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Tweets #perspicazes, #politizados

Postado por Fabiano Ristow

Um dos mais graves problemas de uma sociedade não-educada (e.g. Brasil) é a falta de autoconsciência de seus integrantes, e as eleições da Era Twitter conseguiram explicar pra gente um pouco mais da profundidade dessa doença.

Os sintomas começaram muito antes das eleições, quando as pessoas perceberam que poderiam bancar o quinto poder e bater na imprensa, sentir aquele prazer de afetar o que seria “intocável”. Para isso, bastava metralhar um xingamento, pedir para os seus amigos retuitarem, e em poucas horas a expressão estaria em exposição nos trending topics mundiais, deixando os homens de preto que comandam a mídia maligna constrangidos diante da comunidade internacional. Além disso, sabe-se que dar reply obriga o seu tweet a aparecer na timeline do seu alvo, o que na escala do Crítico equivale a penetrar na sede de um serviço de inteligência proferindo verdades inconvenientes. Embriagadas com esse poder, as pessoas então evacuaram tweets direcionados a jornais, revistas e jornalistas.

Eu acho que essa vontade de criticar a imprensa devia ser uma espécie de desejo reprimido ao longo de muitas décadas, e, como geralmente acontece quando desejos reprimidos são liberados, as pessoas passaram a agir de forma irracional e contraditória.

Por exemplo, acusando a imprensa de parcialidade (era sempre um choque quando eu lia um tweet com essa informação extremamente original e ousada) e em seguida mandando o link de um blog obscuro de algum jornalista demitido e partidário (obviamente o símbolo da análise equilibrada e precisa). Ou dizendo que a imprensa acusa sem provas e em seguida encaminhando aos seus 80 contatos um email-spam com um texto com letra fonte 27 e frases como “REPASSE . . . NÃO SE ESQUEÇA TEMOS 87% DE NOSSA POPULAÇÃO NA INTERNET” explicando por quê o candidato é o Diabo e contendo histórias obviamente verídicas (já que o texto não está atrelado aos interesses negros dos grandes editores). De forma geral, todos passaram de vitimas da Grande Imprensa a estudiosos da imprensa, e o Brasil, como já disseram, virou a faculdade de Comunicação mais chata do mundo.

(Só reforçando que meu problema não é com as críticas à imprensa, que deve ser questionada, sim. É com essa coisa de falar e fazer pior, entende.)

Uma das maravilhas que os brasileiros descobriram no Twitter é que eles poderiam legitimar a Crítica Sem Embasamento, por causa do limite de caracteres. Antes, era meio complicado criticar num blog porque blog está relacionado ao conceito de “texto”, que por sua vez está relacionado ao conceito de argumentação, o que é um pesadelo para uma sociedade não-educada (e.g. Brasil). As Críticas Sem Embasamento vieram, principalmente, em forma de piadinhas envolvendo a afetação física e a roupa dos candidatos (“Serra é o Pink do Pink e Cérebro #fato” / “HAHAH GENIO RT A Dilma parece o Walter Mercado masculinizado”, etc), provavelmente porque o brasileiro tem essa noção de que Humor = stand up comedy brasileira (um lágrima acaba de escorrer sobre meu rosto).

Vieram também na forma de uma coisa que surge quase que automaticamente quando você tem o ambiente perfeito para falar sem ser questionado (se alguém te der reply sempre existe a opção de ignorar ou, melhor ainda, bloquear): o extremismo. O extremismo é um recurso maravilhosamente conveniente e satisfatório pra quem não tem ideia do que está falando, porque você pode até falar de forma vaga, mas fala tão enfaticamente que passa a ter a ilusão que a pessoa do outro lado vai pensar: “Caramba, se ele é tão contundente e seguro nessa opinião, então ela só pode ser verdadeira”. Ou seja, é a arma perfeita para disfarçar a própria ignorância e insegurança, e você nem precisa argumentar. Imagina o prazer que isso dá.

O mais incrível é que uma quantidade assustadora desses comportamentos parece ter sido engatilhada totalmente inconscientemente. Quase não se parou para pensar: “Meu Deus, o que eu estou falando?”. A internet tem uma característica terrível que é registrar tudo o que você fala. Daqui a alguns anos, essas pessoas vão ler o que escreveram, e aí vai valer como dez anos de terapia. Aliás, o que as eleições na Era Twitter nos ensinaram, principalmente, é que o brasileiro precisa de terapia. O Bonner acabou de anunciar na televisão que a Dilma está eleita, se for esperta ela faz o Bolsa Psicologia.

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Toda a perspicácia da nossa PF

Postado por Fabiano Ristow

O assunto da moda é o banqueiro Daniel Dantas [1]. Porque sim, pra quem ainda não percebeu, existem modas no universo noticioso.

Elas não são desencadeadas pelas estações do ano, precisam se ajustar às idiossincrasias jornalísticas. O gatilho geralmente é um evento isolado que abre uma seqüência de outros semelhantes.

Se a Madeleine some, somem mais 300 crianças na semana seguinte. Se um avião bate, explode e mata 199 pessoas, logo batem e explodem outros cinco dias depois. Se a Isabella é arremessada do sexto andar pelo pai, em pouco tempo vários outros pais vão se predispor a matar seus filhos das formas mais formidavelmente apavorantes [2].

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Como eu dizia, a bola da vez é o Daniel Dantas. O caso até ganhou repercussão lá fora, só que um jornal italiano publicou a foto do ator, não do banqueiro. A gente instantaneamente pensa que só um jornalista muito retardado e sem a menor capacidade de apuração cometeria tão tresloucado ato.

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Yahoo Leu Minha Mente

Postado por Luis Calil


Uma das vantagens de dormir com a TV ligada na CNN (além de te fazer pegar no sono com facilidade) é que você sem-querer-querendo acaba se atualizando em notícias mundiais. Uns dias atrás eu acordei enxergando cenas de um resgate de helicóptero; estavam removendo pessoas de uma área perigosa em outra enchente nos EUA. Imediatamente, um pensamento idiota entrou na minha cabeça e ficou lá, enchendo o meu saco pelos próximos 25 minutos:

O mundo está um caos. Tá tudo indo pra merda.

Eu já havia argumentado contra essa idéia pra algumas pessoas, falando que a nossa impressão de violência crescente e frequentes catástrofes são apenas (ou em parte) um efeito da nossa evolução em transmissão de informações e crescimento populacional; há inclusive uma dissertação do Daniel Dennett ou Steve Pinker em algum lugar na internet apoiando essa explicação (não consigo achar), e o protagonista de As Invasões Bárbaras tem um monólogo no filme justamente sobre isso.

Mas talvez eu estivesse errado. Digo, mais enchentes? Terremotos violentos na China, Peru; teve até um em São Paulo onde terremotos costumam não acontecer. Aviões caindo no Quênia. A economia podre nos EUA gerando um grande número de demissões em jornais (eu sei disso porque os críticos de cinema levam o maior ferro; são o elemento mais “dispensável”). Lembrei até da locadora onde eu trabalho, o meu chefe constamente me lembrando de que o número de locações caiu violentamente nos últimos anos. Estaríamos chegando no “Fim dos Tempos”? Se sim, ele seria tão esteticamente desengonçado quanto o novo filme de M. Night Shyamalan (estrelando Marky Mark)?

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