Arquivo da categoria: Geral

Isto é Isto é Água

Postado por Luis Calil

Traduzi um texto sensacional do David Foster Wallace (chamado This is Water) pra um amigo, e o Sr. Fabiano Ristow sugeriu que eu poste o texto aqui no blog. Três coisas que vocês precisam saber antes de ler:

1) Wallace foi um dos escritores mais aclamados e respeitados das últimas décadas. Infelizmente, poucos textos dele foram traduzidos para o português. Ele tinha uma intensa curiosidade sobre praticamente qualquer tema, e uma incrível, profunda autoconsciência. E ele também era hilário. Se matou em 2008, aos 46 anos de idade, depois de uma longa batalha contra a depressão. Eu odeio escrever mini-biografias.

2) Já existe uma tradução desse texto vagando por aí, mas a minha é melhor, porque eu a fiz. QED.

3) Esse texto é na verdade um discurso de graduação que ele fez em 2005, na universidade onde ele dava aula. Quando caiu na internet, o texto fez bastante sucesso. Por que? Eu não ousaria tentar explicar a mágica dele. Vai fundo:

***

ISTO É ÁGUA
David Foster Wallace

Há dois peixes jovens nadando ao longo de um rio, e eles por acaso encontram um peixe mais velho nadando na direção oposta, que pisca para eles e diz, “Bom dia, rapazes, como está a água?”. E os dois peixes jovens continuam nadando por um tempo, e então um deles olha pro outro e diz, “Que diabos é água?”.

Se você está preocupado pensando que eu estou planejando me apresentar aqui como o peixe velho e sábio explicando o que é água, por favor não fique. Eu não sou o peixe velho e sábio. O ponto imediato da história dos peixes é que as realidades mais óbvias, ubíquas e importantes são frequentemente as mais difíceis de se ver e discutir. Declarada como uma frase, é claro, isso é só um lugar-comum banal – mas o fato é que, nas trincheiras diárias da existência adulta, lugares-comuns banais podem ter importância de vida ou morte.

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High School Classical

Postado por Fabiano Ristow

“Quem é fã de Penderecki?”

Daí que o ensino de música passa a ser obrigatório nas escolas a partir do ano que vem, o que pareceu uma ideia muito bacana até o momento em que não pareceu mais. Fui então regredindo em uma série de pensamentos aterrorizantes e culposos, a começar pela pergunta: mas o que a música ensina?

Ensina concentração, cooperação, linguagem e memória. É o argumento pedagógico. Ok, aprender a tocar instrumentos desenvolve todas essas habilidades. Isso provavelmente é muito útil para as crianças e encerra a questão da validade do ensino de música nas escolas.

Se eu tivesse tendo essa discussão ao vivo, é possível que eu concordasse com a conclusão, mas iria embora pensando com os meus botões: ok, é válido, mas não teriam outros assuntos mais válidos para se ensinar?

Eu odiava quando meus amigos falavam que Química e Física não adiantavam pra porra nenhuma, que eles fariam Letras ou Jornalismo e todas aquelas fórmulas e leis não adiantariam para nada. Aí eu, que já sabia que faria Jornalismo e teoricamente era para concordar com eles, dava a resposta pedagógica e fácil: “Vocês acham que essas matérias são inúteis, mas elas estão desenvolvendo em vocês o raciocínio lógico, a memória, a concentração, habilidades que serão úteis em qualquer profissão”, etc.

O problema é que logo depois que eu saí da escola eu percebi que tinha uma carência absurda de conhecimento a respeito de coisas práticas e importantes para a Humanidade. Por exemplo, economia e política. Aí eu pensei: certo, Química e Física desenvolvem todas aquelas habilidades e tudo, mas outros assuntos não teriam sido mais válidos? Aos 16 anos, você já pode eleger um presidente que vai definir, no mínimo, o futuro de um PAÍS. Se fosse obrigatório nas escolas o ensino de economia e política, você poderia tomar essa decisão de forma muito mais consciente e embasada, e contribuir para um mundo melhor e tudo o mais. Não seria mais útil?

Acontece que sair por aí defendendo o fim da Física, da Química (e da Música) seria de uma irracionalidade e pateticismo formidáveis, até porque, para muitos (muitos), essas matérias acabam sendo úteis na prática, e quem sou eu para definir uma grade escolar sentenciando o que deve sair para entrar Política e Economia. Isso significa que eu não vou defender nenhuma posição sobre essa questão. Então vou retomar de onde parei: aprender a tocar instrumentos musicais na escola é útil porque ensina um monte de habilidades.

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A Arte De Arruinar A Diversão Alheia

Postado por Rodrigo Pinder

partypooper

Como este será um post informal (i.e. inútil), valerei-me da velha técnica de começar com uma anedota para ganhar simpatia.

Eu devia ter uns 13 ou 14 anos quando fui ao cinema ver Anjo Malvado (aquele onde o primo do Frodo, Macaulay Culkin, é um anjo malvado). O filme abre com um jogo de futebol colegial (meados de 90 foi a época em que o soccer começou a ficar semi-popular nos EUA) e, como esperado, alguém faz um gol. Nesse momento, um homem sentado no fundão da sala se levantou e gritou GOOOOOOOOL! com toda força de seus pulmões. Todo mundo riu. Foi a melhor parte do filme. E o cara não abriu mais a boca até o final.

Esse momento ficou gravado na minha memória mais do que o próprio filme [1], evidência de que esse tipo de manifestação inspirada é raríssimo.

