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SPIFF – Sábado 25

Postado por Luis Calil

Leonera (Pablo Trapero) – 7
Um daqueles casos onde o filme vai discretamente te fisgando: a primeira meia hora, introduzindo a situação da protagonista – uma mulher presa por assassinato e colocada na ala de maternidade de uma cadeia por estar grávida – se mantém num modo de observação naturalista respeitosa, sem nenhum aparente rumo, e embora o ambiente seja interessante (e inovador – não lembro de outros filmes sobre maternidade na cadeia), não parece que o filme vai chegar em lugar algum. De repente, o tédio sumiu, e eu notei que estava tentando segurar lágrimas – isso porque Trapero foge da brutalidade de filmes de cadeia e mostra a rotina da protagonista com extrema sensibilidade. E na segunda metade, o drama propriamente dito surge e dá um motor pra narrativa, que vira uma luta de uma mãe pelo seu filho, com direito a tensão Dardennesca. Tematicamente e psicologicamente simples, mas feito com bom gosto e inteligência.

Revanche (Gotz Spielmann) – 6
Gostaria de rever Revanche quando eu estivesse menos sonolento (o motivo desse sono eu não consigo compreender; a noite anterior foi a que eu mais dormi nessa semana). Não que eu tenha dormido durante a sessão, mas em alguns trechos eu tive que travar uma batalha com minhas palpebras, o que desviou a minha atenção de um filme que requer extrema concentração. O estilo de Spielmann é simples, sutil e quase clássico, sempre cortando no lugar certo, mexendo a camera na hora certa e mantendo um ritmo constante. E embora a premissa seja meio batida – é sobre vingança – ela é desenvolvida com bom gosto e inteligência (hoje foi o dia de bom gosto e inteligência). Mas eu acredito que mesmo uma experiência totalmente lúcida não ia acabar com a minha suspeita de que o filme poderia ter perdido uns 30 minutos (ou mantido um ritmo levemente mais veloz) sem nenhum problema.

The National @ Tim Festival
Eu não tenho tempo o suficiente agora para descrever a experiência; vou deixar isso para um post na terça ou quarta-feira, quando eu tiver voltado pra casa. Mas eles tocaram pra caralho, a voz do Matt tava macia como a bunda de um bebê francês, o set list foi bastante satisfatório, “Baby We’ll Be Fine” destruiu meu coração, eu fiquei rouco de gritar e nós (eu e amigos) passamos uns 25 minutos em total falando com membros da banda (e sim, tirando fotos). Nada mal.

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SPIFF – Sexta 24

Postado por Luis Calil

O Silêncio de Lorna
(Irmãos Dardenne) – 8
Típica excelência Dardennesca. Tá tudo aí: narrativa espetacularmente econômica (a revelação da morte de um personagem é quase subliminar), os detalhes sugestivos, os momentos perturbadores que surgem da lógica inescapável da história (a cabeçada na parede é “dolorosa”), e aproximadamente no meio do filme, eu percebi que estava mais emocionalmente envolvido com a protagonista do que eu jamais tive na filmografia dos Dardenne. Nunca antes eu tinha visto um personagem deles num momento de felicidade, e a idéia de que ela ia eventualmente acabar fez meu estômago revirar. A “mudança” psicológica por qual a protagonista passa no terceiro ato é tematicamente simples e perturbadora, mas ela acabou distanciando o meu envolvimento na história. Mas é impossível não admirar.

Meu Winnipeg (Guy Maddin) – 6
Ocasionalmente hilário, mas a narração pirada e melodramática do Maddin fica monótona após um certo tempo, e as imagens – expressivas mas cansativamente frenéticas – servem mais para colorir o texto dele do que pra funcionar por si só ou adicionar novas dimensões. Eu consigo citar vários detalhes da prosa de Maddin (“toboganing children”) que eu adorei, mas as melhores cenas foram as recriações de momentos da sua infância com sua família (a maior parte interpretada por atores comicamente incompetentes). Se o filme inteiro fosse daquele jeito eu teria provavelmente o amado.

