de verdade e virtuais, todavia, os efeitos seriam mais óbvios ainda. Desse jeito, além de não enfurecer ativistas, há uma ampla variedade de escolhas de detalhes para deixar os macacos mais diferentes entre si, criando personagens visualmente únicos com os quais a platéia tem tempo de se acostumar. Esses personagens são o suficiente para gerar um número satisfatório de set-pieces que envolvem os macacos formando sua hierarquia, silenciosamente conspirando e, finalmente, escapando pela Golden Gate numa daqueles raras sequências de ação onde você entende tudo que está acontecendo (oi, Michael Bay).

Eu estou evitando falar sobre subtexto social porque eu desconfio que ele não existe. Sejamos francos, no entanto: a série original nunca teve uma mensagem muito elaborada e a premissa obviamente surgiu em alguma viagem de ácido. Eu suponho que naquela época qualquer cenário que misturasse apocalipse com insurgência seria relevante de uma forma ou de outra. Mas e A Origem? O que este filme está dizendo, exatamente? Isso importa? Discutam, sociólogos. Seja como for, se você parar pra pensar, a dinâmica é quase sui generis: estamos vendo uma revolução do ponto de vista de uma classe desprivilegiada que tem uma vantagem inédita pelo fato de seus captores mal fazerem idéia de que eles tem uma linguagem. Bom, pelo menos até até o momento em que alguém diz “Take your stinkin’ paws off me, you damn dirty ape!” E se você tem sangue correndo nas veias, quando esse momento chegar você vai sentir que valeu à pena pagar pelo ingresso.

[1] Grande variedade étnica nesse filme. Até Corporate Asshole é um negro com sotaque britânico.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Atualidade, Ciência e Tecnologia, Cinema

2 Respostas para “A Origem Da Conquista Do Planeta Dos Macacos Também Se Levanta

  1. Vou me resumir a um curti (o texto, ainda não assisti ao filme), se é que tal opinião seja de alguma relevância.

  2. Na minha sessão, no momento do “Take your stinkin blablabla”, um cara gritou “TÁÁÁÁÁ POXA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!” e deu pra ouvir uma mistura de gritos e gente prendendo a respiração abruptamente. Foi realmente impactante.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s