As verbalizações mais freqüentes são invariavelmente inúteis e quase certamente incômodas, a sala de cinema tratada como a sala da casa da mãe no almoço de Domingo. Isso faz meu sangue ferver. Eu entenderia se alguém gritasse “fogo” ou “estupro”, ou algo do tipo. Nesses casos hipotéticos eu até apoiaria interromper a projeção e acender as luzes. Mas esses casos hipotéticos nunca aconteceram em nenhuma das sessões em que estive. Papo furado, no entanto, sempre foi quase certeza.

Decidido a fazer alguma coisa, embarquei em uma pesquisa antropológica onde defini os conceitos básicos da Arte De Arruinar A Diversão Alheia (ou ADAADA, porque eu gosto de palíndromos). A mais importante descoberta foi que, apesar da espontaneidade e do improviso serem inerentes à pratica desse hábito, é possível definir sete grupos que compartilham certos padrões de comportamento. Conheça-os após o jump.

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Recapitulando: 13/07/08

Postado por Luis Calil

Discreto Blog inicia sua campanha para a presidência da França.

Esta semana, aprendemos que:

*A linha que separa comédias do Blake Edwards de O Exorcista é espantosamente tênue.

*Os últimos 21 anos nos proporcionaram uma série de filmes incríveis.

*A Carla Bruni, além de ser fenomentalmente atraente, canta bem e tá pegando o presidente da França. Ponto para Sarkozy.

E em homenagem ao mestre avant-garde Stan Brakhage (citado numa das listas), aqui vai um dos meus curtas favoritos dele, Black Ice (1994):

“Imagine um olho não governado por leis de perspectiva criadas por homens, um olho não influenciado por lógica de composição, um olho que não responde ao nome de tudo mas que deve conhecer cada objeto encontrado na vida através da aventura da percepção. Quantas cores há num campo gramado para o bebê que engatinha, ainda não consciente do ‘Verde’? Quantos arcos-íris a luz pode criar para um olho desprovido de tutela? Imagine um mundo vivo povoado de objetos incompreensíveis e cintilando ao longo de uma gama infinita de movimentos e de inúmeras gradações de cor. Imagine um mundo ‘anterior ao conhecimento, antes de a palavra ser.'”
– Stan Brakhage

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TV Bruni

Postado por Fabiano Ristow

Peço desculpas aos leitores do Discreto Blog por não participar dos posts anteriores, mas é que dias atrás tomei um gole estupidamente gelado de água sob um forte sol, o que causou em mim uma paralisia cerebral calafedolótica, um famoso efeito que induz um coma de alguns dias. Já estou melhor. Além disso, arrumei um emprego, porque alguém nesse blog tem que ganhar a vida.

De qualquer forma, fica registrado que sim, Mal dos Trópicos é o melhor filme da extensa lista abaixo. Estamos falando de um romance/terror que não se contenta em observar o ser humano; ele precisa abri-lo por dentro, depois destroçar sua alma, até alcançar a inominável natureza que nos constitui e nos condiciona a animais que caçam e se deixam ser caçados.

***

O Rio de Janeiro ganhou algo extraordinário ultimamente: TVs de plasma nos ônibus da linha 2016. Por um lado, me admira o esforço da equipe responsável pela produção de conteúdo dos programas que são exibidos: dificilmente me deparo com vídeos repetidos. Por outro, o conteúdo é tão ruim que não dá pra desgrudar os olhos da tela, o que me causa enjôo, literalmente.

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Recapitulando: 06/07/08

Postado por Luis Calil

“Nem tudo são flores.”

Esta semana, aprendemos que:

*Rodrigo Pinder acredita que a melhor forma de descrever Agente 86 é compará-lo a uma sopa fria à base de vegetais hortícolas.

*Rejeitar e espancar o seu filho pentelho é um ato “heróico”, segundo Fabiano Ristow.

*Cloverfield falhou pois Syd Field e a realidade não são compatíveis.

*Mesmo depois de passar 6 anos em cativeiro com guerrilheiros, pegar uma porrada de doenças e sofrer, Ingrid Betancourt ainda consegue ser mais sensata que Fabiano Ristow.

*Trailers são ruins, executivos de Hollywood fazem más escolhas, e Nicolas Cage é calvo.

*Aparentemente, o papel mais memorável de Mathieu Almaric, um dos maiores atores vivos, foi uma pontinha em Munique.

E para continuar o Humor Radioheadiano de semana passada, aqui vai um vídeo onde Thom Yorke (o vocalista) e Ed O’Brien (guitarrista) fazem sexo no palco, a partir de 1:30, durante uma performance de “Myxomatosis”:

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Recapitulando: 29/06/08

Postado por Luis Calil

No book for you!

Esta semana, aprendemos que:

*O Yahoo está desenvolvendo uma tecnologia de leitura mental, e testando-a em seus usuários.

*Fabiano Ristow acha que os leitores do Discreto Blog são vilões imorais anti-semitas, e recomenda um livro.

*Literatura é inútil, e deve ser excluída da sociedade o mais rápido possível, como uma praga. Para substituí-la, usaremos gráficos.

*Aquela música histérica e bombástica que você ouve em trailers de blockbusters foi composta por uma banda com um nome altamente pretensioso. (“Experimental Sounds”? Não tão enganando ninguém)

*Ristow tenta resistir à abolição da literatura, mas, como todo mundo sabe:

*Um jeito infalível de conseguir um emprego na Pixar é falar em público como eles devem fazer o trabalho deles.

*Rodrigo foi à padaria e não voltou mais. Quem pode culpá-lo?

E algum gênio fez esse Overdub de “15 Step” do Radiohead:

Reflita sobre isso, enquanto eu tento parar de rir.

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