Queime Depois de Ler (Joel & Ethan Coen) – 8
Ocasionalmente hilário – Parte II, mas não tem a riqueza inventiva e emocional de O Grande Lebowski. Em outras palavras, eu não me importei muito com nada do que estava acontecendo, e as risadas eram secas e meio vazias. O que é a intenção, sim. É um filme sobre completos idiotas, ao contrário do Lebowski, que era um idiota admirável. Mas pra um filme funcionar sem nenhum ponto de identificação, ele teria que compensar formalmente ou tematicamente (ou pelo menos me fazer rir o suficiente pra esquecer). Não é o caso. Os Coen adicionam duas camadas paralelas de subtexto envolvendo o 11 de Setembro – uma realçando a paranóia desastrada dos personagens, e outra mostrando como a falha de comunicação entre a CIA e o FBI (e nesse caso, o Hardbodies) causou terríveis consequências – mas nenhuma das duas é particularmente incisiva ou desenvolvida. Eu ia ficar com um 7 respeitável pra esse, mas a profundamente engraçada cena final empurrou um pouco a nota.

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SPIFF – Quinta 23

Postado por Luis Calil

Adoração (Atom Egoyan) – 6
Qual é o ponto de começar o seu filme com a narrativa fragmentada e não-cronológica se você vai terminá-lo com monólogos explicativos longos e chatos recitados pela sua esposa? Fala sério. E como o D’Angelo disse, ocasionalmente surgem idéias no filme sobre terrorismo que, se fossem apropriadamente dramatizadas, teriam gerado um filme muito mais fascinante que o atual. O modus operandi do Egoyan – a fragmentação confusa citada acima – ainda é (inicialmente) excitante o suficiente pra valer a pena, sem falar nas ocasionais bizarrices, como a discussão com o taxista do sanduíche e a Sra. Egoyan aparecendo na rua usando máscaras do Oriente Médio. Mas ainda to esperando um Exótica 2.

Duska (Jos Stelling) – 3
Típica comédia preciosa deadpan de cinema de arte europeu, só que ainda mais retardada e previsível do que de costume, como Whisky para retardados. Eu não entendi o que o final “simbólico” teve a ver com o resto do filme, e nem quero. A única coisa que me manteve na cadeira foi o fato de que a atuação do cara que fez o Duska tinha momentos cômicos inspirados. Eu declaro que “Duska” a partir de agora é oficialmente gíria para “Mancada”.

Depois da Escola (Antonio Campos) – 9
Eu tava na Livraria Cultural ontem checando a sessão de CDs e fiquei alegremente surpreso quando achei o excelente disco novo do Burial – um artista obscuro o suficiente pra causar tal surpresa – numa das prateleiras. Minha reação foi pegar meu celular e tirar uma foto da minha mão segurando o disco, pra mostrar pros meus amigos fãs de Burial, nenhum dos quais possui o CD em si. Esse meu gesto é parte do tema de Afterschool, que lida com como a nossa capacidade e vontade de filmar e gravar e exibir nossas vidas (pelo o YouTube, por exemplo) afeta o jeito que nós comportamos. O próprio Campos chamou o filme de “ficção-científica no presente”, o que soa correto. O protagonista, Rob, é um Holden Caulfield da vida, usando essa recente tecnologia para tentar encontrar momentos não afetados, momentos de verdade pura. Campos, um pirralho (25 anos) filho de brasileiros, apresenta a jornada de Rob de uma forma extremamente perturbadora, capaz de causar lágrimas de orgulho em Michael Haneke (que não parece ser o tipo que chora). Um soco no estômago. Quero rever.

