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Advogado do Diabo: A Ingrata Tarefa de Defender Anticristo

Postado por Rodrigo Pinder

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Nenhum filme fez mais barulho em Cannes do que Anticristo, inclusive no senso literal: risos e gemidos incrédulos durante os momentos mais chocantes da projeção foram um mero prelúdio para a trilha cacofônica de aplausos e vaias (as vaias venceram) que acompanhou os créditos finais. Críticos estupefatos imediatamente condenaram-no como ofensivo, questionando sua presença entre a seleção oficial do festival; alguns ficaram especialmente indignados ao descobrir que Lars Von Trier dedicara um filme contendo mutilação genital explícita a Andrei Tarkovsky.

A fogueira estava acesa, e o júri ecumênico (cuja função habitual é premiar um filme que promova “valores espirituais e humanistas”) se sentiu na obrigação de despejar mais lenha, desdobrando uma manobra agressiva: Anticristo recebeu um Antiprêmio (lol), por sua “visão misógina.” O júri de verdade, por sua vez, indicou-o à Palma de Ouro e premiou Charlotte Gainsbourg por sua (corajosa, assustadora) atuação. A verdade é que o filme estava fadado a provocar controvérsias e reações radicais do tipo ame-ou-odeie desde sua concepção.

Quando lidando com uma obra extremamente pessoal e totalmente destituída de convenções de gênero (apesar de vendida como “terror”), é difícil tentar impor uma síntese dialética à sua recepção e chegar a um consenso do tipo “fãs de isso e aquilo vão gostar.” Sua apreciação vai depender muito do quanto você se sintonizar com a sensibilidade bizarra do filme. Mas isso não funciona para a mídia, que trabalha com rótulos de caracteres limitados. Afinal, seria Anticristo uma bomba, uma piada, uma obra-prima ou o quê?

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O Melhor Filme de Cada Ano Em Que Estive Vivo – Part Une

Postado por Luis Calil e Rodrigo Pinder

Recentemente, um dos escritores do A.V. Club, Steven Hyden, publicou uma lista com o seu álbum favorito de cada ano em que ele esteve vivo. Como os participantes do Discreto Blog não têm vergonha na cara, nem a paciência de produzir material original consistentemente, decidimos entrar na onda e criar nossa própria lista.

A diferença vai ser a mudança de álbuns para filmes, pois – como ficou óbvio nesta última semana – somos mais cinéfilos do que audiófilos (o que não quer dizer que uma versão musical não possa aparecer mais cedo ou mais tarde). Também vamos incluir alguns comentários, pois se aprendemos alguma coisa recentemente, é que o brasileiro adora ler.

Duas regras: (1) Vamos começar a partir do ano em que eu nasci, pois o Ristow não vai participar dessa primeira parte, e não queremos botar o Rodrigo pra escolher e escrever sobre 27 filmes. (2) Nada de repetecos; se dois de nós escolherem o mesmo filme, um deles muda pro segundo melhor. Ah, e utilizamos as datas do IMDB.

1986

Luis: A Costa do Mosquito (Peter Weir)
Peter Weir fazendo Werner Herzog, com o Han Solo incorporando o arquétipo do lunático ambicioso que o Klaus Kinski consagrou. A atmosfera da floresta não chega à intensidade embasbacante de Aguirre: A Cólera dos Deuses, mas também não é muito longe disso.

Rodrigo: A Mosca (David Cronenberg)
A fusão entre terror e romance nunca vai ser perfeita, assim como a fusão entre homem e mosca, mas Cronenberg consegue fazer dela um espetáculo asquerosamente fascinante. Em outras notícias, qual é exatamente a conexão entre o ano de 1986 e insetos (ver acima)? Discutam.

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A Face Não-Tão Oculta De William Peter Blatty

Postado por Rodrigo Pinder

O Discreto Blog da Burguesia pede paciência a seus passageiros enquanto enveredamos por caminhos insólitos. Em breve voltaremos à nossa programação normal, mas, por hora, acompanhem-nos em uma incursão ao passado-não-tão-distante:

À sua direita vocês podem observar a prole dos baby boomers espatifando o Muro de Berlim, abrindo caminho para a hegemonia do capitalismo. À sua esquerda, yuppies regozijam-se no materialismo enquanto uma pletora de artistas americanos levanta fundos para ajudar a Etiópia; Nós Somos O Mundo, aparentemente. Um pouco à frente da parábola descrita pela ascensão e queda da música Disco, hippies hedonistas profetizam a Era de Aquário. Mais adiante, pegadas humanas são impressas no solo arenoso do satélite solitário de nosso planeta. Peças de roupa íntima feminina são incineradas.

Deixemos tudo isso para trás, no entanto. Avançando além dos destroços da Guerra do Vietnã, encontramos um romancista que teve a chance de apostar em uma carreira literária graças aos $10.000 ganhos em um game show, iniciou sua participação no cinema escrevendo roteiros para comédias de Blake Edwards e se consagrou com um dos filmes de terror mais famosos de todos os tempos.

William Peter Blatty é o dono da mente doentia por trás de “O Exorcista”, sendo responsável tanto pelo livro quanto pelo roteiro oscarizado do filme de William Friedkin. A história da menina possuída pelo demônio Pazuzu, já há muito tempo incrustada no cânone da ficção religiosa, obviamente dispensa apresentações. O pecado que muitos cinéfilos cometem, todavia, é ignorar o talento singular de Blatty como diretor – o que é compreensível: ele só dirigiu dois filmes, um bastante obscuro e outro infelizmente enfastiado pelo estigma de seqüência-inferior-ao-original.

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