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Uncle Boonmee Que Lembra o Outro Filme do Joe

Postado por Fabiano Ristow

“Até que enfim”

Um monstro bizarro de olhos vermelhos surgir no escuro depois de uma sequência de uns dez minutos mostrando nada além de um búfalo na floresta, em “Uncle Boonmee”, soou, por incrível que pareça, previsível, ainda que essa seja uma das primeiras cenas. Foi uma espécie de deja vu. Eu reagi exatamente da mesma forma que os personagens reagem quando, pela primeira vez (no filme, não na vida deles), ficam diante de um evento sobrenatural e abrupto: momentaneamente surpreso, mas não exatamente impressionado, apesar do Joe (ou Apichatpong Weerasethakul, prefiro o mais fácil – embora eu saiba pronunciar a versão tailandesa) conseguir aqui materializar essas cenas absurdas da forma mais elegante até hoje.

Provavelmente também da mesma forma que Joe reage quando vê um fantasma na vida real. Numa noite em um hotel em Paris, ele viu uma mulher de branco desaparecer perto da cama dele, ficando transparente, “como em um filme”, ele descreveu. Cineastas competentes geralmente conseguem transportar uma situação real para as telas mantendo as implicações e atmosfera do evento original; quando esse momento envolve um fator incomum e estranho, no entanto, é preciso de um diretor num patamar acima.

Em estilo, tema e humor, “Uncle Boonmee” poderia ser uma continuação de “Mal dos trópicos”. Ele, mais uma vez, coloca monstros, espíritos e animais falantes na nossa frente sem recorrer com antecedência a nenhuma estratégia narrativa convencional (e.g. com o objetido de nos fazer aceitar fantasia) e ainda assim PLAYS naturalmente. Na realidade, a essa altura do campeonato, vendo “Boonmee”, eu sequer me sinto assistindo a uma fantasia, o que talvez seja o trunfo do Joe. O que, obviamente, não torna menos engraçado e incrível quando uma pessoa diz para a mãe que copulou com um macaco.

Sobre o que essas relações íntimas e cruas entre homem (e mulher) e natureza significam, eu tenho minhas teorias pretensiosas, mas, no caso de “Boonmee”, estão conectadas entre si muito mais numa esfera emocional do que racional – diferentemente de “Mal dos trópicos”, onde eu conseguia enxergar um ponto claro sobre o papel do amor e da sexualidade. Agora, é mais como se eu estivesse vendo borrado, sem conseguir detectar onde termina uma forma. Mas se o Joe me perguntasse numa festa se eu entendi o filme, com sorte eu diria “sim”, caso eu já tivesse tomado mais que três taças de vinho.

Ainda que eu não necessariamente concorde. Pra mim é óbvia a mensagem sobre um retorno à natureza e o papel que a tecnologia e o nosso estilo de vida desempenham para impedir isso – morra de surpresa, há uma parte do filme que se passa no campo e outra na cidade -, mas se existe alguma valorização em relação a esse processo, se é uma apreciação (espero que não) ou apenas uma constatação, não sei, ou não me importo, enfim. A forma com que o Joe pinta isso é poderosa por si só. Tem uma cena mais para o fim que é uma das coisas mais aterrorizantes, claustrofóbicas e misteriosas dos últimos tempos – ela é filmada com a câmera na mão, e a simples mudança imprevisível de estilo imediatamente já eleva a tensão.

Mas ver “Boonmee” foi como ver um filme excelente pela segunda vez, já sabendo dos spoilers. Você consegue se empolgar, mas não se surpreende mais, nem é tão mágico quanto a primeira assistida. E, mesmo se fosse o meu primeiro filme do Joe, não faria cócegas em “Mal dos trópicos” (e ainda acho “Síndromes e um século” mais legal, ironicamente por razões opostas: muito menos pela bizarrice, mais pela tranquilidade). Eu acho que todo mundo que votou em “Boonmee” em Cannes nesse ano viu a filmagrafia do Joe no ano passado, e pensou que seria uma ótima ideia premiá-lo pelo conjunto da obra e pelo tempo que o mundo perdeu sem a visibilidade que ele merece. Eu teria feito o mesmo.

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Advogado do Diabo: A Ingrata Tarefa de Defender Anticristo

Postado por Rodrigo Pinder

boo

Nenhum filme fez mais barulho em Cannes do que Anticristo, inclusive no senso literal: risos e gemidos incrédulos durante os momentos mais chocantes da projeção foram um mero prelúdio para a trilha cacofônica de aplausos e vaias (as vaias venceram) que acompanhou os créditos finais. Críticos estupefatos imediatamente condenaram-no como ofensivo, questionando sua presença entre a seleção oficial do festival; alguns ficaram especialmente indignados ao descobrir que Lars Von Trier dedicara um filme contendo mutilação genital explícita a Andrei Tarkovsky.

A fogueira estava acesa, e o júri ecumênico (cuja função habitual é premiar um filme que promova “valores espirituais e humanistas”) se sentiu na obrigação de despejar mais lenha, desdobrando uma manobra agressiva: Anticristo recebeu um Antiprêmio (lol), por sua “visão misógina.” O júri de verdade, por sua vez, indicou-o à Palma de Ouro e premiou Charlotte Gainsbourg por sua (corajosa, assustadora) atuação. A verdade é que o filme estava fadado a provocar controvérsias e reações radicais do tipo ame-ou-odeie desde sua concepção.

Quando lidando com uma obra extremamente pessoal e totalmente destituída de convenções de gênero (apesar de vendida como “terror”), é difícil tentar impor uma síntese dialética à sua recepção e chegar a um consenso do tipo “fãs de isso e aquilo vão gostar.” Sua apreciação vai depender muito do quanto você se sintonizar com a sensibilidade bizarra do filme. Mas isso não funciona para a mídia, que trabalha com rótulos de caracteres limitados. Afinal, seria Anticristo uma bomba, uma piada, uma obra-prima ou o quê?

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