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SPIFF – Quarta 22

Postado por Luis Calil

Enquanto um cara conversa com sua esposa na Argentina via webcam aqui do meu lado esquerdo, e outro utiliza a foto de um pênis negro no seu MSN no meu lado direito…

A Rotina Tem Seu Encanto (Yasujiro Ozu) – 5
Quando o Ozu descobrir qual é tal encanto, por favor me avisar  – ele não chegou lá ainda. As composições são frequentemente elegantes e confiantes, obviamente o trabalho de alguém que dirigiu por várias décadas, e ele faz certas observações (aparentemente) pertinentes sobre o Japão pós-Segunda Guerra (título alternativo: Saquê & Chope: Embebedando Para Esquecer a Dor), mas a montagem e as atuações rígidas e primitivas dão uma leve impressão de novela mexicana, só que sem o melodrama histérico. Um moleque sentado na minha frente comentou com os amigos – quando ocorreu algum problema na exibição e as luzes acenderam por alguns segundos – que “não é pra ter história ou um clímax, é um retrato do Japão naquela época.” Correto, mas eu não quero ver um retrato. Eu quero que alguém dê um soco na minha cara com o retrato do Japão no meio.

Na Mira do Chefe (Martin McDonagh) – 8
Tecnicamente não está no festival, mas merece ser citado. Escrito por um dramaturgo aclamado, você nota imediatamente que o filme tem uma sensibilidade distinta. A trama fala de dois assassinos profissionais que são enviados pra cidade Belga medieval de Bruges para esperar a barra limpar em Londres depois de um serviço. Um filme convencional teria usado os primeiros 10 minutos para introduzir os dois assassinos, estabelecer suas personalidades distintas, mostrar seu conforto em ambientes urbanos e mostrar o assassinato em si que leva a essa fuga; McDonagh abre já em Bruges, com a comédia de peixes-fora-d’água (mais sutil do que se espera) a todo vapor. Os diálogos frequentemente saem do assunto principal e vão parar em pequenos becos sem saídas extremamente engraçados, lembrando Tarantino e Shane Black. Até o anão do filme foge do seu típico papel de humor barato e vira um personagem quase tridimensional (ele usa antidepressivos e é racista). Está sendo exibido comercialmente – corram.

Horas de Verão (Olivier Assayas) – 8
Ristow postou ali embaixo se gabando do realismo de Gomorrah; se ele está tentando armar uma competição de “Quem faz o Realismo Mais Ultra-Hardcore?”, o Assayas chegaria pelo menos nas semi-finais. É um drama familiar – tematicamente, está no território de Toy Story 2, i.e., o dilema entre o valor histórico e o valor pessoal de um objeto de arte – como Rachel, mas sem a histeria do roteiro que lutava contra o Dogmamento do Demme. E ele possui vários detalhes extremamente sutis, totalmente irrelevantes à história, que deixam a experiência mais vívida e rica: em um momento, um dos personagens num restaurante caminha até um garçon, que está anotando algo em cima do balcão, e pede um café. O garçon sorri para ele e continua fazendo o que estava fazendo, e o personagem pausa por um milésimo de segundo em desconforto. O filme poderia ter perdido esse momento, mas foram coisas assim que me fisgaram com tanta força (há vários outros exemplos, que eu nao lembro mais por ter preguiça de fazer anotações durante a sessão). Rodrigo Pinder achou “muito francês – ninguém parava de falar!”, mas quando se tem Juliette Binoche, Charles Berling e Jeremie Renier falando o diálogo, reclamar é de mau gosto.

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Festival & SPIFF

Postado por Fabiano Ristow

Luis, a respeito de O CASAMENTO DE RACHEL (5)… A cena em que o prato do Ethan aparece é, possivelmente, a melhor do filme. Especialmente porque ela é pateticamente tensa – na verdade, eu é que me senti patético quando me dei conta de que estava tenso. O cara tocando notas agudas no violino vem a calhar.

Por outro lado, você definiu exatamente a postura que assumi assistindo ao filme: uma mistura de comoção com apatia. Ele oscila entre tentativas de fugir do drama hollywoodiano artificial pré-fabricado e momentos que são, de fato, dramas hollywoodianos artificiais pré-fabricados. Ele praticamente está recebendo mais mérito pelo que tentou fazer pelo que de fato é – exatamente o caso da Anne Hathaway, que não merece o Oscar, mas diz-se que merece porque ninguém esperava vê-la numa atuação acima da média.

Fucking ultra realista é GOMORRA (7). Sim, ainda é possível fazer algo incrível envolvendo máfia italiana depois de Família Soprano. Aqui não tem cavalos decepados, assassinatos em restaurantes e esporros de sangue. Na verdade, é tudo meio sujo, meio suburbano, meio regata em vez de terno; tudo meio sem carisma, meio frio – enfim, como deve ser essa máfia na vida real. Os atores devem ter se esquecido de que havia câmeras filmando-os, e ficaram lá, explicando pra gente como funciona o quarto setor.

Gomorra é TÃO realista que faz O SILÊNCIO DE LORNA (6) (estrelando a irmã de Ellen Page – o quê, não era a irmã da Ellen Page?) parecer filme universitário com atores do Tablado, e olha que estamos falando dos Dardenne. Mas disso eu falo depois.

Luis e amigos, comprem a camisa da Mostra deste ano, custa apenas R$ 11.

THE NATIONAL amanhã.

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SPIFF – Terça 21

Postado por Luis Calil

Procedimento Operacional Padrão (Errol Morris) – 7
Procedimento operacional padrão pro Morris, que faz o seu esquema de sempre: consegue tanto questionar o julgamento duvidoso dos soldados envolvidos nas fotos grotescas de Abu Ghraib quanto sublinhar o fato de que eles estavam apenas “recebendo ordens”, e que foram irresponsavelmente jogados num ambiente cuja idéia de certo e errado ficava cada vez menos clara e relevante (a tal da “Névoa da Guerra”) – tudo isso filmado no seu típico estilo expressivo: em um momento, Morris explica como foi criada a linha de tempo de todas as fotos tiradas, e parece a apresentação de Power Point mais elegante de todos os tempos. Uma pena que Morris não decidiu investigar a natureza de Fotografias em si, como estava fazendo em suas dissertações no New York Times.

O Casamento de Rachel (Jonathan Demme) – 7
Fascinante pelo cabo de guerra entre o estilo ultra-naturalista, camera-na-mão, Dogmaesco que Demme escolheu e o roteiro de Jenny Lumet (filha do Sidney [opa, Sidney é o nome do noivo no filme. Hmmm…]), que tem uma leve dose de conveniências dramáticas – tipo o infeliz que ela encontra no salão de beleza, ou o prato de Ethan aparecendo naquela hora – e uma grande dose de monólogos e confrontos melodramáticos, as vezes dando um ar de novela das 8. Não sei mais o que falar, além de que eu me emocionei em alguns momentos, e passei o resto do filme – especialmente quando os personagens davam alfinetadas e roundhouse kicks emocionais nos outros – impressionado mas estranhamente apático.

Sinédoque, Nova Iorque (Charlie Kaufman) – N/A
Não venderam o ingresso pela internet, e não tive tempo de comprar quando cheguei, então esgotou. Mas não faz mal; com 3 horas de sono nas últimas 24, eu ia acabar dormindo mesmo.

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Reduzindo a Mostra de SP a Comentários Banais

Postado por Luis Calil


                                                                        Muito caro!”

Amanhã eu chego em São Paulo e começo a assistir filmes de arte da Mostra de SP aos montes por 6 dias, e de quebra o show do The National no TIM Festival. Tentarei providenciar curtos comentários sobre tais filmes de arte e tal show do The National diariamente neste local. Você pode querer checar aqui de vez em quando essa semana. Você pode não querer fazer isso. A escolha é sua. Ninguém vai ter forçar a fazer nada. Cada um Vive Como Quer.

Essa é a minha provável programação, caso você queira me perseguir:

Terça 21

Procedimento Operacional Padrão – 14:50 – Unibanco Arteplex
Novo filme do Errol Morris. Fabiano Ristow uma vez me pediu pra fazer um trabalho de faculdade dele sobre um documentarista, e eu fiz um enorme sobre a vida e filmografia de Errol Morris. Eu tirei a maior nota da sala dele. Agora eu estou recompensando o Morris.

O Casamento de Rachel – 17:40 – HSBC Belas Artes
Raquel está se casando.

Sinédoque, Nova Iorque – 21:40 – IG Cine
Charlie Kaufman está debutando.

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